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A espiritualidade “universal” do neopentecostalismo brasileiro

A espiritualidade “universal” do neopentecostalismo brasileiro

Desde a década de 70, no contexto de mudanças econômicas e religiosas no país, houve a proliferação de um conjunto de novas igrejas de tipo evangélicas e pentecostais que logo ganhariam os espaços das metrópoles urbanas, arrematando multidões através de uma mensagem poderosa de mudança de vida, especialmente, para pessoas com problemas financeiros, doentes, com crises familiares e problemas espirituais – eram os chamados neopentecostais.

Com a proposta de uma espiritualidade mais pragmática, “mágica”, mesclando aspectos sincréticos de outras religiosidades, menos dogmática e restritiva na conduta ética, propondo o bem-estar da saúde e realização financeira, de uma realidade atravessada por uma guerra espiritual, entre outros, o neopentecostalismo em poucos anos tornou-se uma das principais expressões das espiritualidades emergentes no cenário religioso contemporâneo brasileiro.

O neopentecostalismo é um movimento complexo e plural, composto de diversos matizes, variadas denominações e, mais recentes, transformações que tem modificado a expressão dessa forma religiosa na sociedade. Hoje existem uma miríade de grupo, comunidade e igrejas que se identificam com aspectos da espiritualidade neopentecostal. Nesse sentido, é mais adequado falarmos dos “neopentecostalismos” no plural e de uma multiplicidade de “espiritualidades neopentecostais”.

É necessário que se destaque que as espiritualidades neopentecostais são fomentadas tanto pelas diferentes ênfases de cada uma das igrejas/denominações, quanto das demandas religiosas próprias dos sujeitos religiosos que se vinculam a elas. Também, não se pode confundir a espiritualidade vivida por estes sujeitos religiosos e os interesses daqueles que detém o poder religioso nas lideranças institucionais.

Do ponto de vista histórico e social, o neopentecostalismo é considerado uma terceira vertente ou onda do pentecostalismo brasileiro. Os neopentecostais caracterizam-se por um tom social marcado pelo exclusivismo denominacional, pelo não-ascetismo em relação ao mundo, forte participação na política partidária, uso intenso dos meios de comunicação de massa, grande capacidade adaptativa às demandas das classes baixas e médias, projeto de expansionismo internacional. Segundo o sociólogo brasileiro Ricardo Mariano1MARIANO, Ricardo. Os neopentecostais e a teologia da prosperidade. Novos Estudos CEBRAP, n.°44, março 1996, pg. 24-44., os neopentecostalismos são também marcados por três elementos teológicos distintivos que modulam as crenças e práticas desses grupos: (1) a difusão da teologia da prosperidade, (2) a cosmologia da batalha espiritual e (3) a ruptura com os parâmetros morais de “santidade” do pentecostalismo clássico.

No Brasil, o neopentecostalismo surgiu primeiramente com a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), fundada em 1977 no Rio de Janeiro pelo Bispo Edir Macedo. De acordo com o Censo 2010 do IBGE, a IURD possuía cerca de 1 milhão e 873 mil membros, espalhados por aproximadamente 8.733 mil templos no Brasil. Está presente em 135 países, com 3.559 mil templos no exterior. No total, conta com 17.000 mil bispos e pastores pelo mundo2Informações disponíveis em: https://noticias.r7.com/brasil/universal-completa-43-anos-com-10-milhoes-de-fieis-pelo-mundo-09072020. Na atualidade, o neopentecostalismo iurdiano é uma poderosa força social, com presença na política partidária, com grandes instituições de mídia e atuação nas áreas sociais pelo país.

Considerando os aspectos precursores e a influência social-religiosa da IURD, queremos destacar três noções3Parte das considerações a seguir são uma adaptação de parte do artigo: BARROZO, Victor Breno Farias. Corpos, êxtase e religiões: as representações do corpo no candomblé e no neopentecostalismo na contemporaneidade. Último Andar, (33), 2019, p. 90–109. da espiritualidade neopentecostal a partir desta denominação, a saber: libertação, sacrifício e prosperidade.

A primeira noção relacionada a espiritualidade neopentecostal é a libertação. De acordo com Mariano 4MARIANO, Ricardo. Neopentecostais: sociologia do novo pentecostalismo no Brasil. São Paulo: Edições Loyola, 1999, p. 113. (1999, p. 113), para os neopentecostais, “o que se passa no ‘mundo material’ decorre da guerra travada entre as forças divina e demoníaca no ‘mundo espiritual’”. Na cosmologia neopentecostal, os indivíduos são/estão, de alguma forma, sobre influência ou “possuídos” por espíritos malignos. Estes “demônios” atuam principalmente causando aflições ao corpo, de maneira que se entende que, um corpo “possesso” é responsável por manter o indivíduo “escravo” de vícios de diversas naturezas (como: o uso de bebidas alcoólicas, drogas, ou, as de natureza sexual: prostituição e adultério), através de doenças, através de problemas psíquicos e emocionais e, especialmente, problemas financeiros.

Por esta razão, antes de tudo, o corpo precisa ser submetido a um programa de sessões de “descarrego” ou de “desencapetamento”, através do qual este será “liberto” dos “poderes malignos” que o mazelam. Segundo Paulo Barreira5BARRERA, Paulo. Festa, corpo e culto no pentecostalismo: notas para uma antropologia do corpo no protestantismo latino-americano. Numen: Revista de estudos e pesquisa da religião, Juiz de Fora, v. 8, n. 2, 2005, p.33., “no pentecostalismo o corpo é portador de forças malignas, das quais é liberado com os exorcismos. A liberação da posse demoníaca é frequente nos cultos e se repete inúmeras vezes na biografia religiosa das pessoas.

A segunda noção relacionada a espiritualidade neopentecostal é a sacrifício. “Sacrifício” aqui deve ser entendido como uma mimese ritual da troca de dádivas em relação a Deus. No neopentecostalismo entende-se que, da mesma forma como Deus sacrificou seu filho em favor da salvação da humanidade e, os personagens bíblicos precisaram sacrificar certas coisas para obterem o favor desse Deus, é preciso também submeter através do corpo, sacrifícios rituais (como as campanhas e correntes), particularmente aqueles relacionados a ofertas financeiras. Sendo assim, é necessário que o corpo carregue em si a representação desse sacrifício mediante a prática disciplinada de mecanismos rituais e pelo desprendimento e privações de caráter econômico.

As ofertas e dízimos são um tipo de “contrato social” ou “aliança com Deus” em que se estabelece uma “adesão ao pacto divino” e, por meio desse sacrifício, se consegue a proteção contra os poderes malignos e a atenção das bençãos divinas para si.A lógica sacrificial do dinheiro não está apenas no ato de dar, mas, no quanto se está disposto a sacrificar. Há um sistema de proporcionalidade entre a benção de Deus e o grau quantitativo de oferta financeira que o crente neopentecostal está disposto a sacrificar.

A terceira noção relacionada a espiritualidade neopentecostal é a prosperidade. Para o neopentecostalismo, a pessoa liberta e que ofereceu seu sacrífico, emergirá numa nova condição na medida em que projete um ideal de sucesso (ideologia da competência do mercado neoliberal). Dessa forma, a representação da pessoa “abençoada” ou “cheia da graça de Deus” se manifesta de acordo com a prosperidade, entendida como o bem-estar físico e psicológico, a ascensão econômica e a status de destaque social.

Na espiritualidade neopentecostal a pobreza, doença e tristeza são representações do mal e das forças demoníacas, por isso, “a receita Universal de vida redimida” se evidencia na mudança para um novo estilo de vida baseado na riqueza, na saúde plena e na felicidade perene. O neopentecostalismo reproduz a chamada teologia da confissão positiva, que é uma corrente teológica norte-americana das décadas de 50 e 60 que afirma o poder do “pensamento afirmativo”, das “declarações proféticas” como ato mágico-religioso de manipular os poderes divinos em função do atendimento das necessidades e interesses dos sujeitos religiosos.

***

Por fim, as espiritualidades neopentecostais – aqui abordadas tomando como referência a IURD – são um tema desafiador tanto para os estudos da religião quanto para àqueles que desejam compreender a realidade brasileira contemporânea. Libertação, sacrifício e prosperidade são alguns dos elementos que compõe a dinâmica da experiência dessa forma religiosa. Os neopentecostalismos são um fenômeno recente que refletem toda a complexidade da nossa modernidade religiosa. Dessa maneira, as espiritualidades derivadas desses grupos e igrejas, ultrapassam o espaço religioso tradicional dos templos e da vida privada dos seus fiéis para invadir o espaço público, afetando relativamente a cultura e organização social do país, constituindo-se como questão fundamental para entender nossa situação atual.


Bibliografias

BARRERA, Paulo. Festa, corpo e culto no pentecostalismo: notas para uma antropologia do corpo no protestantismo latino-americano. Numen: Revista de estudos e pesquisa da religião, Juiz de Fora, v. 8, n. 2, p. 11-38, 2005.

 VEJA TAMBÉM

BARROZO, Victor Breno Farias. Corpos, êxtase e religiões: as representações do corpo no candomblé e no neopentecostalimo na contemporaneidade. Último Andar: São Paulo, v. 1, p. 90-109, 2019.

CAMPOS, Leonildo Silveira. TeatroTemplo e Mercado: A Igreja Universal do Reino de. Deus e as mutações no campo religioso protestante. Petrópolis: Vozes, 1997.

FRESTON, Paul. Breve histórica do pentecostalismo brasileiro. In: ANTONIAZZI, Alberto (org.). Nem anjos, nem demônios: interpretações sociológicas do pentecostalismo. Petrópolis: Vozes, 1994.

MARIANO, Ricardo. Neopentecostais: sociologia do novo pentecostalismo no Brasil. São Paulo: Edições Loyola, 1999.

MARIANO, Ricardo. Os neopentecostais e a teologia da prosperidade. Novos Estudos CEBRAP, n.°44, março 1996, pg. 24-44.

MENDONÇA, Antônio Gouvêa. Protestantes, pentecostais & ecumênicos: o campo religioso e seus personagens. São Bernardo do Campo: Universidade Metodista de São Paulo, 2008.

ORO, Ari Pedro. Neopentecostalismo: dinheiro e magia. Ilha: Florianópolis, vol.3, n.1, novembro, 2001, p.71-85.

Notas

  • 1
    MARIANO, Ricardo. Os neopentecostais e a teologia da prosperidade. Novos Estudos CEBRAP, n.°44, março 1996, pg. 24-44.
  • 2
    Informações disponíveis em: https://noticias.r7.com/brasil/universal-completa-43-anos-com-10-milhoes-de-fieis-pelo-mundo-09072020
  • 3
    Parte das considerações a seguir são uma adaptação de parte do artigo: BARROZO, Victor Breno Farias. Corpos, êxtase e religiões: as representações do corpo no candomblé e no neopentecostalismo na contemporaneidade. Último Andar, (33), 2019, p. 90–109.
  • 4
    MARIANO, Ricardo. Neopentecostais: sociologia do novo pentecostalismo no Brasil. São Paulo: Edições Loyola, 1999, p. 113.
  • 5
    BARRERA, Paulo. Festa, corpo e culto no pentecostalismo: notas para uma antropologia do corpo no protestantismo latino-americano. Numen: Revista de estudos e pesquisa da religião, Juiz de Fora, v. 8, n. 2, 2005, p.33.
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