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Alice no universo da surdez: pessoas surdas e mediadores religiosos que ajudam a mudar o rumo da história

Alice no universo da surdez: pessoas surdas e mediadores religiosos que ajudam a mudar o rumo da história
4 de março de 2021 Redação

Créditos: arquidiocesebh.org.br

A prática de mediadores religiosos no universo das pessoas com deficiência é fundamental. Não apenas porque possui função performativa, traduzindo-se em realidade sociológica, (SILVA, 2012, p. 228) como também por serem possibilidades de aproximação dessas pessoas em sua alteridade. Nesse contexto, partimos de histórias de mediadores religiosos que mudaram sua perspectiva de vida no contato com a alteridade surda. Tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil tem-se notícias dessas histórias. Em 1815, o norte-americano Thomas Hopkins Gallaudet [1] (1781-1851) era teólogo e tinha interesse em servir como um pregador itinerante. Mas quando conheceu a menina surda Alice Cogswell [2] (1805-1830), mudou os planos de sua vida. A menina de nove anos de idade era filha de um vizinho médico. Gallaudet resolveu ensiná-la. Viajou para a Europa para estudar métodos para o ensino de alunos surdos. Em Paris conheceu o método da comunicação manual no Instituto Nacional dos Surdos. Impressionado, Gallaudet estudou essa processo de ensino com o pesquisador Sicard e aprendeu a língua de sinais com outros pesquisadores como Massieu e Laurent Clerc, ambos graduados e qualificados na metodologia de sinais. O resultado de toda essa busca foi a criação de uma escola para surdos que se transformou, atualmente, na única Universidade para pessoas surdas do mundo: A Universidade Gallaudet. Alice foi uma das primeiras alunas dessa escola e formou-se com louvor. A imagem 1 mostra o monumento dedicado a Thomas Hopkins Gallaudet e Alice Cogswell na Universidade Gallaudet, em Washington, EUA.

Universidade Gallaudet em Washignton, EUA - Fonte: Arquivo pessoal da autora

No Brasil, ao longo do século XX, foram fundadas escolas especiais por congregações católicas diversas que possuem carisma para o cuidado e a catequese de pessoas surdas. O atual Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES) foi criado em meados do século XIX por iniciativa do surdo francês Ernest Huet. Em junho de 1855, Huet apresentou ao Imperador D. Pedro II um relatório cujo conteúdo revelava a intenção de fundar uma escola para surdos no Brasil. Neste documento Huet informou sobre a sua experiência como diretor de uma instituição para surdos na França: o Instituto dos Surdos de Bourges. Era comum que surdos formados pelos institutos especializados europeus fossem contratados a fim de ajudar a fundar estabelecimentos para a educação de seus semelhantes. A história de Thomas Hopkins Gallaudet, citada anteriormente, é exemplo disso. Portanto, pode-se compreender que a proposta de Huet correspondia a essa tendência. O governo Imperial apoiou a iniciativa de Huet e destacou o Marquês de Abrantes para acompanhar de perto o processo de criação da primeira escola para surdos no Brasil. O novo estabelecimento começou a funcionar em 1º de janeiro de 1856, data em que foi publicada a proposta de ensino apresentada por Huet. Essa proposta continha as disciplinas de Língua Portuguesa, Aritmética, Geografia, História do Brasil, Escrituração Mercantil, Linguagem Articulada, Leitura sobre os Lábios e Doutrina Cristã. A língua de sinais utilizada pelos surdos no Instituto tem forte influência francesa em função da nacionalidade de Huet. Os alunos que terminavam o curso no INES voltavam aos seus estados e disseminavam a língua de Sinais. Mas a metodologia de ensino dos alunos surdos era objeto de muita polêmica. O Congresso de Milão em 1880 agravou a situação. Nele, a indicação do uso da língua oral pelos surdos como modo de educá-los fez com que o enorme tempo de treinamento da fala e dos resíduos auditivos impedissem o desenvolvimento integral do aluno surdo. Foi preciso um movimento transnacional na década de 80, envolvendo acadêmicos, profissionais da área da surdez e pessoas surdas para apontar outros caminhos para sua escolarização e socialização. Em 1993, um projeto de Lei da então Senadora Benedita da Silva deu início a uma longa batalha de legalização e regulamentação da LIBRAS, em âmbito Federal.

A culminância desse processo foi a aprovação da Lei de LIBRAS. Essa Lei de nº 10.436, de 24 de abril de 2002 reconhece a LIBRAS como meio legal de comunicação e expressão para transmissão de ideias e fatos, oriundos de comunidades de pessoas surdas do Brasil. A Lei entende que:

O sistema educacional federal e os sistemas educacionais estaduais, municipais e do Distrito Federal devem garantir a inclusão nos cursos de formação de Educação Especial, de Fonoaudiologia e de Magistério, em seus níveis médio e superior, do ensino da Língua Brasileira de Sinais – Libras, como parte integrante dos Parâmetros Curriculares Nacionais – PCNs, conforme legislação vigente. (BRASIL, 2002).

Exemplos de mediadores religiosos estão presentes nessa história. É de suma importância considerar sua atuação que atravessa o movimento social organizado. Neste viés, situam-se as produções acadêmico-científicas sobre o tema, a legislação que normatiza a questão das pessoas com deficiência, os projetos missionários de instituições religiosas e as escolas especiais não confessionais. Eles fazem parte de uma história que começou com Alice no universo da surdez e tem diversos mediadores religiosos que ajudaram e ajudam a mudar o rumo da história de tantas pessoas singulares que ensinam a viver a alteridade, ou seja, responder ao outro, sem dominação.

Conclui-se que a menina Alice, com sua singularidade surda conseguiu mudar o rumo da história ao conquistar a atenção de alguém que se interessou pelo universo da surdez. Os mediadores religiosos têm grande importância neste processo.


Notas
[1] A história de Gallaudet e Alice Cogswell está no site: http://www.gallaudet.edu/history/the_legacy_begins.html. Acesso em 19 de jul de 2014.
[2] Eternizada num monumento na Universidade Gallaudet, Alice Cogswell (1805-1830) está sinalizando a letra “A” do alfabeto manual das pessoas surdas. A pesquisadora visitou a Universidade Gallaudet em outubro de 2012. O escultor dessa obra é Daniel C. French.

Referências
BRASIL. Lei nº 10.436, de 24 de abril de 2002. Lei de LIBRAS, Governo Federal, 181o da Independência e 114o da República. Brasília, 24 de abril de 2002. Fernando Henrique Cardoso. Disponível em: www.feneismg.org.br. Acesso em 17 jun. 2014.
SILVA, César Augusto de Assis. Cultura surda: agentes religiosos e a construção de uma identidade. São Paulo: Terceiro Nome, 2012.

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