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Candomblé: Corpos, orientação sexual e fé

Candomblé: Corpos, orientação sexual e fé

Pensar os corpos como suporte duplo de entendimento e experiência do mundo nos coloca diante de um fato inexorável: ele é, ao mesmo tempo, fonte de vivência dos nossos prazeres e sede de nossa vivência espiritual. Ele é chamado, inclusive, de templo em muitos códigos religiosos e não é diferente no candomblé. Diante disso, uma pergunta parece inevitável: como, a partir dessa relação corpo-prazer-experiência espiritual se dão os limites morais e comportamentais em torno do viver a sexualidade no que diz respeito a temas, ainda complexos para alguns, como monogamia x poligamia, relacionamentos entre membros de um mesmo terreiro, desejo-sexo-preceito religioso, dentre outros?

Sem querer, nesse momento, aprofundar filosófica e psicanaliticamente, em torno do tema desejo, mas compreendendo-o como necessidade instintiva do corpo e que difere de vontade, que aqui entendo como decisão que determina a preponderância da mente sobre o corpo, é factível pensar que o desejo age em qualquer lugar sobre o indivíduo e no terreiro não seria diferente. Até que ponto então, a moralização desse desejo é algo que interrompe a vivência? E o que uma religião Afro-brasileira tem a ver com isso?

Os terreiros, sabida e sabiamente, acolheram e acolhem historicamente homens e mulheres LGBTQIA+ sem que essa característica fosse e seja empecilho à entrada dos membros e sem que isso precisasse e precise ser modificado. Obviamente, isso não significa dizer que os terreiros estão livres dos preconceitos ou que ainda não haja questões sérias e importantes a se discutir sobre orientações sexuais, identidades de gênero, superação da cis-hetero-normatividade, vivências do desejo, porém é fato que os terreiros, em sua maioria, são ambientes que ainda seguem sendo bem afins a essas discussões, se comparados a outros códigos religiosos.

Uma questão que, ainda hoje, busca legitimação é a relação com o desejo e isso esbarra na questão da tradição. Hora oportuna, inclusive, para pensar a relação tradição e tradicionalismo, uma vez que é necessário observar que tradição diz respeito a uma forma de ser, estar e pensar o/no mundo que vem de muito tempo e funda, em seu povo, aspectos morais e espirituais dentro de uma comunidade de terreiro. A tradição, então, pode ser entendida como manutenção de memórias, histórias e saberes herdadas por legado. Já o tradicionalismo remete apenas a uma reprodução aleatória de fatos e experiências históricas.

Embora haja exceções, a moral que rege a sociedade é, também, reproduzida nos terreiros, de certa forma, e normatiza, por exemplo, que as relações monogâmicas são as únicas consideradas corretas, desejadas e agregadas no combo “tradicional”. Outra questão que chama atenção é o fato de a cis-heteronormativdade ainda ser um padrão a ser superado, apesar de grande parte dos terreiros ser conduzidos por LGBTQIA+ . Diante disso, a pergunta que fica é se essas questões não foram ainda (re)vistas ou (re)conduzidas por pressão “normativa” ou por uma interpretação errônea na relação tradição/tradicionalismo.

O corpo vibra, sente, (re)conecta a espiritualidade e é o canal pelo qual ela se manifesta e potencializa sua ação, quando está em momento de conexão espiritual, mas também é anterior e posteriormente às experiências espirituais, fonte de vivências e prazeres. Ele tem uma capacidade esplêndida de se adequar à dança sagrado-profano.

David Le Breton, na Antropologia do corpo, considera que, em dado momento, o corpo é “tornado axiologicamente estrangeiro ao homem, dessacralizado, e que fazem dele uma realidade à parte” (2003).

Entender as dimensões que os corpos operam é saber caminhar nas encruzilhadas como múltiplas possibilidades, onde diversos caminhos se encontram e, está na compreensão do fenômeno cruzo, também, o entendimento de que as várias formas de amar e viver o amor são válidas. A encruzilhada, longe de legitimar dicotomias, nos convida à reflexão de que as várias formas de ser e estar no mundo são necessárias e de que toda forma de caminhar produz experiências únicas.

Como bem pondera o professor Luiz Rufino na Pedagogia das Encruzilhadas (2019):

“A tara por uma composição binária, que ordena toda e qualquer forma de existência, não dá conta da problemática dos seres paridos no entre.” (RUFINO, 2019, p. 16)

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É preciso pensar que considerar justas as diversas formas de existir, amar e viver as experiências da vida, a partir da diversidade de corpos, conciliando com uma boa conduta de vivências espirituais é possível e necessário, mas requer esforços no sentido de perceber que a dinâmica das encruzilhadas sempre nos cerca, mas acima de tudo, deve nos nortear.

É necessário ter no exemplo de Esu, de N’pambu Njila, orixá e N’kise que considera o indivíduo a partir de sua essência, diversidade, condição vacilante, mas, ao mesmo tempo, potência no mundo, uma forma legítima de condução da vida. Isso significa dar um passo importante na eliminação dos preconceitos que ainda se estabelecem, em alguma medida nos terreiros, e construir novas formas de pensamento que priorizem o ser humano na sua complexidade e potência.


Referências

RUFINO, Luiz. Pedagogia das encruzilhadas. – Rio de Janeiro, RJ: Mórula, 2019.

LEBRETON, David. Antropologia do corpo. Tradução de Fábio dos Santos Creder Lopes. 4 ed. – Petrópolis, RJ: Vozes, 2016.