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Em tempos líquidos como corroborar para uma sociedade mais empática por meio da ética da responsabilidade de Lévinas?

Em tempos líquidos como corroborar para uma sociedade mais empática por meio da ética da responsabilidade de Lévinas?

Em um mundo mecânico como o do século XXI, dizer sobre o Outro e sua necessidade de equidade de direitos e visibilidade é ser tido como “militante”. Todavia, muito além dessa militância, Lévinas nos aponta a ética da responsabilidade, conceito capaz de gerar reflexões acerca da alteridade na singularidade humana, a fim de construirmos uma sociedade empática.

Inicialmente, vale salientar que Lévinas (1997) afirma que a tradição filosófica do ocidente fomenta a racionalidade exacerbada conivente com atitudes desumanas, afinal, para ele, a totalidade (falta de inclusão) levou às duas Grandes Guerras Mundiais. Diante dessa tentativa de reconstrução, ele introduz o conceito de “alteridade”, que, em linhas gerais, trata-se da necessidade de olhar o outro sem dominação, criando uma responsabilidade com este, na íntegra:

 “É sempre a partir do rosto, da responsabilidade por outrem, que aparece a justiça, que comporta julgamento e comparação daquilo que, em princípio, é incomparável, pois cada ser é único; todo outrem é único. Nesta necessidade de se ocupar com a justiça aparece a ideia de equidade, sobre a qual está fundada a ideia de objetividade. Há, em certo momento, necessidade de uma pesagem, de comparação, de pensamento, e a filosofia seria, nesse sentido, a aparição da sabedoria a partir do âmago desta caridade inicial; ela seria – e não brinco com as palavras – a sabedoria desta caridade, sabedoria do amor.” (LÉVINAS, 1997, p. 144).

Ou seja, há, em nós, uma necessidade constante de eleidade: ele é ele, ela é ela. Isso se dá para reconhecer que o outro deve ser respeitado dentro de sua singularidade, afinal, se não reconhecermos a pluralidade dos outros não existiriam culturas e diversidades. Além disso, ao pensarmos sobre inclusão, é de suma importância que a origem desta parta do reconhecimento singular de cada sujeito, com o fito de que a equidade seja eficaz na sociedade, para isso vale pensar muito além dos rótulos e categorizações externas.

A partir dessa quebra de paradigmas, entender além da superficialidade, significa se sensibilizar pela fragilidade do outro, não por “coitadismos”, mas para reconhecer que humanidade se faz intersubjetivamente. Paralelamente, afirma Lévinas (1988): “[…] o rosto de Outrem está nu; é o pobre por quem posso tudo e a quem tudo devo. E eu, que sou eu, mas que enquanto ‘primeira pessoa’ sou aquele que encontra processos para responder ao apelo” (LÉVINAS, 1988, p. 37-38 e p. 61-62), isto é, há, nos sujeitos, uma responsabilidade com o outro, pois não existe um Eu singular sem a pluralidade do outros Eu’s, afinal, Eu sou Eu, pois existem características que me diferenciam de outros Eu’s, e, é indubitável que há beleza nessa relação de reconhecer o outro e me sensibilizar pelas suas peculiaridades.

Em meio ao contexto contemporâneo de sucateamento subjetivo, os seres humanos demasiadamente racionais, apostam na objetividade tecnicista da lógica capitalista em detrimento aos valores, crenças e compartilhamentos culturais, em contrapartida ao apontamento de Jung: Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana. Ou seja, além do material e da força de trabalho há um humano que não pode ser resumido à força física e produtiva.

Em paralelo, Bauman (2001) afirma:

Os fluidos se movem facilmente. Eles ‘fluem’, ‘escorrem’, ‘esvaem-se’, ‘respingam’, ‘transbordam’, ‘vazam’, ‘inundam’, ‘borrifam’, ‘pingam’, são ‘filtrados’, ‘destilados’; diferentemente dos sólidos, não são facilmente contidos – contornam certos obstáculos, dissolvem outros e invadem ou inundam seu caminho… Associamos ‘leveza’ ou ‘ausência de peso’ à mobilidade e à inconstância: sabemos pela prática que quanto mais leves viajamos, com maior facilidade e rapidez nos movemos (BAUMAN, 2001, p. 8).

Em outras palavras, complementando as afirmações de Lévinas, a liquidez proposta por Bauman retrata exatamente como a lógica capitalista reduziu as vidas a lixos descartáveis, pois a lógica do consumo tornou-se mais importante que a essência do ser. Além disso, tudo se tornou efêmero, o tempo tornou-se dinheiro, a produção passou de signos e significações para bens de consumo com data de validade, infelizmente, a obsolescência programada está sendo a caracterização de vidas.

Hodiernamente, a liquidez é catalisada pelas redes sociais on-line, em que grande parte da riqueza cultural, interativa e geracional, em muitos casos, restringe-se à Whuffie. O termo criado por Cory Doctorow (2003, apud FERREIRA, 2019), designa uma “moeda” baseada no Capital Social adquirido, isto é, surge uma nova economia virtual, em que as moedas são o Whuffie, os produtos são as postagens que têm como consequência as visualizações, que por sua vez atraem seguidores, tendo como “pagamento” o aumento do Capital Social.

Além desse novo sistema econômico, baseado na influência, instituem-se, na contemporaneidade, tecnologias de disciplina. Isso acontece ao impor controles invisíveis, como argumenta Deleuze (1990): a disciplina é manifestada pelos padrões de beleza e felicidade impostos nas redes sociais. Fazendo um paralelo, o poder que anteriormente era concentrado nas mãos do rei no contexto das monarquias hodiernamente, é difuso e socialmente aceito. Utilizando de uma ilustração proposta pelo autor, assim como as ondas, o mundo contemporâneo se modifica o tempo todo, assimilando também as serpentes que rastejam a céu aberto sem saberem ao certo de onde vem o destino, ela se modula pelas adversidades impostas.

Para ilustrar todo o parâmetro construído, o episódio da série Black Mirror (2019), Queda Livre (Free Fall), instiga o expectador a refletir sobre a toxicidade da superexposição on-line por meio do utópico cenário virtual que classifica os internautas em notas de 0 a 5. O clímax do enredo é quando Lacie é convidada por Naomi para ser madrinha de casamento, não por afinidade, muito menos consideração, mas pela avaliação 4,2 da jovem no aplicativo star, todavia a convidada aceita o convite afinal, pessoas com avaliação 4,5 estarão na cerimônia. Após a breve ilustração, vale a reflexão: Quem somos nós fora das redes sociais?

Como uma alternativa para atenuar a problemática, Lévinas (2009) afirma:

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A passividade pura que precede a liberdade é responsabilidade. Mas a responsabilidade que não deve nada à minha liberdade é minha responsabilidade pela liberdade dos outros. Lá onde eu teria podido permanecer como espectador, eu sou responsável, em outros termos, tomo a palavra (LÉVINAS, 2009, p. 77).

Mediante ao supracitado, a fim de erradicar ações mecânicas e intolerantes, faz-se necessário assumir a Responsabilidade pelo Outro, expressada no Rosto, que cabe a cada um abraçar a sensibilidade do próximo em sua essência e vulnerabilidade. Todavia, vale salientar que essa responsabilização é assimétrica, isto é, ela é sentida sem escambos, não necessariamente recíproca.

Portanto, quando encararmos os sujeitos ao nosso redor, a partir da ética do rosto, as lentes da realidade serão convertidas ao único foco: o Outro que revela sua subjetividade na nudez de seu rosto, rosto este impulsionado pela empatia e solidariedade que acolhe e reconhece, através dessa transcendência, o sentido da existência dos outros e na responsabilidade com estes.

Para finalizar, a proposta se faz essa: que nos solidarizemos com o sofrimento do outro, por meio da compaixão, amor e justiça. Sem desprezo do outrem independentemente, de sua condição, pois é através do rosto que vem o apelo para uma vida de devoção, afinal os meus próximos. Assim como já citado anteriormente, são quem me possibilitam ser, sem eles nada sou, torno-me expressão do absoluto. Devido a isso vale a reflexão: as lógicas capitalistas e o Capital Social são mais importantes que o Outro? O constante sucateamento subjetivo e psicológico dessa modernidade é sustentável? As lógicas do consumo e obsolescência são aplicáveis ao meu próximo?


Referências

BAUMAN. Z. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.
DELEUZE, Gilles. Post-Scriptum sobre as Sociedades de Controle. Traduzido por Peter Pál Pelbart. Conversações, Rio de Janeiro. 1990. Ed.34. Disponível em: edisciplinas.usp.br. Acesso em: 02 de out. de 2020.
FERREIRA, Jacqueline. Você sabe o que é Whuffie? Jacqueline Ferreira, 17 de nov. de 2019.Disponível em: jacquelineferreira.wordpress.com. . Acesso em: 03 de out. de 2020.
LEVINAS, Emmanuel. Entre Nós. Ensaios sobre a alteridade. 3ª. ed. Petrópolis: Vozes, 1997. Disponível em: olimpiadadefilosofiasp.files.wordpress.com. Acesso em: 01 de set. de 2020.
LEVINAS, Emmanuel. Ética e Infinito: diálogos com Philippe Nemo. Tradução de João Gama. Lisboa: Edições 70, 1988a.
LEVINAS, Emmanuel. O humanismo do outro homem. 3ª ed. Petrópolis-RJ: Vozes, 2009.
QUEDA Livre (Temporada 3, ep.1) Black Mirror [Série]. Charlie Brooker. Netflix,  2019. 1.DVD (63min). Disponível em: www.netflix.com Acesso em: 10 de out. de 2020.