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O axé enquanto resistência decolonial

O axé enquanto resistência decolonial

As perspectivas decoloniais nos ensinam que a descontinuidade se materializa enquanto caminho necessário para que renunciemos às heranças perversas e subalternizantes que deram sustentação à nossa realidade política, religiosa, epistêmica e social.

Ao nos aproximarmos das “perspectivas exuísticas”, como nos ensina o Professor Sidnei Barreto, compreendemos a necessidade da encruzilhada como intervenção ativa e reativa contra os sistemas de opressão que se intensificam, sobretudo, através da demonização e banalização dos saberes e crenças negras.

O ingresso nas orientações da encruza nos permite compreender que, atrás dos valores vilipendiados para manter a lógica do estigma, nós encontramos pressupostos civilizatórios que nos permitem refutar os modelos binários e individualistas que correm a experiência ética do comum.

Decolonizar é um movimento constante de recusa às bases de violação que suspenderam, desde a configuração da modernidade, o reconhecimento em relação aos saberes ancestrais, forjando, assim, uma senzala política, estética, religiosa e simbólica. A colonização se estabelece como processo de aniquilamento sistemático. A fabricação da raça e, por consequência, do racismo anti-negro, se empenha em retirar de nós, como nos ensina Frantz Fanon em Peles negras máscaras brancas “todo o valor, toda a originalidade” e naturaliza, sem pudor algum, as violências contra as nossas vidas.

A presença, como força constitutiva do egbé — da comunidade — convida as pessoas que se integram aos terreiros a serem reativas aos modelos de apagamento constitutivos do racismo religioso. Essa categoria de violação se materializa na intenção, estrutural e estruturante, de lançar às margens todas as insígnias que remontem a ancestralidade e a potência afro-brasileira.

Se, por um lado, o racismo se direciona contra os corpos negros e avilta a sua ancestralidade, por outro, as Comunidades Tradicionais de Terreiro promovem um caminho de resistência que desmitifica a suposta passividade associada aos sujeitos negros — mito que é fruto de um projeto político sustentado pela colonialidade do ser.

A distância em relação aos Candomblés se torna um desejo incutido pela configuração das políticas coloniais. A discriminação, originária das concepções supremacistas faz com que seja uma realidade, uma mãe perder a guarda de sua filha, como aconteceu em julho do ano passado, em São Paulo, por ter permitido que a criança se iniciasse no axé. A criança, mesmo ao afirmar que não sofreu nenhum tipo de maus tratos, os seus argumentos não foram considerados. O que nos leva a perceber que, de modo bastante hostil, as relações de poder desenham os que podem e os que não podem ser ouvidos ou ter os seus direitos de culto assegurados.

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Nessa dinâmica, isto é, da colonialidade, nós encontramos um desejo perverso pela subordinação dos outros sujeitos, da sua cultura, de sua crença, dos seus desejos e afetos, como norma.  Assim, a morte se torna uma regra instalada contra os sujeitos negros, contra as suas experiências e cosmopercepções.

A tentativa de silenciar os tambores e os seus ecos demonstra o quanto os sentidos negros devem ser, em nome desse desejo centralizador, interrompidos para que se garanta uma ordem genocida. As Comunidades Tradicionais de Terreiro nos colocam em contato com a nossa ancestralidade e, ao mesmo tempo, nos permitem ingressar em caminhos que se opõem a construção de mundo ancorada na hierarquização dos corpos e na construção dos “sujeitos” em detrimentos dos que são enunciados como “os outros”.  Nesses espaços de axé, a destruição da distância se articula na promoção do nós.

Compreendemos que no Xirê, momento de encontro e de saudação ao sagrado, nos encontramos no círculo e nos reconhecemos como parte integral de um todo que não se desarticula, apesar de nossas diferenças. Que sejamos capazes de nos encontrar nessa dinâmica, isto é, nos reconhecendo, por meio das nossas diferenças, num horizonte de reciprocidade ética.