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Entre saias e saberes, rondas e rodas sociais

Entre saias e saberes, rondas e rodas sociais

Cromossomos, digam quem somos! Nesta vida embaralhada, em um canto na encruzilhada, mora uma dúvida cruel: como mitigar certos preconceitos sociais, tão seculares, e que por vezes estão enraizados até mesmo em nossos espaços de resistência? Resistindo de dentro para fora, intimamente.

Seria inquietante e severamente reconfortante, se todas as definições sociais fossem mera responsabilidade de células pulsantes e heranças genéticas. A carga que vem de fora, sobretudo da sociedade e do meio em que vivemos, terá grande responsabilidade em nossa visão. Uma visão que precisará, ao longo do tempo, de um colírio espiritual. Por vezes, nossos olhos são os mais carentes desta saúde. Acostumados com um mundo desumano e desigual, nos tornamos máquinas reprodutoras de hábitos e práticas segregadoras e preconceituosas, máxima que também se aplica aos terreiros e comunidades religiosas de matriz africana. Nossa afro-espiritualidade é inclusiva? Essa é a pergunta de alguém que raramente precisou se preocupar em como ser visto, como se portar ou se comportar dentro do berço ancestral. Certo de minhas certezas tolas, adentro-me em um universo que é abrasivo e acolhedor como espaço social e religioso, mas que está dentro de uma sociedade construída em cima de muros e arames. Somos uma fatia religiosa dentro de uma sociedade, desenhada para suas predileções e seus preconceitos. E na máxima da encruzilhada, chegará o momento em que se fará necessário escolher um destino apenas, assim como o cão que possuindo quatro patas, só poderá percorrer um caminho.

Escolhido o caminho, encruzilhada de portas abertas. O portão se abre e uma mulher de boa-fé assobia na direção da rua, que mais tarde servirá para a chegada de algumas pessoas. Água pra esfriar os caminhos, a prece naqueles lábios pede proteção e segurança para os “trabalhos” de hoje. Dentro do espaço sagrado, o silêncio em forma de prece está dentro de um quarto, de frente para uma porção de energia presente em alguns artigos religiosos: perfumes, brincos, pulseiras, anéis e uma saia rodada. Um punhal está repousado sobre uma maçã e uma vela pequena ilumina sutilmente aquele local. Em um banco, encontra-se o sacerdote, cabeça baixa, concentrado. As pessoas já esperam do lado de fora, cada uma em seu seio com suas preocupações e aflições diferentes, ansiando por uma palavra de conforto e esperança.

A mulher, entendendo os sinais do vento que sopra trazendo uma energia diferente, leva as mãos sobre uma sineta que badala nos ouvidos do corpo que ali está sentado. As badaladas ecoam dentro daquela cabeça, cada vez de forma mais fraca, à medida que ficam mais fortes na mão de quem a maneja.

O corpo já não responde mais: a conexão racional dá espaço para o mistério que vem na gargalhada de… uma mulher! Exatamente! o espirito de uma mulher agora manipula aquele corpo masculino. Esta forma espiritual é quem determinará de agora em diante, os comportamentos, os conselhos e as orientações.

A saia é vestida, os anéis adornam os dedos, as pulseiras preenchem os pulsos. O caminhar toma uma forma mais leve, mais sábia, sem pressa e sem truculência.

-Boa noite, Pomba-gira, cumprimenta uma alma mais ansiosa que todas as outras.

-Boa noite, moço.

E o que se segue dali em diante é um misto de saberes e de questionamentos. Perguntas são feitas, respostas são dadas, bebidas são tomadas entremeio à fumaça que envolve os participantes daquela comunidade. Sobre a cabeça de todos os presentes, ecoa silenciosamente uma pergunta, que mais tarde será feita por algum curioso destemido.

-Não sabia que ele era gay, quem me abriu o portão se identificou como esposa dele. Que estranho!

-Com certeza é gay, a maioria deles são. Comenta outra pessoa sentada na assistência, aguardando para ser atendida.

Os membros da comunidade, escutando aqueles dizeres, dão de ombros. Sabem do preconceito e de toda a marginalização que envolvem as religiões de matriz africana. Sabem que as pessoas julgam sem saber. Sabem que os estereótipos são avassaladores. Sabem que as pessoas julgam sem conhecimento de causa e sem o menor pertencimento. E por vezes, tal preconceito também se encontra nos membros da comunidade.

-O senhor é homem, não deveria receber Pomba-gira, diz um membro da comunidade.

-Meu filho, todos nós já fomos mulher um dia, respondo ironicamente, mas com tom de surpresa e repreensão.

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-Pois notei que todos os filhos que aqui estão, que são gays, manifestam-se mais com Pomba-Gira.

-É porque eles evoluíram a tal ponto, cuja vontade de auxiliar as pessoas, hoje, é maior que seu preconceito.

O silêncio toma conta do lugar. E eu me indago sobre a existência complexa para nossos irmãos e irmãs homossexuais, dentro dos espaços sagrados. Acostumados com uma sociedade que legitimou todas as formas de preconceitos e de discriminação, em um espaço conhecido por acolher todos, eles também serão provados. Percebo que ter minha sexualidade contestada de forma tola, pela simples manifestação de uma forma espiritual feminina não é nada comparado ao despreparo que eles encontram, até mesmo por parte dos sacerdotes em lidar com a pluralidade que eles representam. Se estamos prontos para recebê-los, ainda estamos bem longe de saber como acolhê-los.

Retirando os últimos artigos que ainda estão sobre meu corpo, agradeço àquela forma espiritual que ali esteve. Uma paz profunda está sobre meus ombros. Os rostos que antes se encontravam cerrados, contraídos e preocupados, estão mais corados e com uma paz notável. Notam-se profunda esperança e fé sobre os corpos que antes pareciam carregar o mundo nas costas. E de fato, cada um que adentra o terreiro traz consigo o peso do seu mundo particular. É naquela partícula espiritual, feminina, sobre o corpo de um homem que fala de um lugar heteronormativo, que repousa a força que lhes ajudará a seguir com fé, confiantes e prontos para o dia seguinte. Os membros da comunidade começam a trazer os recados, as velas já se apagaram, e ainda que exista em mim qualquer aroma de um perfume qualquer, ou qualquer vestígio da manifestação que se deu na noite de hoje, ainda sou o mesmo. Nada mudou, tal qual quis a natureza e a força da massa ancestral que nos conduz do Orun ao Àiyé. Entretanto as pessoas que ali estiveram, certamente não são as mesmas pessoas que ali chegaram. Foram conduzidas pela luz que continuará as guiando e as auxiliando, entremeio saias e gargalhadas de uma esquina qualquer.

Com desconforto, rememoro as perguntas que me foram feitas e decido que é melhor decidir uma forma de elucidar a todos. Encontrar uma forma de pluralizar as existências e fazer com que todos entendam, de uma vez por todas, que os preconceitos e as intolerâncias estão Àiyé explicitadas na sociedade que se organiza dessa forma, e que isso reverbera nos terreiros. Uma forma de dizer sobre a neutralidade comportamental presente nas formas de manifestação espiritual e que elas não alteram e modificam nosso comportamento posterior. Ninguém será o que não está nascido pra ser, somente por uma manifestação espiritual. É exatamente isso que torna nossa ancestralidade de terreiro ainda mais fascinante: nada querem de nós, senão compreensão e fé. É exatamente isso que dignifica nossa ancestralidade como única, berço do respeito máximo por todas as existências plurais. O entrave se dá na relação em que humanizamos ou não nossas vivências. E o que pode ser nesta vida, mais humano, do que descarregar para fora de nossas vidas todas as formas de preconceito social? Os estigmas sociais também foram inseridos nas comunidades de terreiro. Mitos e crendices, também são elementos presentes e cabe a nós desmistificá-los. Não cabe mais anular nossa existência em prol de discursos que inserem a espiritualidade, responsabilidades ou efeitos de causa sobre nós. Não cabe mais levar para um espaço de afeto e de partilha quaisquer tipos de preconceito enraizado. Se o preconceito tem suas engrenagens, no terreiro ele não encontra terreno fértil, amortizado pelos saberes que ali se encontram. As cigarrilhas continuaram acesas, os perfumes continuaram exalando variados aromas de esperança. Entre goles e um beberico qualquer, afogaremos tudo aquilo que não nos acrescentar, e faremos com que toda demanda, espiritual ou não, se perca nos ares, pelas fumaças que ali forem despojadas no ar. As velas continuarão acesas, brincos e anéis no mesmo lugar e a saia devidamente guardada. A cortina está devidamente fechada, guardando aquele misto de elementos humanos com energias espirituais. O corpo se prepara para o descanso que repõe as energias, enquanto a mente se prepara para o dia de amanhã. Em uma comunidade tradicional, o amanhã significa abraçar de novo, acolher de novo, respaldar e resguardar uma vez mais. E é neste amanhã que a fé se sustenta. E nesse alvorecer de ideias construídas que se alicerça nossa construção social. É nesta noite do amanhã que, uma vez mais, o espiritual sobressairá o humano.

A rua será alimentada de novo, as velas serão acessas e o sino tocará mais uma vez. E aqueles que estão no meio, que arredem. Arreda homem, que no corpo de outro homem aí vem mulher.