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As pessoas surdas na Paróquia Cristo Redentor: uma idealização tornando-se realidade

As pessoas surdas na Paróquia Cristo Redentor: uma idealização tornando-se realidade

Este relato pretende confirmar o objetivo da Pastoral do Surdo na Igreja e o trabalho em conjunto das pessoas surdas e intérpretes para a evangelização. Além de demonstrar como foi significativa a inserção das pessoas surdas na Paróquia Cristo Redentor, vindo ao encontro das convicções e ações determinantes para que a inclusão pudesse acontecer, abre caminho às diversidades demonstrando que elas precisam ser respeitadas.

Este relato pretende confirmar o objetivo da Pastoral do Surdo na Igreja e o trabalho em conjunto das pessoas surdas e intérpretes para a evangelização. Além de demonstrar como foi significativa a inserção das pessoas surdas na Paróquia Cristo Redentor, vindo ao encontro das convicções e ações determinantes para que a inclusão pudesse acontecer, abre caminho às diversidades demonstrando que elas precisam ser respeitadas.

A Pastoral do Surdo no Brasil

Em 15 de abril de 1929 foi fundada em Campinas a primeira Instituição para pessoas surdas. Oficialmente a Pastoral dos Surdos no Brasil teve início em 1950 e até os dias de hoje é uma longa e difícil caminhada de dedicação, doação e serviços às pessoas surdas. Atualmente se encontra instalada em quase todos os estados do Brasil.

O seu objetivo é proporcionar o conhecimento e a vivência na palavra de Deus, integrando fé à vida através de celebrações com o intuito de evangelizar e pregar a Boa-Nova de Jesus; além de constituir ações que levam a pessoa surda a ser protagonista das ações tornando-a agente de evangelização da sua própria comunidade.

Outro desígnio é promover a verdadeira inclusão dentro da Igreja, superando preconceitos e respeitando a diversidade.

A Pastoral do Surdo se fortalece a cada dia, respeitando e incluindo no processo de formação e conversão, mas ainda há muitos desafios para que isso aconteça. A comunicação é o fator primordial. A Libras, prevista e reconhecida por lei, não é de fácil acesso para os ouvintes. Outros aspectos de profunda relevância nesses desafios são: a formação de líderes católicos surdos, formação de catequistas surdos, formação de intérpretes de liturgia, participação ativa da pessoa surda nas Igrejas, que muitas vezes não estão preparadas para recebê-los, através da participação efetiva e comprometida nos seus projetos e movimentos e o próprio respeito pela forma de comunicação do surdo, seja ela oral, gestual ou bilíngue.

Pastoral dos surdos e a missão dos intérpretes

“Ide pelo mundo e pregai o Evangelho a toda criatura!” (Mc 16,15)

Juntamente com as pessoas surdas, o intérprete tem a função e missão de ser um agente de evangelização.

A função que exerce contribui para o fortalecimento da inclusão, tornando um canal de comunicação entre a comunidade ouvinte e as pessoas surdas.

A atuação do intérprete tem por finalidade colaborar, facilitar e apoiar de forma disponível sem desejo de ascensão ou proveito, lembrando que o protagonista é a pessoa surda. Seu compromisso deve se dar em aprender mais com as pessoas surdas, conhecer a sua cultura, buscando ser o motivador e estar à luz do evangelho.

A missão do intérprete é despojar de sua própria cultura, conhecer e acolher a cultura da pessoa surda. Se faz necessário, não só emprestar as suas mãos e ouvidos, mas todo o seu corpo para transmitir a mensagem a serviço da comunidade surda. Perceber a beleza dos sinais e expressá-los possibilitando o entendimento do Evangelho de Jesus, através de seus valores e sentimentos cristãos. Não basta só fazer sinais e ser fluente, precisa significar verdadeiramente o seu trabalho voluntário para que aconteça o envolvimento das relações afetivas e fraternas com as pessoas surdas.

Ser intérprete é conhecer o que diz respeito aos direitos humanos e estar bem desejoso não só da clareza da comunicação, mas dos princípios e valores universalmente humanizadores: igualdade, solidariedade, respeito e doação, para se tornar responsável por aqueles que entregam a seus cuidados e confiança a sua vocação de intérprete.

Relato de vivência pessoal na Pastoral do Surdo de Belo Horizonte

Falar em inclusão já era um tema abordado na rotina pedagógica da autora, como professora de Ensino Religioso. Há tempos, a sua vontade era de aprender a Libras e conhecer um pouco mais a cultura das pessoas surdas. Em uma oportunidade, começou a fazer uma pós-graduação em Intérprete e tradutor de Libras.

Ao ser apresentada à Pastoral do Surdo da Arquidiocese de Belo Horizonte, começou ir às missas na Igreja Bom Pastor, que fica na rua Lindolfo de Azevedo, 345 – Nova Suíça, dentro do Colégio Santa Maria, somente como estudante de Libras para aprender os sinais católicos.

A partir disso, cada dia mais fomentava o desejo de propor um projeto na Paróquia Cristo Redentor, a qual é atuante, onde abrangeria toda a comunidade, ensinando a Libras oferecendo uma base teórico-prática para pessoas que ainda não tinham conhecimento da língua.

Fundação da Pastoral do Surdo na Paróquia Cristo Redentor

A Pastoral do Surdo na Paróquia Cristo Redentor iniciou-se em meados do mês de abril de 2011, com o propósito de uma ação evangelizadora. Como é uma comunidade ligada à Pastoral do Surdo da Arquidiocese de Belo Horizonte, anos mais tarde se tornou a Comunidade Surda do Barreiro.

Assim, foi formada uma equipe, com pessoas ouvintes e um surdo, que tinham conhecimento básico de Libras e formação cristã. Estas estavam dispostas a fazer tudo isso de forma voluntária com os objetivos de contribuir para a promoção da acessibilidade e participar do processo de eliminação das barreiras de comunicação, eixo norteador para uma sociedade inclusiva, além de ter como missão sinalizar o evangelho na Língua Brasileira de Sinais – Libras e através de suas mãos ser sinal de Deus para as pessoas surdas.

O pároco daquela época, acreditou na perspectiva, incentivou e apoiou. E assim começou a Pastoral do Surdo do Barreiro de Cima, bem sem saber que aquele propósito cresceria.

Desde então iniciou o Curso de Libras Básico para os ouvintes que desejavam aprender a língua. O curso consistiu num primeiro módulo, em que foram exploradas as noções básicas do aprendizado da Língua Brasileira de Sinais, atendendo a um público que nunca participou de algum curso básico de Libras.

Quanto às interpretações das missas, essas eram feitas uma vez por mês, por intérpretes que atuavam na Igreja Bom Pastor, que vinham ajudar, uma vez que ainda a autora não sentia segura para fazê-las.

Com o passar do tempo, as pessoas surdas participantes tiveram o desejo de participar das missas todos os domingos. As interpretações começaram a acontecer todos os domingos, com a graça de Deus e a vontade de aprender mais e mais da autora. Algum tempo depois, mais 5 intérpretes também se dispuseram e acreditaram nesse propósito, fazendo escalas entre as missas e outros eventos que aconteciam na Paróquia Cristo Redentor.

Projeto voluntário desenvolvido na Paróquia Cristo Redentor

Abaixo, encontra-se o projeto escrito de forma colaborativa por Luis Hernandes, na época seminarista, Elizangela Sales e o grupo de pessoas que compunham a equipe, que foi entregue ao Pároco Frei Cléber da Paróquia Cristo Redentor no mês de junho de 2011, referido ao desejo da formação da Pastoral dos Surdos no Barreiro de Cima.

Nome do projeto: Projeto LIBRAS para iniciantes – A comunicação ao alcance de todos. A inclusão começa “Dentro de Casa”

Justificativa

São inúmeras as dificuldades as pessoas surdas para se comunicarem e participar ativamente da sociedade. O apoio que precisam em casa, muitas vezes não tem e nem a quem recorrer para essa participação.

No passado, as pessoas surdas eram consideradas incapazes de serem ensinadas, por isso elas não frequentavam locais na sociedade. As pessoas surdas, principalmente as que não falavam, eram excluídas da sociedade, sendo proibidas de casar-se, possuir ou herdar bens e viver como as demais pessoas. Assim, privadas de seus direitos básicos, ficavam com a própria sobrevivência comprometida.

Os estudos da Libras têm como fundamento legal, a Lei Nº 10.436 de 24 de abril de 2002, o artigo 18 da Lei nº 10.098 de 19 de dezembro de 2000 e o decreto nº 5.626 de 22 de dezembro de 2005, que os regulamenta.

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Pensando nisso, apresentamos esse projeto com a intenção de demonstrar a importância da inclusão as pessoas surdas que possibilita a eles um espaço dentro da Igreja católica e que, através de pessoas que anunciam Jesus.

Também apresentamos o projeto de um curso para ouvintes, que tem como missão sinalizar o evangelho na Língua Brasileira de Sinais – Libras e através de suas mãos para ser sinal de Deus às pessoas surdas.

O curso consistirá num primeiro módulo, em que serão exploradas as noções básicas do aprendizado da Língua Brasileira de Sinais, atendendo a um público que nunca participou de algum curso básico de Libras.

Temos a intenção de contribuir para a promoção da acessibilidade, no sentido de participar no processo de eliminação das barreiras de comunicação, eixo norteador para uma sociedade inclusiva.

A conquista do espaço na comunidade

Ao iniciar os trabalhos voluntários de interpretação das missas, a comunidade da Paróquia Cristo Redentor foi conhecendo aos poucos a nova realidade nos espaços até então ocupados pelos ouvintes, tais como: reserva dos primeiros bancos às pessoas surdas; intérpretes nos degraus da igreja, ou mesmo ao lado do sacerdote no altar, nas horas da consagração, presença de intérpretes e pessoas surdas conversando, usando uma língua diferente.

A princípio houve resistência de alguns poucos fiéis, verbalizando que estavam incomodados com a presença de intérpretes “tirando a sua atenção” nas missas, mas nada que com uma boa conversa e demonstrando a importância da inclusão não resolvesse.

Aos poucos, as mudanças foram sendo compreensíveis. Após todas as adaptações, foi percebida que as diferenças foram acolhidas com respeito, diálogo e alegria.

Considerações finais

Já são 10 anos desse trabalho voluntário. Hoje, não se conta mais com o curso de Libras, mas as missas continuam sendo interpretadas. Foram muitas lutas para a integração das pessoas surdas em outras atividades na Igreja, não somente participar das missas. Outras pessoas também vislumbraram esse ideal e lutaram para que acontecesse essa transformação.

Pode-se dizer que a realidade da Paróquia Cristo Redentor se tornou relevante, ampliando a caminhada inclusiva das pessoas surdas.

Pertencem a outros trabalhos na Igreja cinco Ministros da Eucaristia surdos, casais de pessoas surdas que participam do Encontro de Casais em Cristo, coroinha filhos de casais de pessoas surdas, jovem surdo que participou de Encontro de Jovens com Cristo, curso de noivos, curso de batismo, todos sendo acolhidos pela comunidade, além dos fiéis que participam com frequência das missas.

Ainda há a necessidade de quebrar algumas barreiras, mas com a graça de Deus, poder partilhar uma idealização que se concretizou é provar que a inclusão e o respeito às diferenças existem.


Referências

Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Regional Sul 2. Pastoral dos Surdos rompe desafios e abraça os sinais do Reino na Igreja do Brasil/ Pastoral dos Surdos. – São Paulo: Paulinas, 2006.
CORTINA, Adela. Cidadãos do mundo: para uma teoria da cidadania. São Paulo, Edições Loyola, 2005.
SOUZA, Jacqueline Crepaldi. Surdez e Alteridade: Expressões religiosas das crianças surdas. São Paulo. Fonte Editorial, 2018.