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Diversidade religiosa e história nas paisagens do Espírito Santo

Diversidade religiosa e história nas paisagens do Espírito Santo

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O Espírito Santo é um estado brasileiro da região Sudeste. O estado é o menos populoso da região e não é tão famoso quanto os seus colegas Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo. No entanto, o Espírito Santo é um lugar cheio de belezas naturais e diversidade cultural. A capital Vitória é uma cidade linda, formada por uma parte insular e uma parte continental, compõe o cenário com a vizinha Vila Velha com um extenso litoral e cheia de charme. Além das diversas cidades litorâneas, o estado ainda conta uma região montanhosa de paisagens verdes da Mata Atlântica e com aconchegantes cidades de colonização italiana, alemã e pomerana. Há ainda um remanescente indígena na cidade de Aracruz das etnias tupiniquim e guarani e quilombos na região sul e norte do estado. Festas tradicionais étnicas ou religiosas (ou ambas as coisas) também compõe a cultura capixaba, além de pratos típicos como a famosa moqueca.

Aqui, escolhi uma outra característica das paisagens, história e cultura capixaba para falar: a diversidade religiosa. Para isso, vou trazer quatro monumentos históricos (e pontos turísticos do estado) que compõe o cenário do Espírito Santo: o Convento da Penha, o Buda de Ibiraçu, a estátua de Iemanjá na Praia de Camburi e a Igreja Luterana de Domingos Martins, cada qual com sua história. Vamos lá?

Comecemos, pelo que é, provavelmente, o principal cartão postal do Espírito Santo: o Convento da Penha. O Convento se encontra na cidade de Vila Velha em cima de um penhasco de 154 metros de altitude e a 500 metros do mar. Pode ser visto tanto da própria cidade de Vila Velha quanto da capital Vitória e todos que atravessam de uma cidade à outra pela Terceira Ponte passarão de frente a ele. Em torno do Convento se encontra um fragmento de mata atlântica que torna a paisagem ainda mais encantadora. A subida, por uma estrada no meio da mata, pode ser feita de carro ou a pé – essa segunda modalidade exige um pouco de disposição – e é recompensada com uma vista privilegiada da baía de Vitória.

Há muito mais do que belezas naturais no Convento da Penha. A história do local remonta à década de 1550, onde o Frei Pedro Palácios construiu uma ermida com a estampa de Nossa Senhora das Alegrias e, posteriormente, a escultura de Nossa Senhora da Penha, trazida de Portugal. Em finais do Século XVI o lugar foi doado aos franciscanos. No ano de 1639 iniciou-se a construção da igreja, que foi sendo expandida e recebendo anexos para se tornar o que hoje se conhece como o Convento. É importante lembrar que as construções foram realizadas com trabalho escravo indígena e africano. Isto nos recorda como a Igreja Católica lançou mão do trabalho de pessoas escravizadas para a criação de diversos de seus monumentos históricos no Brasil.

O Convento da Penha, atualmente, recebe muitos turistas e devotos. A capela principal possui apenas bancos laterais, onde se sentam pessoas idosas, gestantes e pessoas que possuam dificuldade de permanecer de pé durante muito tempo. Em geral, todas as demais pessoas ficam de pé durante os ofícios, mas, é interessante notar o ar de informalidade existente antes das Missas, com pessoas sentadas ao chão num clima bastante doméstico – elas se sentem em casa na casa de Nossa Senhora.

Vinculada à piedade do Convento existe ainda a Festa da Virgem da Penha – padroeira católica do estado do Espírito Santo. A festa é uma parceria entre o Convento da Penha e a Arquidiocese de Vitória e atrai milhões de devotos todos os anos. Missas e romarias – dentre as quais a famosa romaria dos homens – compõe a festa que é uma das maiores celebrações religiosas do Brasil e parte importante da cultura capixaba.

Nem só de catolicismo vive a cultura e as paisagens capixabas, em Ibiraçu, região norte do estado, às beiras da BR 101, um pedacinho do Japão pode ser visto num belo jardim Zen. Antigamente, chamava a atenção o portal vermelho em estilo nipônico sob o qual as pessoas poderiam passar mentalizando seus desejos, dando a volta por fora para que seus pedidos fossem realizados. Hoje o jardim se expandiu, foram colocadas diversas estátuas de Budas meditando – lugar que se tornou uma febre para Instagramers fazerem fotos – e, mais recentemente, a construção da maior estátua do Buda no Ocidente. A estátua é poucos metros mais alta que o Cristo Redentor e mostra o Buda meditando sobre uma flor de lótus. Grama, flores e uma piscina cheia de carpas compõe o restante do Jardim,  e,  em torno dele, a paisagem rural do município de Ibiraçu.

O jardim faz parte das terras do Mosteiro Zen Morro da Vargem. Uma estrada rural ao lado do mesmo leva até o mosteiro. Cercado de mata atlântica, é um lugar tranquilo, bonito e agradável, portais japoneses, estátuas de Buda e bodhisattvas se encontram em meio aos diversos jardins do local. O Mosteiro do Morro da Vargem é o primeiro da tradição Zen da América Latina, fundado em 1974, segue a escola budista Soto Zen, que remonta ao Século XIII. Cerca dos 140 dos 150 hectares do local são uma área de preservação ambiental. O que, a princípio, era pasto foi transformado pelos monges em um santuário de recuperação e preservação da mata atlântica. Vale muito a pena conhecer o local e aprender mais sobre o zen budismo e consciência ecológica.

Nossa linda capital Vitória não poderia ficar de fora das nossas paisagens da diversidade religiosa. Agora vamos à praia. A orla de Camburi, uma das principais praias da cidade de Vitória, com cerca de 6km de extensão, é um local agradável para a prática de atividades fisícas no calçadão como ciclismo, caminhadas e corridas, skate ou uma bela volta tranquila para refrescar a mente. A areia também se torna uma grande arena de esportes como o vôlei. Ao longo da orla se encontram diversos quiosques, sobretudo, na altura do bairro Jardim da Penha.

O que a paisagem praiana de Camburi tem a nos oferecer em termos de diversidade religiosa? Num píer, ao lado de onde desagua o canal de Vitória (que separa a ilha da parte continental ao lado norte), existe uma estátua de uma das divindades mais conhecidas e queridas da cultura africana no Brasil: Iemanjá. A divindade das águas salgadas com seu longo vestido azul, se encontra na ponta do píer, um local que te faz sentir a sensação de estar no meio do mar. Sempre foi um dos meus locais preferidos na cidade. Ótimo pra sentir a brisa do mar e refletir sobre a vida.

A estátua de 3,6 metros de altura (fora a base), já possui 33 anos, e é considerada um monumento histórico de Vitória. Foi encomendada pela prefeitura no ano de 1988 e, curiosamente, foi projetada por um artista grego radicado no Espírito Santo chamado Iannis Zavoudakis.

No dia 2 de fevereiro, em que são comemoradas as festividades da Rainha do Mar, acontece o balaio para Iemanjá por uma tradicional casa de Angola da região. Os devotos se reúnem no píer com balaios cheios de flores que serão oferecidas à deusa. Seguem cantando e dançando, presididos pela mãe-de-santo da casa, até a estátua onde serão feitas as orações e cânticos e dali seguirão para o barco que os levará ao meio do mar  para a realização das oferendas. Ao retornar, seguirão para o terreiro para continuar as celebrações. Nesse momento, já começam a se reunir nas areias da praia, diversos grupos umbandistas para as giras em homenagem à orixá das águas salgadas. Na Praia de Camburi, dia 2 de fevereiro é, realmente, dia de Iemanjá.

Por último, vamos agora seguir para as montanhas capixabas, terras mais frias, mais mata atlântica, com ipês que colorem de rosa ou amarelo a mata verde. Terras que atraíram diversos imigrantes europeus que chegaram a partir do Século XIX no estado do Espírito Santo: italianos, alemães, pomeranos. Povos que constituíram colônias nas montanhas capixabas e lá criaram cidades.

A cidade em que vamos nos concentrar agora é Domingos Martins, antiga colônia alemã, que, como toda cidadezinha de interior, tem uma praça no centro e uma igreja na praça. Algo típico de pequenas cidades Brasil a fora, não fosse um detalhe: a igreja da praça não é uma igreja católica, mas sim uma igreja luterana. Agora, é claro, lá vem história.

A igreja de Domingos Martins remonta ao Século XIX e sua história está cheia de fatos curiosos. O primeiro deles é que a igreja é o primeiro templo protestante a ter uma torre no Brasil. Na época, ainda durante o Império, a Igreja Católica Romana era a religião oficial do Estado brasileiro, e a Constituição permitia que outras religiões fossem praticadas em culto doméstico em casas para isto destinadas, porém, não deveriam ter aparência externa de templo. Por isto, utilizar torre em igrejas não católicas era proibido por lei no Brasil.

O sétimo pastor da paróquia luterana da cidade, Wilhelm August Pagenkopf, que a pastoreou entre 1880 e 1887, decidiu adornar a igreja com uma torre. Ele havia visitado o Rio de Janeiro e visto lindas igrejas com imponentes torre e teve a ideia de reproduzir isso em Domingos Martins. O Pastor Wilhelm não sabia, a essa altura, da proibição legal para tal realização, e, quando soube, ficou revoltado e considerou aquilo discriminação, tocando em frente o projeto. Houve um momento em que autoridades do Governo foram enviadas de Vitória a Domingos Martins para embargar a construção, porém, foram recebidas por diversos colonos armados com machados que se recusaram a acatar as decisões governamentais. As autoridades, com medo, foram embora e a torre foi concluída e inaugurada em 1887 com grande festejo pela comunidade luterana.

 VEJA TAMBÉM
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Bom, as histórias acima não encerram a diversidade religiosa do estado do Espírito Santo, mas trazem um pouco da dimensão histórica da religiosidade em terras capixabas. Todos os lugares citados são locais turísticos e de fácil acesso. Agora que vocês conhecem um pouco mais da história desses monumentos, podem visitar, conhecer de perto e aprender mais sobre a cultura do nosso incrível estado do Espírito Santo, o estado mais discreto, mas não menos encantador, do Sudeste.

Referências

A GAZETA. Convento da Penha, a consumação de um sonho franciscano.  Acesso em: 18 mar. 2022.

A GAZETA. No dia de Iemanjá, conheça a história da estátua que dá nome ao píer. Acesso em: 19 mar. 2022.

CONVENTO DA PENHA. Conhecendo o Convento.  Acesso em: 18 mar. 2022.

IEMA. GEA – Mosteiro Zen Morro da Vargem. Acesso em: 18 dez. 2022.

MAI, João Felipe Reali; SAQUETTO, Diemerson. As Férias de Francisco: conhecendo a diversidade religiosa do Espírito Santo. IFES: Vitória, 2019.

PORTAL LUTERANOS. História da Paróquia Evangélica de Confissão Luterana em Domingos Martins/ES.  Acesso em: 18 mar. 2022.

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