AIDS e COVID-19: O que podemos aprender da comunidade LGBTI+ e qual o lugar da religião

AIDS e COVID-19: O que podemos aprender da comunidade LGBTI+ e qual o lugar da religião
André S. Musskopf 15 de maio de 2020

A COVID-19 e o coronavírus pegaram muitas pessoas de surpresa e sem saber o que fazer diante da pandemia. É uma situação nova e que coloca muitos desafios. De repente essas palavras entraram no vocabulário das pessoas e dominam conversas e ações cotidianas (pessoal ou virtualmente) e busca-se encontrar algum sentido para o que está acontecendo, para o que aconteceu ou para o que acontecerá. Achávamos que não podia acontecer nada pior e parece que a possibilidade da situação piorar é ilimitada.

Não há dúvidas (para a maioria das pessoas) de que a pandemia de COVID-19 é uma situação grave, que atinge o mundo inteiro e que já mudou e mudará ainda mais a vida como a conhecemos. É e será preciso lidar com a morte (inclusive de pessoas próximas e queridas), lidar com as implicações do isolamento social (tanto quem o pratica como quem não) e lidar com novas formas de sociabilidade e percepção do mundo e de como viver nele.

As reações diante do que está acontecendo são muitas e diversas e inundam as redes sociais, os meios de comunicação e as relações cotidianas de famílias, amizades, trabalho, despertando os mais diversos tipos de sentimentos e ações. Tem de tudo e não tá fácil. De repente parece que tudo se intensifica: discursos e práticas de ódio e violência, sensações de impotência e inatividade e ações de solidariedade e esperança. E muito cansaço.

Já sabemos que esse tipo de situação não é inédito, mas, de alguma forma, faz parte da história da humanidade e do mundo que conhecemos. Em outros tempos chamados de pragas ou de pestes (termos que continuam povoando o imaginário social na forma de medo, culpa e estigmatização), esses eventos não são apenas fenômenos naturais (ou objeto de teorias conspiratórios), mas são marcados, principalmente, pelos significados sociais construídos a partir e ao redor deles.

Créditos: DWP Digital on Visual hunt / CC BY-NC-ND

A religião, como elemento da cultura, em suas muitas manifestações, também participa (fortemente) dos significados construídos em relação a essas situações. Através de seus elementos constitutivos, oferecem quadros de referência para ler a realidade que nos envolve, criam sentidos para determinadas questões relacionadas aos acontecimentos, mobilizam as pessoas a agir e se posicionar de distintos modos diante do que experimentam cotidianamente.

Não tem sido diferente no caso da COVID-19. Desde leituras apocalípticas de punição divina até redes de solidariedade e fortalecimento da esperança, temos visto de tudo em meio à pandemia. Lideranças e grupos religiosos lutando e desafiando as autoridades e recomendações sanitárias para manter seus espaços de culto abertos e cumprir suas agendas de reuniões e atividades – temos. Manifestações públicas (cantos, orações e outros rituais religiosos) tanto para interceder pelas vítimas quanto por algum tipo de intervenção divina – temos. “Deus acima de tudo” – também temos.

Mas, também temos inúmeras manifestações no campo religioso que lidam com a crise de outras maneiras. Lideranças e grupos religiosos se organizando para oferecer condições básicas de subsistência para as populações mais vulneráveis – temos. Manifestações públicas (geralmente de modo virtual) de denúncia das situações de injustiça, de apoio e conforto diante de um quadro de absoluta instabilidade – também temos. O campo religioso segue sendo um campo de disputa entre significados e concepções de mundo distintas e até antagônicas.

Para algumas pessoas pode parecer estranho querer traçar algum paralelo entre a pandeia de COVID-19 e a AIDS. Mas para pessoas, grupos e para a comunidade LGBTI+ há muitas similaridades que podem ser percebidas, particularmente para o universo religioso e suas respostas à situação. Nas décadas de 1980 e 1990 e, de certa forma, até hoje, nós tivemos que articular nossas próprias respostas no campo da medicina, do tratamento e do cuidado, da política e da economia e, também no campo da religião. Esta relação já é tema de estudos e reflexões e apresento, a seguir, apenas algumas considerações.

Uma doença desconhecida

A COVID-19 surgiu como uma doença nova e desconhecida. As primeiras informações, especialmente para o Ocidente, vinham de um lugar distante e, no geral, desconhecido e não parecia ter nada a ver com a gente. Era um problema de outros e outras, muito diferentes de nós, e enquanto não nos afetava a maioria nem prestava atenção. Quando chegou mais perto não soubemos como lidar com ela e tem sido mais fácil culpar esses outros e essas outras e não assumir responsabilidade.

Com a AIDS também foi assim. Hoje já sabemos que milhares de pessoas morriam na África antes que a doença fosse notícia e gerasse preocupação e consciência dos riscos em outros contextos. Apenas quando atingiu a Europa e os Estados Unidos foi que se passou a prestar atenção e investigar do que se tratava. Os sintomas, assim como no caso da COVID-19, também não eram necessariamente diferentes dos de outras enfermidades. Ainda assim, também era algo estranho e que, aparentemente, não nos dizia respeito. Governos e centros de pesquisa demoraram em buscar respostas, também por outros motivos que veremos abaixo.

Não nos faltam falas e movimentos que querem diminuir a gravidade do que está acontecendo, chamando de “gripezinha” e dizendo que “brasileiro não pega nada”. É uma forma de negar a realidade e, pior, sustentar um sistema que não sabe lidar com o desconhecido, particularmente quando não atinge quem é privilegiado e não ameaça os seus privilégios.

Lição 1: não trate o problema que você acha que é de outras pessoas como se não fosse seu ou diminua o seu sofrimento. Somos parte de uma mesma comunidade humana e parte de um mesmo organismo vivo que é o mundo que habitamos.

Os grupos de risco

Sem conhecimento sobre a doença, começou-se, como é próprio da produção de conhecimento (acadêmico ou popular), a observar os efeitos da COVID-19. Para além dos sintomas e dos efeitos da presença do vírus no organismo (muitas vezes permanecendo assintomático ou sem se manifestar de forma aguda), passou-se a identificar determinadas características comuns nas pessoas infectadas e, principalmente, naquelas que morriam em função da infecção. E se começou a falar em “grupos de risco” – composto por pessoas que tivessem condições específicas que as tornariam mais suscetíveis a sofrer com as consequências do vírus e da doença. E a cada dia vemos esses grupos de risco aumentarem e as exceções virando casos comuns.

Com a AIDS também foi assim. Quem não lembra dos “H” que ficaram famosos como “grupos de risco” (homossexuais, hemofílicos, heroinômanos/as, prostitutas – hookers e haitianos/as). Levamos décadas tentando desconstruir essa ideia, passando a falar em “comportamentos de risco” e, finalmente, em “vulnerabilidade”. Para isso, foi necessário que o vírus e a doença se espalhassem em proporções pandêmicas e devastadoras evidenciando que não há uma “predileção” do vírus por determinadas pessoas com determinados comportamentos, mas que todas as pessoas estão expostas e que existem situações estruturais que tornam as pessoas mais ou menos vulneráveis a se infectarem, adoecerem e perderem a vida (muito mais até do que questões físicas ou biológicas).

Essa identificação de supostos “grupos de risco”, sem uma leitura aprofundada e interseccional do que efetivamente causa esses “riscos” é o que fez com que se estigmatizasse esses grupos (ademais muito diversos entre si), dando uma falsa sensação de proteção a quem não pertencia a nenhum deles. Por outro lado, motivou toda uma campanha de limpeza social baseada em códigos morais discriminatórios, muitas vezes motivada ou potencializada por discursos religiosos. É do que se trata o “isolamento vertical” (apenas para os “grupos de risco”), um tipo de apartheid social baseado em argumentos de custo/benefício numa perspectiva econômica perversa e/ou em preconceitos fundados em noções de pureza e impureza. Não é de hoje que se defende que os “gastos” com pacientes com AIDS ou com COVID-19 são bad for business.

Lição 2: não estigmatize as outras pessoas fingindo que está em proteção e não coloque a sua vida acima da vida das outras pessoas – em nome da fé ou de qualquer outro sistema de crenças e valores (inclusive científicos ou econômicos). O que atinge uma pessoa atinge todas as pessoas e mesmo que você sobreviva, a responsabilidade pelas mortes e destruição estarão contigo sempre.

A máscara

Com o avanço dos conhecimentos sobre as formas de propagação e contágio do coronavírus inúmeras estratégias têm sido adotadas para evitar a doença, para “achatar a curva” e evitar o colapso dos sistemas e serviços de saúde. A máscara, mais recentemente, passou a ser um grande símbolo dessas medidas e seu uso estendido a todas as pessoas. Há campanhas para seu uso, tutoriais ensinando as formas corretas de utilização e denúncias de quem não usa, muitas vezes carregadas de uma superioridade moral. Há relatos de incômodo com seu uso, de sua suposta ineficácia ou mesmo da descrença em relação ao objeto e tudo o que ele representa.

Com a AIDS também foi assim. Conhecidas as formas de transmissão, não exclusivamente, mas predominantemente através de relações sexuais, a “camisinha” passou a ser o elemento introduzido nas relações como forma de proteção e salvação última diante da ameaça do contágio. A recomendação e obrigação de seu uso se tornaram um mantra em nossas campanhas e o pedaço de “borracha” foi altamente moralizado, muitas vezes desconsiderando todas as questões objetivas e subjetivas implicadas no seu uso. Se todo mundo usasse sempre, o vírus e a doença deixariam de existir. Não há dúvidas de que o uso do preservativo tem evitado inúmeras contaminações e mortes e que é um elemento fundamental na prevenção e no cuidado. Mas a vida é muito mais complexa e multifacetada do que uma medida aparentemente simples e razoável é capaz de dar conta.

As recomendações médicas e científicas são fundamentais para o enfrentamento de qualquer doença. A criação de estratégias de enfrentamento e prevenção tornam possível o controle de uma pandemia e sua eventual superação, mas não resolvem todas as questões implicadas nos processos de adoecimento e morte que afetam as pessoas e grupos sociais. O descrédito e o mau uso por parte de lideranças políticas e religiosas são um perigo a mais diante das problemáticas que já existem e sua moralização ou desmoralização prejudicam os efeitos positivos que poderiam ter.

Lição 3: use máscara e use camisinha! Mas não acredite que esses objetos tornam você imune à doença e aos seus efeitos (que estão muito além de ser contagiado ou não) e nem os moralize (achando-se superior a quem usa) ou desmoralize (achando-se superior e sem necessidade de usa-los) compreendendo a complexidade que envolve seu uso ou não uso.

Cuidados e tratamentos

Assim que a COVID-19 assumiu caráter epidêmico e, depois, pandêmico, a grande pergunta passou a ser como cuidar das pessoas afetadas por ela e quais as opções de tratamento. A suspeita ou a possibilidade de contágio geraram e continuam gerando tanto formas de segregação, quanto incontáveis formas e redes de solidariedade, seja com quem está infectado ou infectada, seja com quem pode vir a ser infectado ou infectada. A possível e real falta de UTI equipadas com ventiladores ou de profissionais com capacidade para o atendimento atingem muitas partes do país e do mundo. Pesquisas com relação a medicamentos, vacinas e formas de tratamento estão em andamento em todas as partes. Aqui e ali surgem recomendações, nem sempre de maneira séria, responsável e com o devido embasamento.

Com a AIDS também foi assim. É verdade que por conta da estigmatização dos assim chamados “grupos de risco” tardou-se muito em acionar os dispositivos capazes de oferecer cuidado e tratamento. Diante do adoecimento e da morte foram fundamentalmente as pessoas e comunidades LGBTI+ que deram as primeiras respostas à pandemia de HIV/AIDS cuidando das pessoas doentes, produzindo e disseminando informações de prevenção e tratamento disponíveis e pressionando órgãos e autoridades (supostamente) responsáveis por desenvolver estratégias (políticas) de enfrentamento. Foram surgindo e sendo desenvolvidos medicamentos (nem sempre de eficácia comprovada) e o famoso “coquetel” surgiu como uma forma de tratamento eficaz (apesar de todos os efeitos colaterais, altos custos e complexidades na administração do tratamento).

Há muitas notícias de formas de tratamento e cura (mais ou menos oficiais) circulando, inclusive por parte de autoridades governamentais. Muitas delas hoje são chamadas de “fake news”. Ainda há promessas de cura e proteção em rituais religiosos para a AIDS e, agora, para a COVID-19. Ainda há pessoas que acreditam na inevitabilidade dos danos e justificam sua incapacidade de oferecer respostas com um cínico “e daí”. Em muitos casos temos que assumir a responsabilidade de cuidar de nós mesmos e mesmas, das pessoas que queremos bem e de quem está ao nosso redor por conta da ineficiência e perversidade de quem esperaríamos atitudes mais proativas e empáticas. Em todos esses casos a religião ou valores e crenças religiosas podem embasar as motivações para agir ou se omitir.

Lição 4: a necessidade de cuidado e tratamento não espera. Os sofrimentos causados pela doença e suas consequências são reais e atingem as pessoas naquilo que é mais importante – a sua vida e a vida ao seu redor. Não se deve ignorar ou minimizar a dor de quem lida com a doença diretamente ou, pior, culpabiliza-las pelo que estão passando. É preciso pressionar quem tem a responsabilidade de prover cuidado e tratamento sem deixar de solidarizar-se ativamente com quem sofre.

Resistência

A COVID-19 evidencia as forças de morte que, para além dos malefícios do vírus e da doença, intensificam e potencializam a sua letalidade e destrutividade. A preponderância de uma economia baseada na exploração e no lucro (com seus defensores políticos, científicos e religiosos), sem dúvida, é o obstáculo mais difícil de ser superado. Exigência de produtividade para quem está em isolamento e home office ou pressão para abertura de comércios e atividades não essenciais são apenas algumas faces desse mal. Não se pode parar de produzir, a economia não pode parar, o PIB, as taxas de desenvolvimento. Movimentos de resistência, como de trabalhadores e trabalhadoras que vão aos locais de trabalho e mantêm as distâncias recomendadas ou evitam aglomerações ou de profissionais da saúde reivindicando condições de trabalho e denunciando as políticas de morte, são fundamentais para alertar a população e fazer frente a essas forças.

Também foi assim com a AIDS. Pessoas infectadas, doentes e aquelas que acompanhavam essas pessoas foram, muitas vezes, vistas como um “peso” para a sociedade, como não produtivas e, por isso, passíveis de serem eliminas e sofrerem as consequências do que se considerava ser simplesmente suas próprias escolhas (ruins). Manifestações e campanhas fortes e bem articuladas foram necessárias para que se começasse a prestar atenção ao que estava acontecendo e às medidas necessárias para o enfrentamento (além do crescente número de mortes causadas pela doença). Muitas pessoas e grupos foram atacados, violentados, ridicularizados e demonizados por suas práticas de resistência. Mas também foram essas ações que mobilizaram cada vez mais pessoas a se envolver com a problemática e cobrar ações eficazes para a prevenção e o tratamento.

O maior desafio para uma efetiva resistência parece ser, hoje, justamente o isolamento social que é, ao mesmo tempo, a principal medida de proteção e prevenção. Aglomerações e protestos (uma estratégia política comum e, no geral, eficaz) não são possíveis nesse momento. Com isso, as redes sociais têm sido espaços privilegiados para ações desse tipo, mas também há outras formas possíveis e sendo articuladas em diferentes comunidades e grupos. Nesses processos não apenas se resiste (em sentido de passividade), mas também se produz novos conhecimentos e novas formas de relações que têm o potencial de recriar a realidade com a qual convivemos.

Lição 5: é necessário resistir às forças e projetos que geram morte e não se render às tentações de uma “normalidade” que, em grande medida, é parte do problema que estamos vivendo. A resistência é um fator fundamental de construção de alternativas para um futuro não apenas sustentável, mas viável.

Religião e ciência

O problema entre religião e ciência é eminentemente Moderno. Ele tem se evidenciado sempre de novo, particularmente em situações de crise e conflito. Não é diferente no caso da COVID-19, assim como foi em relação à AIDS, ou assim como é em questões muitos menos polêmicas, mas muito mais comuns como a pobreza, a fome, a desigualdade social e a violência. Em todas as situações que tocam em questões de vida e de morte o embate reaparece justamente porque se pretende que ambas, vistas e defendidas separadamente, seriam capazes de oferecer uma resposta eficiente e definitiva para a resolução de problemas. Mas trata-se de um falso dilema.

Ciência e religião, como linguagens que organizam e dão sentido à vida, oferecem respostas tanto provisórias, quanto complementares em qualquer situação que se tenha que enfrentar. No caso de sistemas e forças que provocam a morte, inclusive, podem se aliar e compartilhar as respostas articuladas por determinados grupos e setores da sociedade. Nesse falso dilema esconde-se a pergunta por “qual religião” e “qual ciência”. Ainda que se possa reconhecer os benefícios imediatos de um determinado conhecimento cientificamente validado, as motivações e os pressupostos implicados nesse mesmo conhecimento podem indicar para caminhos diferentes. Queremos vacinas e medicamentos para salvar vidas e relações de afeto e cuidado ou para não parar a produção e o desenvolvimento – em suas formas exploratórias, violentas e destrutivas.

Também é certo que determinadas formas de religião e determinadas formas de ciência ganham maior preponderância e capacidade de persuasão em determinadas circunstâncias. Em diferentes momentos o poder (em nosso caso econômico) de impor uma determinada visão (científica ou religiosa, afinal a eugenia também era e é “científica”) determina a maior propensão ou obrigação em assumir uma postura mais científica ou mais religiosa (ou as duas ou nenhuma delas). Ideias de punição divina e predestinação para a vida ou a danação não nos ajudam a perceber de que forma a COVID-19 ou a AIDS afetam a vida das pessoas e a busca por soluções e respostas. Ideias de abstração científica e cálculo matemático também não ajudam porque, muitas vezes, ignoram os sentidos profundos que situações como essas tocam.

Lição 6: precisamos da ciência e da religião, de maneira diferente, para diferentes pessoas em situações diferentes. Opor um tipo de conhecimento a outro mantem o paradigma da monocultura e do monoteísmo que a tudo responde, em todos os tempos e lugares. Desprezar um conhecimento em relação ao outro só aprofunda a crise e as dificuldades que estamos vivendo, desrespeitando as pessoas e seus sistemas de valores e crenças. Em tudo discernimento.

A COVID-19 e a AIDS não são a mesma coisa, os contextos não são os mesmos e as questões implicadas são diferentes. Ainda assim, há similaridades em relação às formas de entende-las e buscar soluções. Há semelhanças persistentes em relação aos sistemas e quadros de referência acionados para responder aos desafios colocados.

Não estou dizendo nada necessariamente novo ou original, mas me unindo ao coro de vozes (por detrás das máscaras) e às mãos (devidamente higienizadas ou com luvas) que lutam e que entendem que é preciso uma transformação radical do nosso jeito de viver e conviver. As soluções não virão de grandes teorias ou de lideranças políticas e religiosas messiânicas, ainda que possam ser gestadas em espaços de produção de conhecimento, nos debates e práticas políticas e nas sabedorias e práticas de diferentes tradições religiosas, desde que experimentadas e desenvolvidas a partir das relações cotidianas de afeto e empatia.

É justamente desse cotidiano e das práticas de solidariedade e cuidado, particularmente lá onde mais há carência de condições materiais de lidar com a citação e as formas de cuidado desenvolvidas por essas pessoas e comunidades, que as estratégias e concepções de mundo mais revolucionárias podem emergir. E, talvez, a grande ironia para algumas pessoas, seja que a comunidade LGBTI+ tenha algo a ensinar nesse processo. Mas sempre há quem prefira menosprezar e ignorar.

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