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Relato de experiência: A ausência de um sentido é o que dá sentido à minha vida

Relato de experiência: A ausência de um sentido é o que dá sentido à minha vida
4 de março de 2021 Igor Almeida Duque

Philippe Put

Já fui chamado algumas vezes para falar sobre minha história de vida, superação e fé, porém é a primeira vez que escrevo sobre esses pontos. Quando recebi o convite, já me deparei com uma pergunta que me fez pensar muitas coisas que já vivi e venho vivendo sobre a deficiência: Qual o sentido da vida? Essa pergunta me incomodou, mas não de uma forma ruim e, enquanto eu pensava no que escrever, uma palavra apenas me chamava mais ainda a atenção, era a palavra SENTIDO.

Essa palavra gritou em meus ouvidos durante toda a semana e, quanto mais pensava nela mais eu ia entendendo qual era para mim esse sentido. E antes de começar a escrever eu entendi que o sentido para mim é justamente o que eu perdi. Não quero que pense que é ruim, talvez a grosso modo pareça, porém, quando chegar ao final desse pequeno texto creio que terá entendido que o verdadeiro sentido da minha vida é justamente o que eu não tenho.

A palavra sentido pode ser utilizada de diferentes formas e em diferentes contextos, e, por isso me refiro a ela para falar dos cinco sentidos humanos, tato; visão; paladar; audição; olfato. Quando falo sobre o sentido que perdi estou me referindo a visão, e utilizo justamente a palavra perder porque no dia 21/08/2011 quando eu tinha 13 anos, faltando menos de dois meses para fazer 14, esse sentido deixou de fazer parte da minha vida.

Talvez possa parecer difícil e triste pensar que um menino terminando o ensino fundamental, começando a pensar em uma futura faculdade, tenha seus planos e sonhos frustrados por uma tragédia. Ou possa parecer fácil e bonito pensar que hoje depois de nove anos, aquele mesmo menino cresceu e agora é um exemplo de superação; que é bonita a forma com que trata a perda da visão; que é madura a forma que pensa sobre esse acontecimento. Mas acredite, não é nenhuma dessas duas coisas. Não é o fim do mundo como pensei quando dormi enxergando e acordei já não enxergando mais por causa de um derrame ocular. Tive que me virar, quebrar muitos preconceitos comigo e com os outros, sair da minha zona de conforto, e muito mais para chegar onde estou hoje, mesmo assim é uma luta diária, assim como de qualquer pessoa.

Nessa época quis sair de tudo, nem aos encontros de família queria ir, só ficava deitado debaixo da coberta, querendo me esconder de tudo e todos. Moro com meus pais e minha irmã mais nova, e eles sempre tentavam fazer algo para me tirar dessa situação. Para mim, porém, a vida não tinha mais sentido, não o sentido de querer estar vivo, mas sim o sentido que eu queria e que agora havia perdido. Sempre fui católico e participava da paróquia que fica na rua da minha casa, mas nessa época não queria passar nem perto da igreja. Pedia meus pais para que pudéssemos ir em igrejas mais distantes, porque assim ninguém me conhecia e eu não ficaria com vergonha da situação em que me encontrava.

Como acredito que em tudo Deus tem um propósito, e que através das nossas dores ele tira alegrias maiores ainda, fui entendendo que o sentido que eu perdi é o mesmo que me fez ganhar muito mais. E eu tive justamente essa certeza quando fui convidado para contar um pouco da minha história em um encontro de adolescentes com Cristo, em um bairro vizinho de onde moro.

Lembro que era em 2017, em um domingo, e meu aniversário era na quarta. Eu trabalhava nesse encontro pela parte da manhã e de última hora me pediram para contar um pouco da minha história para algumas pessoas que também trabalhavam no encontro nesse mesmo horário. Depois do almoço saí com pressa, porque tinha uma outra reunião de um grupo de jovens em outra paróquia, e tinha que voltar rápido para o testemunho da tarde. Passei em casa correndo, no momento eu estava saindo com muita pressa, acabei me distraindo e bati a testa na parede que divide meu quarto e o da minha irmã. Por fim, fui parar no hospital para levar pontos, mas foi lá que tudo fez SENTIDO.

Quando cheguei ao hospital o gelo já havia acabado e o corte ardia muito. Comecei a ficar inquieto porque demoraram a me chamar e o ferimento doía cada vez mais, porém Deus tem o tempo para cada coisa. Quando passei pela triagem, me sentei em frente à sala do cirurgião e não via a hora de sair logo de lá para voltar ao encontro. No momento que eu esperava escutei uma mulher e um homem ao lado conversando. A moça dizia que já estava lá desde 9:00 fazendo exames, porque um cisto estourou no útero dela. O rapaz comentava que caiu de moto, quebrou a perna e iria precisar operar. Quando achei que tinha acabado, um homem entra empurrando uma maca com uma mulher deitada, eles passaram do nosso lado, e meu pai me disse que a mulher que estava deitada estava travada com os olhos abertos sem esboçar qualquer reação. Ouvindo tudo isso meu semblante mudou, comecei a refletir e pensei: cada um tem sua dificuldade, presenciei 3 histórias diferentes, casos graves, e eu reclamando de um simples corte na testa.

Quando cheguei à escola, novamente, muitos vieram até mim me perguntar o que havia acontecido, e eu só respondia: foi o presente de aniversário que Deus me deu. Se eu não tivesse passado por isso não entenderia hoje que Deus deu 5 sentidos para todos, eu não tenho um, é mais fácil chorar pelo que eu não tenho ou agradecer pelos outros 4? Por muitas vezes reclamei, chorei, briguei pelo que eu não tinha ao invés de fazer bom uso e agradecer pela maioria que eu tenho. Realmente em alguns pontos é difícil a aceitação; e creio que toda dificuldade gera isso. Quando fiz 18 anos e não pude tirar carteira foi doloroso e até hoje isso me incomoda um pouco, era um sonho que não consigo realizar hoje. Porém, tudo também está na força que eu deixo que esses pensamentos me dominem e tomem conta da minha vida.

Se eu tivesse parado, em 2011, quando dizia que a vida já não tinha mais sentido pra mim, hoje não seria metade do que sou, faria nada do que faço, não teria encontrado meu sentido de novo. Talvez possa parecer contraditório dizer que o sentido da minha vida é o que eu perdi, ou seja, a visão. No entanto, posso afirmar, com total certeza, que eu tive que perder a visão para enxergar de verdade. Tive que perder o sentido da minha vida para minha vida fazer sentido. Muitas coisas mudaram nesse tempo, novos sonhos vieram, novos desafios, novas alegrias, e hoje eu consigo enxergar que eu não perdi, mas ganhei de um jeito diferente.

Hoje tenho 23 anos, moro na cidade de Belo Horizonte / MG. Sou missionário de aliança da comunidade católica Colo de Deus. Sou apaixonado por música e tecladista em todas as horas, sejam elas vagas ou não. Respiro música 24 horas por dia e tenho o sonho de fazer faculdade nessa área. Atualmente, trabalho no centro de BH, como auxiliar de escritório, e estou em busca de me qualificar mais nas ferramentas de acessibilidades disponíveis. Espero que um pouco da minha história possa mostrar que hoje o que não temos é na maioria das vezes o que mais nos tem feito crescer. Deus abençoe sua vida!

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