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Diálogo inter-religioso nas Ciências da religião aplicada

Diálogo inter-religioso nas Ciências da religião aplicada

O Diálogo Inter-religioso é algo inevitável no mundo contemporâneo. Segundo o cientista da religião Frank Usarski, no livro A Construção do Diálogo (2018), da Antiguidade até o período do iluminismo, o “outro”, o estrangeiro, o diferente era considerado bárbaro, inferior primitivo. Com o advento da razão científica, passou-se a enxergar este “outro” como um objeto a ser estudado, incluindo seus ritos, seus textos, sua forma de lidar com a transcendência ou com as questões essenciais da existência. Naquele momento, de uma certa maneira, também nascia o que hoje conhecemos como Ciência(s) da Religião.

Segundo Greschat (2005), as formas de se entrar em contato com o fiel “estrangeiro” passaram por diversas fases, que “coexistem até hoje”, desde o período colonial, quando eram vistos como “personagens de circo”; num segundo momento, quando a abordagem era feita sempre a partir da perspectiva religiosa do observador; até a criação por Wilfred Cantwell Smith (1976) da “personalização”, que considerava que “o estudo da religião é um estudo de pessoas” e que, portanto, “nosso conhecimento sobre religiões alheias é enriquecido pelo encontro vivo com seus adeptos” e os mesmos devem confirmar se as afirmações científicas feitas no estudo são verdadeiras. Esta abordagem pode ser feita através de entrevistas, de conversas e de instruções dos/as fiéis ao pesquisador ou à pesquisadora. As entrevistas podem ser feitas através de pesquisas estatísticas ou de perguntas feitas pelo/a pesquisador/a a um componente de determinada religião. Tais conversas podem ser mais úteis para uma pesquisa do que a leitura de um livro, ou ainda, aprofundar a compreensão daquilo que foi lido. É preciso, no entanto, adotar um vocabulário comum a todos os envolvidos e focar no que é essencial.

Esse tipo de abordagem deu início ao diálogo inter-religioso, quando os países do dito ‘Terceiro Mundo’ haviam se tornado independentes do colonialismo e voltaram a dar maior visibilidade às religiões originárias e reduziram a influência de missionários cristãos (GRESCHAT, 2005, p. 85), e é hoje “uma matéria importante” para as Ciências da Religião“, onde “(…) aprender sobre aspectos religiosos exige a inversão da atitude rotineira: em vez de falar, é preciso calar; em vez de ir à frente, deve-se seguir o outro; em vez de associar livremente, é preciso ouvir; em vez de preparar para fazer objeções, há que se abster de julgamentos.” (GRESCHAT, 2005, p. 88).

Do ponto de vista, teológico cristão católico, a disciplina Teologia das Religiões surge na Europa, na década de 1960, como uma maneira de compreender o catolicismo agora inserido em um mundo plural e não mais mantendo a concepção de religião hegemônica e única detentora da verdade salvífica, que teve sua semente plantada com o documento assinado durante o Concílio Vaticano II, Nostra Aetate. Nos anos 1980, passa a ser denominada como Teologia do Pluralismo Religioso. O pluralismo religioso é um fato evidente na sociedade atual, uma questão fundamental para o pensamento teológico pós Concílio Vaticano II e propulsora para o diálogo. Segundo Panasiewicz (2020), a partir dessa reflexão, a Igreja Católica, propôs formas deste diálogo em dois de seus documentos: Diálogo e Missão (1984) e Diálogo e Anúncio (1991). Na visão de Usarski (2014), “a Ciência da Religião deve atuar como disciplina auxiliar da Teologia das Religiões”. Outras tradições religiosas, como o Hinduísmo e as religiões de matriz africana, já vinham praticando formas de diálogo inter-religioso praticamente desde o seu surgimento.

As Ciências da Religião nascem, portanto, do próprio diálogo, de um primeiro interesse por analisar, mas que vira interesse em compreender e, em um terceiro momento, em interagir com quem é, pensa ou crê de maneira diferente de nós. No entanto, quando entrei no mestrado e comecei a pesquisar sobre o Diálogo Inter-religioso me deparei com uma inquietação: é suficiente estudar o fenômeno do diálogo inter-religioso ou é preciso dar um passo além da pura análise científica e constatação dos fatos?

Essa inquietação não é apenas minha. Na considerada “bíblia” da Ciência da Religião no Brasil, o Compêndio de Ciência da Religião, no capítulo Ciência da Religião Aplicada 1Uma das oito subáreas elencadas pela CAPES no campo da Teologia e Ciências da Religião e é nela que se inserem os temas relativos à diversidade, ao respeito e à tolerância e ao diálogo inter-religioso.,  Soares coloca o objetivo do capítulo como sendo o de expor “a aplicabilidade dos resultados obtidos pela Ciência da Religião” a fim “de contribuir socialmente em vista da paz, da humanização e da mediação de conflitos culturais-religiosos” – de acordo com o pensamento de Tworuschka. (SOARES In: PASSOS; USARSKI, p. 573). Ele apresenta os autores e assuntos que seguirão e ressalta que “está literalmente inconclusa esta parte do trajeto e ainda há várias possibilidades sequer imaginadas sobre o que será, de fato, uma Ciência Prática da Religião”. (SOARES In: PASSOS; USARSKI, p. 576). Ou, seja, ainda está em processo de construção.

O que Tworuschka propõe são, entre outros, os seguintes pontos referentes ao “termo Ciência Prática da Religião”: “modelo […] ilimitado, inter e transdiciplinar, que incentiva e promove uma ação orientada, crítica, comunicativa, político-social da Ciência da Religião”; seu “modo básico” é “a comunicação com e entre pessoas de diferentes origens, compreensão de horizontes e jogos linguísticos”; “refere-se a outras ciências Humanas e cobre toda a amplitude de tentativas psicológicas, sociológicas, epistemologicamente fundamentadas”; “lida com ‘processos de mediação’ por diferentes meios de comunicação”; “quer facilitar ‘melhores’ realidades no futuro a partir de ação refletida de resolução de problemas”; seus “interesses […] são entre outras coisas pacificadores, humanizadores e conciliadores”; “se vislumbra como  uma combinação de vários diferentes campos de estudo […] interessada em desenvolver normas, modelos, tarefas organizacionais para a ação”; “gera conhecimento praticamente útil e utilizável”. (TWORUSCHKA In: PASSOS; USARSKI, p. 579). E, acrescenta em seguida, que “a Ciência da Religião pode desempenhar um papel educacional eminente em diálogo e, portanto, tem uma tarefa prática: educar os estudantes que podem realizar o papel de intermediários e intérpretes entre duas tradições religiosas.” (TWORUSCHKA In: PASSOS; USARSKI, p. 582).

Dentre projetos importantes, realizados ao longo da história, que exemplificam a Ciência Prática da Religião e estão relacionadas ao diálogo e à tolerância religiosa estão: a “Liga Religiosa das Nações”, de Rudolf Otto; o “Projeto Ética Mundial”, de Hans Küng; e, dentro da academia, a proposta de Ninian Smart da “Academia Mundial das Religiões”.

Foi a partir de algumas dessas inquietações e reflexões que nosso Grupo de Pesquisa “Religião, Pluralismo e Diálogo” (REPLUDI), do Programa de Pós-Graduação em Ciências da PUC Minas, organizou o seu segundo colóquio tendo como temática central “a discussão das perspectivas epistemológicas e práticas do Diálogo Inter-religioso no âmbito da Ciência da Religião Aplicada”. Os debates propostos para o II Colóquio do REPLUDI tinham por objetivo ampliar e aperfeiçoar as questões metodológicas e práticas relativas tanto aos estudos acadêmicos sobre o diálogo inter-religioso quanto à contribuição social que tais discussões podem apresentar no sentido da promoção da tolerância, respeito e valorização da diversidade religiosa. Algumas dessas reflexões estão nos anais do colóquio e outras serão desenvolvidas em um artigo a ser publicado em breve.

Neste mesmo caminho, o nosso GT “Espiritualidades contemporâneas, pluralidade religiosa e diálogo”, coordenado pelos professores Cláudio de Oliveira Ribeiro, Gilbraz Aragão e Roberlei Panasiewicz, organizou e está lançando o Dicionário do Pluralismo Religioso, que apresenta verbetes escritos por pesquisadores e pesquisadoras do cenário acadêmico e religioso brasileiro com sínteses, descrições, análises e perspectivas acerca do pluralismo e da diversidade religiosa. Nesta edição, também são apresentados outros tipos de diálogos, como o Diálogo Interfé (por Angélica Tostes) e o Diálogo Interconvicções (por Rita Grassi). Trata-se de uma iniciativa relevante para começarmos a pensar o pluralismo religioso a partir de uma perspectiva brasileira e latino-americana e a entender que há diálogos para além do inter-religioso, pois, afinal, nem todas as ditas “religiões” e os seus “religiosos, fieis, etc.” se enxergam como tais e, também, isso precisa ser levado em consideração.

O mundo de hoje exige reflexão, análise crítica, mas também exige ação e nenhum profissional pode ficar de braços cruzados, por trás de uma imparcialidade científica, se eximir de uma ação efetiva sem proselitismo. Mas, sim, utilizando-se desta mesma imparcialidade, deve-se partir para uma ação efetiva, com bases metodológicas, na (re)criação de uma realidade, onde valores como a paz, a igualdade, a liberdade, a fraternidade e a sororidade possam prevalecer.


Referências 

Anais do II Colóquio do Grupo de Pesquisa “Religião, Pluralismo e Diálogo” – REPLUDI. O diálogo inter-religioso na ciência da religião aplicada: perspectivas epistemológicas e práticas. Belo Horizonte: PUC Minas, 2019.
ARAGÃO, Gilbraz; PANASIEWICZ, Roberlei, RIBEIRO, Claudio de Oliveira(orgs.). Dicionário do Pluralismo Religioso. São Paulo: Recriar, 2020.
GRESCHAT, Hans-Jürgen; USARSKI, Frank (trad.). O que é ciência da religião? São Paulo: Paulinas, 2005.
PASSOS, João Décio; USARSKI, Frank (Orgs.). Compêndio de Ciência da Religião. São Paulo: Paulus/Paulinas, 2013, p. 573-689.
USARSKI, Frank. A construção do diálogo: o Concílio Vaticano II e as religiões. São Paulo: Paulinas, 2018.
USARSKI, Frank. A Ciência da Religião como disciplina auxiliar da Teologia das Religiões. In: Pistis & Praxis, 2014, vol. 6, n.2, p. 719-736.


Notas

  • 1
    Uma das oito subáreas elencadas pela CAPES no campo da Teologia e Ciências da Religião e é nela que se inserem os temas relativos à diversidade, ao respeito e à tolerância e ao diálogo inter-religioso.