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Machismo e religião no Big Brother Brasil 2022 – ou porque precisamos continuar falando sobre patriarcado

Machismo e religião no Big Brother Brasil 2022 – ou porque precisamos continuar falando sobre patriarcado

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Heleieth Saffiotti, em seu livro Gênero, patriarcado, violência, refere-se ao patriarcado como uma máquina. Segundo ela, isso se expressa na “força da instituição, ou seja, de uma máquina bem azeitada, que opera sem cessar e, abrindo mão de muito rigor, quase automaticamente […] nem sequer a presença do patriarca é imprescindível para mover a máquina do patriarcado” (2004, p. 101). Ou seja, o funcionamento da “máquina” é garantido pela sua naturalização que materializa “um pacto masculino para garantir a opressão das mulheres” (p. 104).

Em muitas das minhas conversas sobre questões de gênero e sexualidade tenho percebido a força dessa naturalização e a resistência a uma crítica mais profunda diante do que são considerados avanços no campo dos direitos das mulheres e da superação de uma cultura machista, bem como dos processos de desconstrução e reconstrução de homens e sua autopercepção em relação a comportamentos dessa natureza. Em muitos sentidos essas mesmas questões e percepções têm emergido no contexto do programa televisivo Big Brother Brasil 2022 e é a partir desse artefato que gostaria de tecer algumas reflexões.

Há inúmeros estudos, reflexões e opiniões sobre esse programa em específico, bem como inúmeras polêmicas, questionamentos e denúncias que precisam e devem ser consideradas. Não vou entrar nessa discussão aqui e, confesso, eu viveria muito bem se ele não existisse. O meu objetivo é olhar para algumas dinâmicas do que vem acontecendo e sendo apresentado no próprio programa e, até onde for possível, algumas repercussões por parte do público que o acompanha de alguma forma.

A questão do machismo tem se apresentado como um tema que, vez por outra, aparece em discussão no próprio programa – embora ele seja visivelmente evitado. Da mesma forma parece acontecer em parte do público que se manifesta sobre o que assiste. Aqui e ali pipocam opiniões e observações em torno de possíveis comportamentos considerados machistas, sem muita repercussão e com alguma hesitação. Há, por parte de participantes e por parte do público uma aparente dificuldade de nomear tais comportamentos e suas consequências dentro da dinâmica interna do programa e nas avaliações externas.

Preliminarmente, diria que é difícil identificar precisamente e definitivamente as operações do patriarcado porque, talvez, ele não se apresente da forma como tradicionalmente se esperaria que fosse. O mesmo pode ser dito em relação a temas como transfobia (especialmente na edição atual) e todas as formas de cisheterosexsimo e, principalmente, com relação a questões de raça e etnia e classe social, embora eu não vá entrar nesses temas específicos para não me alongar por demais e porque entendo que há pessoas mais preparadas e habilitadas para essas discussões.

De qualquer forma, parece que há um acordo (pacto) silencioso em não levantar essas questões (e chamá-las pelo seu nome), diante de uma pretensa igualdade (de direitos e de condições) de quem participa (tanto dentro, quanto fora). O “jogo” nivelaria todos os elementos que poderiam interferir nas dinâmicas e nas relações em que todas as pessoas atuam de acordo com o seu “verdadeiro eu” e o resultado dependeria de uma matemática abstrata de afinidades e estratégias que simplesmente vão acontecendo – ou por culpa de quem ousa se colocar fora dessa dinâmica.

Na configuração atual do programa, a maioria de participantes que não foram eliminadas ou eliminados são homens. As três mulheres que permanecem são negras: uma travesti, uma professora e uma com perda da coloração da pele (vitiligo). Essa configuração, por si só, deveria levantar inúmeras suspeitas em relação às relações tecidas ao longo do programa, e ao fato de que os homens insistem em reafirmar – talvez numa estratégica psicológica de justificar a situação para si mesmos; talvez para oferecer uma justificativa para que público que assiste continue do seu lado – que não há machismo, racismo, classismo ou capacitismo (e transfobia) e que tudo é consequência do andamento “natural” das coisas.

É possível (e até provável) que eles mesmos acreditem nisso. Afinal, o machismo (e o patriarcado) não se manifesta e não se sustenta (pelo menos de modo geral nas sociedades atuais) na figura de vilões e figuras monstruosas que desejam deliberadamente o mal (ainda que haja exceções). A máquina segue atuando, por seu caráter naturalizado, sem que seja necessário reafirmar constantemente em discurso o lugar de cada elemento ou peça. O grande patriarca, que nesse caso poderia ser considerado a direção do programa, ou o que é chamado de big boss ou “o verdadeiro e único” big brother, pode até estar ausente e, como tem acontecido nessa edição, ser deliberadamente ignorado – para desespero e irritação do mesmo. Mas tudo bem, o jogo segue deu destino.

Creative Commons - CC BY 3.0 - Formas de machismo no discurso
Creative Commons – CC BY 3.0 – Formas de machismo no discurso

Talvez surpreenda quem está mais atenta ou atento à dinâmica das relações de gênero (raça, etnia e classe social) que em nenhum momento há, por parte dos homens (ou da maioria deles), a menor suspeita de que tais dinâmicas podem estar operando, mesmo que eles não percebam. Em nenhum momento (ou em raros) os homens se colocam no lugar da escuta realmente empática e se perguntam se as poucas e, às vezes, desajeitadas tentativas de apontar para essas questões têm alguma relevância ou fundo de verdade – tão certos que estão de suas boas intenções e processos de desconstrução. As mulheres seguem sendo vistas e retratadas como “triste, louca ou má” – ainda que se use termos menos agressivos ou evidentes. E como é próprio da engrenagem, muitas acabam acreditando – mesmo contra toda a sua descrença.

Talvez o maior diferencial dessa edição esteja na utilização (e manipulação) do discurso. Não creio que nenhuma outra tenha sido tão “falada”, seja nos diálogos e conversas entre as e os participantes, nas infinitas tentativas de explicar os sentimentos e as atitudes, sempre num tom quase confessional, ou nos momentos de provocação de fala. Isso acontece especialmente no que é chamado de “jogo da discórdia”, no qual participantes são obrigadas e obrigados e falar – geralmente questões negativas – sobre outras e outros participantes, e nas justificativas de voto e indicação de participantes para atividades específicas (paredão e monstro).

Nesse jogo de discursos, (alguns) homens têm se sobressaído como grandes oradores. Falam de maneira articulada e convincente de maneira a formar uma opinião geral por parte das e dos demais participantes e, também, do público que assiste. Mas, sua principal estratégia parece ser justamente provocar a fala das outras pessoas, menos versadas nessa habilidade, de maneira a faze-las falar por eles mesmos, comprovando suas posições e seus argumentos e, ao mesmo tempo, desacreditando quem se vê forçada ou forçado a falar sem os recursos necessários para uma elaboração e expressão consistentes do ponto de vista do discurso.

Algumas evidências: a primeira (e principal) é o pacto masculino expresso nas inúmeras expressões de homossociabilidade e homosolidariedade entre os homens. Eles insistem em afirmar que não há “um pacto declarado”, ainda que uma das participantes tenha tentado demonstrar mais de uma vez que a própria afinidade e solidariedade entre eles é uma expressão inequívoca de tal pacto “não dito”. Eles se dão bem e se entendem – têm afinidade – justamente porque compartilham do mesmo substrato patriarcal que os formou e os colocou lá.

A suposta masculinidade descontruída, sensível e capaz de gestos de carinho e afetividade entre homens não é nada nova, mas o próprio “azeite” que mantem, desde sempre, a máquina em funcionamento. E os interditos estão absolutamente presentes: os gestos e os sentidos de afetividade têm limites evidentes e são reafirmados tanto pela insistente afirmação de uma heterossexualidade compulsória (tenho esposa, tenho filhos/as, para com isso), quanto pelas demonstrações de força e virilidade (nas provas, nos gritos, na imposição da presença). Os machos são sensíveis, mas só entre si.

A lealdade é um aspecto importante desse pacto. Aqueles que oscilam ou insistem em se colocar em oposição ao grupo dominante são suspensos (cancelados) e, em caso de reincidência, eliminados. Vale até sacrificar a parceira do outro como forma de proteção do vínculo dos homens que garante a hegemonia masculina. As mulheres são o objeto de negociação e disputa pelo poder entre os machos. E se tem dado certo é justamente porque a máquina está funcionando bem: dentro e fora do programa, respaldada pelas opiniões e decisões de quem o acompanha (votando ou emitindo opiniões).

Outra evidência está relacionada justamente com a questão do uso do discurso e da fala e como determinados mecanismos machistas são acionados pelos homens. Embora alguns participantes homens evidentemente estejam tentando se controlar para que fiquem menos evidentes ou por uma autocrítica superficial, e algumas mulheres têm tentado evidenciar quando ocorrem, são costumeiros os “micromachismos”. O mais comum com certeza é o “manterrupting”, quando homens interrompem mulheres que estão falando (e elas dizem: “deixa eu falar”) e há exemplos abundantes.

Um caso evidente de “bropriating” (quando um homem se apropria de uma ideia ou atitude de uma mulher e leva o crédito) foi quando um participante (Arthur) elogiou uma participante (Laís) por ela ter melhorado de comportamento “após as suas considerações” e a parabenizou por isso. O mérito, se é que há, obviamente, é dele. Em relação a essa participante, mas também em relação a outras, são muito notórias situações de “mansplaining” – homens explicando para mulheres coisas que elas, segundo eles, não entenderam. “Deixa eu te explicar o que de fato aconteceu”. (“você acha que eu sou burra?!”)

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Por fim, o mais pernicioso em relação às próprias mulheres participantes do programa, sem dúvida, é o “gasligthing” (uma forma de violência emocional e manipulação psicológica que leva a mulher e todas as pessoas ao redor a acreditar que ela enlouqueceu ou é incapaz). No programa, tal mecanismo é reforçado utilizando-se, inclusive, de uma suposta autoridade externa: “tá todo mundo vendo; tá tudo gravado”. Não é de admirar que as três mulheres remanescentes, precisamente por parecerem estar mais atentas a essas dinâmicas, ainda que se tenha tentado enfraquecê-las e eliminá-las de diversas formas durante o programa, sejam justamente as mais temidas e, de alguma forma, respeitadas (mais por uns do que por outros).

O elemento da religião entra precisamente aqui. Já foi dito que o próprio formato do programa funciona, de alguma forma, como um sistema religioso, patriarcal e hierárquico por excelência, com o “grande Deus” que tudo vê e (quase) tudo pode, encarnado mimeticamente em quem assiste e que se sente possuído pelos mesmos poderes, sendo essa a autoridade externa evocada por participantes (com ou sem sucesso). No entanto, não quero aprofundar esse debate, mas apontar para um elemento mais sutil e, aparentemente, óbvio.

Uma das formas como a religião se faz presente no programa é nas referências das próprias e dos próprios participantes. A ideia de cumprimento de uma “vontade de Deus” aparece no fato de estar participando do programa (ter sido escolhida ou escolhido), na atribuição e agradecimento por vitórias em provas e recebimento prêmios ou na própria permanência ou eliminação, e é acionada por diversas e diversos participantes. Essa retórica, sem dúvida, ressoa para fora do programa num contexto social onde não apenas a linguagem é reconhecida, mas também os valores atribuídos e contidos nela.

Ainda que seja uma expressão legítima das crenças individuais das e dos participantes, não deveria passar despercebido que grande parte dessas manifestações são enunciadas justamente por homens que, se essa análise estiver certa, sustentam e mantem um padrão machista de relações de gênero. A histórica proximidade de grupos e instituições cristãs com processos e sistemas patriarcais, colonialistas e racistas não é um dado menor ou de menos importância no funcionamento da máquina do patriarcado. Assim, ainda que o recurso ao dado religioso possa ser visto e sentido como um elemento amenizador das práticas machistas, ele pode, também, estar servindo como elemento de reforço para a manutenção desse sistema de relações.

Não pretendo fazer generalizações ou tratar o programa como um simples “retrato” ou “termômetro” das relações sociais mais amplas. Afinal, há muita vida (e morte) para além dele. Mas também não pretendo ignorar o fato de que a atual conjuntura exige que permaneçamos “atentos e fortes”, pois não temos “tempo de temer a morte”. Enfrentar as forças de destruição implica num processo de reflexão, análise e diálogo constantes e essa é apenas mais uma tentativa de fazer isso.

Referência

SAFFIOTTI, Heleieth I. B. Gênero, patriarcado, violência. São Paulo: Perseu Abramo, 2004.

 

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