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Neopaganismo, espiritualidade filosófica para todxs

Neopaganismo, espiritualidade filosófica para todxs

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Mitólogos e estudiosos da religião, como Joseph Campbell, Mircea Eliade e Platão, exemplificaram como os mitos, e as crenças e valores que os informam são motrizes do comportamento humano, “a vida imitando a arte”, narrativas são exemplos e seres humanos seguem o que é considerado exemplar, assim estes exemplos funcionam como bases e justificativas para comportamentos, instituições, sistemas sociais etc. Por isso, conversar narrativas, tradicionais ou contemporâneas, históricas ou míticas, que promovam um ethos ecológico e humanista é para mim um grande prazer e um nobre trabalho.

Desde pequena passei por situações que enfatizavam o quanto meu comportamento destoava daquele esperado pela sociedade. A religião professada pela minha família era o Cristianismo, católico e evangélico, e por mais que seu mythos central, de Jesus, possua exemplos que endossem uma conduta e uma ordem social inclusivas e acolhedoras, também possui muitos exemplos opostos a isso, e eu senti o peso disso tanto dentro quanto fora de casa. Toda narrativa pode ser interpretada de muitas formas, dependendo do viés daquele que a interpreta, bem como de elementos antiéticos, que incentivam a exploração, a violência, a discriminação e a exclusão, que, por sua vez, existem em todas as culturas. Isso se dá porque nós humanos possuímos, paradoxalmente, tendências e aptidões tanto egoístas e individualistas quanto altruístas e coletivistas, que podem ser conflitantes entre si, e cabe a nós ponderar sobre a utilização de nossas aptidões para a promoção de um cenário desejável e benéfico, individual e coletivamente. As religiões baseadas em textos considerados perfeitos, como o Cristianismo, são mais propensas a perpetuar esses valores antiéticos porque nelas é impossível que se discutam, aprimorem e modifiquem esses textos.

O meu primeiro contato com uma religião que não me condenava nem excluía se deu quando eu tinha por volta de 12 anos de idade, com a Wicca e o Neopaganismo (livros do Claudiney Prieto e do Claudio Crow Quintino), que apresentavam uma forma de espiritualidade centrada na figura de uma Grande Deusa Mãe, e no caso dos livros do Claudiney, havia não somente a ausência do tipo de julgamento a práticas não heteronormativas (presentes nos testos sagrados das religiões mais populares), mas a presença de tradições wiccanas compostas por e centradas em pessoas LGBTQIA+ e suas vidas.

O Candomblé também teve um papel importante na minha formação religiosa, nele encontrei igual acolhimento por parte dos fiéis e também dos Deuses que não estavam interessados na minha identidade de gênero, na minha sexualidade ou na minha profissão (na época em que conheci o Candomblé já havia feito minha transição de gênero e também já atuava como profissional do sexo), os Orixás só se importavam com o caráter dos seus filhos, e diretamente reprimiam algo que desaprovassem, sem necessidade do intermédio de algum agente humano.

Dentre os referenciais míticos mais caros a mim destaco os de Inanna e Oxum.

Inanna, deusa andrógina e polivalente, cujo pessoal cúltico era composto por pessoas de expressão de gênero não heteronormativa, e estilos de vida fora do matrimônio tradicional (que naquela época e região implicava a negação de direitos das mulheres). Em um hino a Inanna composto pela princesa e alta-sacerdotisa Eheduana, filha do rei Sargão da Acádia, que é a primeira pessoa da história a ter seu nome registrado em suas obras, diz “Inanna que transforma o homem em mulher e a mulher em homem”. O texto conhecido como “Épico de Erra”, faz menção as pessoas que faziam parte do sacerdócio da deusa Ishtar, contraparte Semita de Inanna, aqui já com tom de crítica, mostrando a ambiguidade com que eram vistos já naquele período, “Sobre Uruk, morada de Anu e Ishtar, cidade das mulheres depravadas, prostitutas e cortesãs, quem Ishtar resgatara de seus maridos e empoderara… os rapazes e homens de culto do Eanna (distrito do templo)… aqueles a quem Ishtar transformara de homens em mulheres, para surpreender o povo”. No mito da descida de Inanna ao mundo dos mortos ela é resgatada por um ser andrógino, protótipo mítico dos seus sacerdotes de gênero não binário.

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Oxum, deusa das águas da vida, adorada até os dias de hoje em grande parte da terra Yoruba, na atual Nigéria, e em toda a diáspora Yoruba, é louvada como “Obinrin bi okunrin”, uma mulher com força masculina, expressão que os iorubas empregam para descrever mulheres que empreendem em áreas além da esfera doméstica, como a Madame Tinuubu, poderosa e influente comerciante. Oxum também é louvada como “Aquela que coloca uma barba para ir à guerra”. E seu principal mito narra como ela lutou contra a exclusão dos deuses pelo fato de ela ser mulher, e venceu. No Candomblé, foi revelado que meus orixás eram Oxum e Lôgunedé, filho de Oxum que no Brasil é considerado andrógino, e na África é considerado uma encarnação masculina da sua mãe Oxum. O mito de Lôgun também é muito inspirador, porque ele era uma criança problemática, e sua mãe não o recrimina, mas procura um lugar no mundo em que seu caráter possa ser construtivo. Ele era muito briguento e então fora colocado na posição de general divino. A postura de Oxum no mito de Lôgun é como um tipo de inclusivismo pedagógico, em vez de patologizar a característica de seu filho, ela encontrou uma forma de ele poder exercê-la de forma construtiva, de onde podemos aprender que sempre pode haver um lugar para todos e que todos à sua maneira podem contribuir para a sociedade. Oxum é meu exemplo de cidadania, é meu modus operandi e vivendi.

Sem esses dois referenciais espirituais e míticos eu não sei se hoje estaria viva, porque nas vezes que eu pensei em desistir de viver diante de dificuldades da vida relacionadas aos preconceitos contra pessoas como eu, foi neles e na vívida espiritualidade que me proporcionaram é que encontrei forças para continuar.

O mundo antigo, onde histórias como a de Inanna se originaram, não era um paraíso onde todos viviam plenos e felizes, pelo contrário, as sociedades eram altamente machistas e estratificadas, mas as narrativas politeístas deste período, no que diz respeito à representação da diversidade humana, pode servir para que pessoas carentes desse tipo de representatividade tenham referenciais, pontos de partida para se inspirar e se fortalecer. Como diz meu amigo Wagner Quintão, sacerdote Wiccano, temos que “aprender com os erros e acertos dos nossos ancestrais”. “Aprender com os erros e acertos” requer raciocínio, reflexão, dá trabalho identificar o que é bom e o que é ruim, o que é nobre desde a Antiguidade e o pode e deve melhorar. Esse caráter filosófico do Neopaganismo, típico das escolas filosóficas helenísticas que em muito o influenciaram, é o que fez dele a minha religião, desde a adolescência até hoje aos 32 anos.