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Deus no meio de nós: diversidade cristã e a potência profética das teologias encarnadas

Deus no meio de nós: diversidade cristã e a potência profética das teologias encarnadas

Dez anos atrás, em 5 de maio de 2011, o STF aprovou o reconhecimento da união estável entre casais do mesmo sexo como entidade familiar. Em resposta, nas semanas seguintes a chamada “bancada evangélica” no Congresso declararia guerra ao projeto Escola Sem Homofobia, que visava a promover os direitos humanos e o respeito à diversidade de orientações sexuais e identidades de gênero nas escolas do país. O então deputado federal Jair Bolsonaro o apelidou de “kit gay”, alegando que seu verdadeiro objetivo seria “transformar as crianças em homossexuais”. A pressão levaria o projeto a ser cancelado pela presidenta Dilma Rousseff em 25 de maio.

Foi no rastro dessa controvérsia que, no dia 27, um blog voltado para o público LGBTI+ fez uma postagem sobre o trabalho do Diversidade Católica, primeiro coletivo de católicos LGBTI+ organizado no Brasil. Referindo-se ao grupo como “parceiros fundamentais no longo caminho que ainda temos pela frente”, o texto provocaria uma discussão acalorada nos comentários. Alguns leitores se apressaram em apontar o que seria, para eles, uma incoerência, e mesmo uma impossibilidade, de pessoas LGBTI+ serem cristãs. Um deles foi taxativo ao afirmar: “todas […] as religiões abraâmicas são nossas inimigas […]. E, sinceramente, admirar gays que lutam pra conciliar sua homossexualidade com suas superstições religiosas? […] Gays religiosos são como… sei lá, judeus nazistas. Deveríamos é nos esforçar pra libertá-los dessas prisões […]”.

Corta para outubro de 2020, quando o Tribunal de Justiça de São Paulo determinou que Católicas pelo Direito de Decidir, ONG de defesa dos direitos sexuais e reprodutivos das mulheres que está entre as mais antigas e atuantes no país, não poderia mais utilizar o termo “católicas” no nome. O relator do processo justificou a decisão usando citações bíblicas e referências ao direito canônico católico romano para sustentar que as feministas Católicas pelo Direito de Decidir não seriam verdadeiras “católicas”.

Mas como será possível definir quem “pode” se dizer católico – ou evangélico, ou cristão em geral? E a que propósitos serviria essa delimitação? Para começar a refletir, vamos voltar à Assembleia Constituinte de 1987-1988. Ali surgiu uma novidade na cena política nacional: um grupo de 34 deputados eleitos que faziam questão de se apresentar como “evangélicos”, e de construir uma identidade política a partir dessa pertença religiosa. Num Brasil ainda amplamente identificado como uma “nação católica”, a estratégia daquela primeira “bancada evangélica” foi apresentar-se como “bastiões da moral”. Seu discurso político girava em torno de questões de moralidade privada. Posicionaram-se então contra o aborto, o jogo, as drogas, o feminismo, a pornografia, o divórcio, os anticoncepcionais, o “homossexualismo”; e a favor da censura nos meios de comunicação e da educação religiosa nas escolas e na televisão. (A esse respeito, vale buscar o seminal artigo “Representantes de Deus em Brasília: a bancada evangélica na Constituinte”, de Antonio Flavio Pierucci.)

Mimetizando estratégias utilizadas por movimentos cristãos organizados nos EUA desde a década de 1970, esses atores trataram de delimitar sua identidade política por meio de antagonismos. Assim, foi se estabelecendo no imaginário político nacional uma certa representação do “ser evangélico”, do que significa “ser cristão”. Essa identidade foi sendo forjada em oposição a certos movimentos e grupos sociais – ou melhor, a uma certa imagem construída a respeito desses movimentos e grupos, principalmente “LGBTI+” e “feministas”; mas também “defensores dos direitos humanos”, “esquerdas”, “movimentos sociais”. Para usar a expressão de Chantall Mouffe, os movimentos e grupos assim representados se tornaram um “exterior constitutivo”. Ou seja, passaram a ser os “outros”, os “eles”, que definem, por contraste, quem somos “nós” – “nós” não somos como “eles”. O contraste cria grupos estanques, mutuamente excludentes e incompatíveis entre si: evangélicos não são – não podem ser – LGBTI+. LGBTI+ não são católicos. Católicas não são feministas. Feministas não são cristãs. Cristãos não são “de esquerda”. Gente “de esquerda” não é evangélica.

Um efeito dos antagonismos assim estabelecidos é a homogeneização de atores e ideias muito diferentes entre si, criando representações de grupos sociais inteiros – tanto dos “cristãos” quanto dos seus “outros” – relativamente bem definidas e livres de contradições. Porém, é uma homogeneidade ilusória. Ela apaga a diversidade das realidades concretas das pessoas reais; a pluralidade de experiências encarnadas em corpos humanos inseridos na sociedade; a multiplicidade de vivências – individuais e coletivas – de sagrado, de Deus, de Igreja; a variegada multidão de vozes cristãs.

Nesse contexto, nos últimos anos vem se organizando e ganhando força uma série de movimentos que denunciam esse sequestro da identidade cristã e apresentam outras narrativas sobre os cristianismos, desde dentro dos cristianismos. São cristãos que se identificam como progressistas; católicos e evangélicos que formam redes de coletivos LGBTI+; uma miríade de grupos de feministas cristãs; movimentos negros evangélicos; católicas e evangélicas que lutam pelos direitos sexuais e reprodutivos das mulheres, inclusive o direito ao aborto; mulheres evangélicas, especialmente jovens, que se somam ao pujante feminismo negro no país. Cristãs e cristãos que se organizam para marcar sua presença no debate público e ocupar espaço na arena política, erguendo suas vozes e explicitando sua pertença religiosa para advertir: esses “cristãos” tão ruidosos não representam os cristianismos em sua totalidade, nem têm autoridade para falar em seu nome.

Não é pequena a importância da visibilização e do reconhecimento da diversidade interna aos cristianismos, cruciais tanto para as comunidades cristãs em si quanto para a sociedade mais ampla.  Em décadas recentes – e em especial na última – assistimos à consolidação de um cristianismo hegemônico declaradamente intolerante, bélico e totalitário, imbuído de uma mentalidade imperialista e colonizadora. Um cristianismo coerente com projetos de poder que pretendem manter os privilégios de uns poucos às custas de desigualdades e injustiças para muitos. Um cristianismo moralista que se torna aliado e cúmplice de um certo ordenamento social, fornecendo símbolos, uma retórica e uma estética que reproduzem e reforçam sub-repticiamente um conjunto de valores e ideais, justificando a submissão e o silenciamento daquelas e daqueles mais inferiorizados, mais vulneráveis, mais violentados.

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Mas não nos deixemos enganar por esse cristianismo criado à imagem e semelhança de um deus aparentemente desencarnado e abstrato, distante dos corpos e das experiências humanas concretas. A esse “deus” cristão, que está ao mesmo tempo em toda parte e em lugar nenhum, corresponde uma imagem muito específica e concreta. Concebido como um homem cis-heterossexual branco e viril, é esse o corpo humano privilegiado que ele universaliza e sacraliza, em detrimento dos demais. É à imagem e semelhança desse deus que se configura e legitima uma igreja racista, machista, misógina e LGBTIfóbica, tão mais obcecada em conquistar e proteger patrimônios materiais do que em combater e reparar violências e desigualdades. Ao se apresentarem como únicos e universais, eliminando a pluralidade de experiências de vida e do sagrado, esse deus e essa igreja são ao mesmo tempo minúsculos, pois que esvaziados de possibilidades, e esmagadores, na medida em que desidratam a imaginação teológica e política e se convertem em poderosas armas de dominação.

Justamente aí reside a potência profética da diversidade anunciada desde dentro do campo cristão. A potência de uma pluralidade de vozes que se erguem para denunciar um cristianismo posto a serviço de projetos de morte, violência e opressão e anunciar cristianismos emancipadores, que subvertem hierarquias e projetos de dominação e se colocam a serviço da justiça e da vida. Vozes que tomam a palavra desde corpos concretos, desde onde se situam no mundo, para dar testemunho de outras experiências de sagrado, de outras imagens de Deus, de um Deus infinito que se multiplica em possibilidades de existência a perder de vista, inclusive contraditórias. Vozes que revelam um Deus que se encarna e que santifica como Templos, como lugares de encontro com o sagrado, todos os corpos existentes e ainda aqueles por existir. Todos os corpos imagináveis, inclusive e sobretudo os dissidentes; inclusive e sobretudo os marginalizados; inclusive e sobretudo os vulneráveis; inclusive e sobretudo os violentados. E, especialmente – aqueles feridos por serem quem são, por estarem onde estão.

A Igreja desse Cristo terá mais chances de ser uma Igreja peregrina, a caminho e a serviço. Uma Igreja não mais voltada para o alto, para um Deus desencarnado e abstrato acima de todos – mas uma Igreja de olhos postos em um Deus-conosco, um Deus que se faz carne para vir ao nosso encontro, senta e come com a gente e anda no meio de nós. Um Deus em cuja imagem e semelhança possamos imaginar e materializar, neste mundo em que estamos encarnados e nesta vida concreta, projetos libertadores de sociedade, que tenham a equidade e a dignidade da vida humana como eixos centrais e como horizontes.