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Um encontro, uma esperança e um compromisso

Um encontro, uma esperança e um compromisso

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No emaranhado de palavras e expressões que marcam as experiências da contemporaneidade, a palavra espiritualidade ganhou destaque e é utilizada com mais frequência do que qualquer outra que tenha sido significativa até então para tratar das questões da existência para além da subsistência fisiológica.

Se no geral a expressão está em voga, e possui bastante destaque na produção intelectual e, sobretudo, no consumo das massas, para o cristianismo não é diferente, uma vez que seu emprego é recente para tratar de um conjunto de compreensões e práticas realizadas pelos cristãos e cristãs ao longo dos séculos, desde a sua fundação, na experiência das primeiras comunidades do “evento Jesus Cristo”.

Antes do emprego da palavra espiritualidade, outras ocuparam esse espaço na reflexão e na prática da vida espiritual e a maior delas talvez, seja a mística. Ela está na base do cristianismo e indica o mergulho profundo no Mistério, ou seja, é mais que um assentimento a uma verdade revelada, mas o salto no escuro para experimentar um modo de viver que não está dado, mas surge como possibilidade, tendo como caminho uma pessoa, Jesus Cristo. É um abandonar-se inteiramente na presença de um Deus que promete uma vida plena e que faz do “aqui e agora” o princípio de algo maior que virá.

Esta temática vem sendo tratada na tradição cristã desde muito tempo, porém, foi só no século XX que a teologia passou a se ocupar da investigação de uma “espiritualidade cristã” propriamente. Foi a necessidade de reaproximar a teologia de suas bases espirituais, que fundou um modo de pensar e pesquisar específicos e dados a se aprofundarem no rico arcabouço dos escritos espirituais e da vida ascética e mística, produzidas e indicadas por alguns nomes importantes da história do pensamento e do agir da Igreja.

Na busca por uma definição específica do termo espiritualidade para a teologia cristã, a teóloga Maria Clara Bingemer lembra que “a palavra espiritualidade encontra sua raiz no espírito, ou seja, naquele nível da personalidade humana onde se dão e se encontram os sentimentos mais profundos, as experiências que marcam e configuram a pessoa em sua totalidade e radicalidade” (p. 4).

E para o cristianismo, essa experiência do mergulho em si é também o mergulho no Espírito, Aquele que possibilita à pessoa chegar à vivência da fé, porque ela é dom, ou seja, é um oferecimento de um Deus que se revela e permite às pessoas experimentá-lo. Por isso, embora a palavra espiritualidade seja utilizada para tratar de uma experiência ampla da existência humana, para os cristãos ela se torna especial, porque lembra desse movimento da vivência da fé, que é estar abraçado pela presença de Deus em sua própria pessoalidade, no aqui e agora.

E em se tratando de uma ação pessoal, que desborda no coletivo, por obra do Espírito, a espiritualidade cristã pode ser entendida, então, como um “estilo de vida”, que tem seu ancoradouro em três dimensões: um encontro, uma esperança e um compromisso. Um encontro com a pessoa de Jesus e seu projeto; uma esperança de que a vida é maior, que haverá futuro após a vida terrena; e um compromisso com a recepção do Reinado de Deus no hoje da história da Casa Comum.

A Espiritualidade Cristã é um encontro, porque “ao início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo” (Deus Caritas Est, n.1). E esta compreensão é tão importante para a vivência da fé em conformidade com a experiência que as primeiras comunidades fizeram, que Rahner afirma que “em sua essência mais própria, o cristianismo entende-se realmente como processo existencial, ou seja, como o que chamamos de relação pessoal com Jesus Cristo” (RAHNER, p. 360).

Vivendo entranhadamente esse encontro, que se perpetua na totalidade da vida, é que o cristão nutre sua espiritualidade, realizando outros encontros potentes, na comunidade, com os outros.

Nesse sentido é que a espiritualidade cristã também é uma esperança, porque leva o crente a construir sua vida de forma a compreendê-la não como fim em si mesma, mas como uma abertura para uma vida maior, assumida pela presença amorosa de Deus.

É uma esperança ativa que faz com que os cristãos não se percam no marasmo nem na angústia. É uma esperança que possibilita ser e estar no mundo de forma qualitativa, porque exige um compromisso, que deve ser assumido sob o risco de não se ser fiel ao projeto do Reinado de Deus, que vem e virá, não pelo esforço, mas pelo compromisso.

É daí que é preciso entender que “a vida cristã tem ao lado da dimensão ética, inter-humana, ecológica e sociopolítica, também uma dimensão mística, ou seja, um aspecto de união cognitiva com Deus” (SCHILLEBEECKX, p. 99). Não há uma desconexão entre a experiência mística com a luta por justiça, por libertação.

Essa compreensão errônea perpassou por séculos a história cristã, e ainda é uma sombra que caminha em meio às comunidades, que ainda travam uma batalha constante contra os desejos reducionistas de transformar a experiência cristã em uma forma desconexa de vida, que ignora a realidade e abraça um ideal inalcançável de santidade.

A experiência da espiritualidade cristã verdadeiramente evangélica, por isso discipular, leva, necessariamente, a um anúncio, de que Deus estabelecerá seu Reinado. E que este reinado se balizará pela verdade e pela justiça. E só os santos participarão dessa realidade.

Por isso, a espiritualidade no cristianismo é um caminho para a santidade; não a dos altares, mas a da vida cotidiana, que entende ser santo não como mérito da corrida, mas como qualidade de caminhada. Ser santo não é alcançar um lugar, mas buscar assemelhar-se ao Pai que em tudo é perfeito (cf. Mt 5,48). E esta perfeição não é a do evitar os erros e pecados, mas da assunção da construção da própria vida a partir do desejo de ser com e como o Pai; não mera imitação, mas Ele. No cristianismo oriental dá-se o nome de “teose” ou “deificação”, ou seja, “sua penetração nas energias divinas” (EVDOKIMOV, p. 46).

E existem modos concretos da vivência dessa espiritualidade, que se apresentam por diversas maneiras, mas as principais delas são: a liturgia, a oração/contemplação e a caridade (como justiça, não como assistencialismo). É por esses meios que ela se alimenta e se expressa. A espiritualidade cristã é um modo de ser e estar no mundo como “boa notícia”, qualquer coisa fora disso é acréscimo posterior e, logo, pouco diz da radicalidade evangélica pretendida pelas primeiras comunidades.

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A experiência espiritual dos cristãos, aquilo que está no mais profundo de seu encontro com o Mistério, não pode ser dito de outra forma que não seja imersão-emersão; um movimento de baixar e tornar a subir; de entrar e tornar a sair; movimento constante e perpétuo até a realização da esperança primeira e última para o cristão, a ressurreição na vida eterna.

 


Referências 

BINGEMER, Maria Clara. Teologia e espiritualidade. Uma leitura teológico-espiritual a partir da realidade do movimento ecológico e feminista. Cadernos Teologia Pública, ano 1, nº 2, 2004.  . Acesso em: 02 fev. 2022.

EVDOKIMOV, Paul. O silêncio amoroso de Deus. Aparecida: Editora Santuário, 2007.

RAHNER, Karl. Curso Fundamental da Fé. Introdução ao conceito de Cristianismo. São Paulo: Paulus, 2004.

SCHILLEBEECKX, Edward. História Humana Revelação de Deus. São Paulo: Paulus, 1994.

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