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Diversidade Cultural Religiosa Na Escola

Diversidade Cultural Religiosa Na Escola

Ao longo da história verificamos, em diferentes momentos, a busca de dominação e homogeneização de culturas, mesmo que sociedades multiculturais sempre foi um traço das organizações sociais. Neste aspecto, na ocidentalização do mundo, a colonização da África, da América e da Ásia, também foi um processo histórico de dominação econômica, política e cultural, e no qual se impôs o etnocentrismo ocidental ao mundo. Na contemporaneidade, efetiva-se a globalização econômica e cultural, a qual impõem um modelo único de sociedade. A cultura dominante é, assim, veiculada por diferentes estratégias, mobilizando a exclusão da diversidade cultural presente nas sociedades e nas suas organizações.

Entre as estratégias dominantes encontra-se o modelo da cultura escolar, que privilegia e impõe aos alunos uma cultura codificada, formalizada. Essa cultura apresenta-se como uma verdadeira ruptura em relação ao universo do cotidiano dos novos sujeitos sociais. É perceptivel que a escola moderna assume hoje um perfil de ambiente cultural e socialmente separado do universo ambiental, pois, é um espaço formal rígido por exigências que têm muito pouco a ver, geralmente, com a realidade familiar e social.

Como exemplo tomamos um exercício pedagógico que ocorreu no ano de 1967 em Palo Alto na Califórnia (EEUU).  Um professor de História do Ensino Médio, ao explicar atmosfera nazista na Alemanha dos anos trinta aos seus alunos, é questionado de como toda uma população permitiu que ações genocidas ocorressem sem nada ser realizado para interromper estas práticas. Este professor, em uma arriscada experiência pedagógica, reproduz o processo que ocorreu no início do século XX a partir do clichê inspirado na política dos nazistas: “Poder, Disciplina e Superioridade” e utilizou um símbolo gráfico para representar “A onda”. Nesta película o professor se declarou o líder do movimento da “onda”, que exortava a disciplina, e fez valer o poder superior do grupo sobre os indivíduos. Os estudantes, por sua vez, obedeceram cegamente. Porém, aconteceu a tímida recusa de um aluno, o que o obrigou a conviver com ameaças e exclusão do grupo. Porém, rapidamente toda a escola foi envolvida no fanatismo da “A onda”. Até o momento em que um casal de alunos mais consciente e crítico alerta ao professor ter perdido o controle da experiência pedagógica, ou seja, passou ao domínio da realidade cotidiana da comunidade escolar. A conclusão desta história é que o professor desmascara uma ideologia totalitária, sustentada o movimento de “A onda”, e denuncia aos estudantes o sumiço de sujeitos críticos, diante de poder carismático de um líder e do fanatismo por uma causa.

A história foi escrita por Todd Strasser (1950- …), autor americano em seu livro “A onda” e posteriormente transformada em filme com duas versões, a primeira lançada nos Estados Unidos em 1981 e a segunda versão na Alemanha em 2008. Ambas versões contam a mesma história, com poucas diferenças. Mesmo sendo apenas uma experiência “pedagógica”, retrata um fato que ocorreu não apenas com a Alemanha, mas em muitos outros países e comunidades. Ou seja, a homogeneização que é traduzida num único modo de ver e perceber o outro, as sociedades, o mundo, com sérias consequências, qu vão desde a “gozação” ou “zoação” até a morte de indivíduos.

Hoje ainda se repete e assistimos ao medo do diverso nas relações, nas tradições religiosas e expressões de gênero. A partir deste cenário é estrutural e instituidor que existam espaços para preparar as gerações para que possam conhecer, acolher e compreender a diversidade. Com certeza, a escola é um desses espaços primordiais para apreender, com o diálogo e reconhecimento, sobre as diferenças culturais de um país, e neste, incluído o campo religioso, pautado pela pluralidade cultural e religiosa como é a do Brasil.

Portanto, a compreensão e o respeito à diversidade  é um processo para ressignificar as relações humanas acerca da convivência com outro, com o lugar que ocupamos e com o sagrado, marcando novos espaços e novas orientações que inferem no cotidiano das sociedades. Neste conjunto está a compreensão de  cultura que adquire formas diversas por meio do tempo e do espaço. A diversidade configura e se manifesta na originalidade e na pluralidade de identidades, e são estas que caracterizam os grupos, as organizações e as sociedades que formam a humanidade. A própria diversidade e suas especificidades é que é a fonte de intercâmbios, de inovação e de criatividade, pois, a diversidade cultural é geneticamente, para o gênero  humano, tão necessária como está dado a própria diversidade biológica para a natureza, por exemplo. Nesse sentido, a diversidade e especificidades do individuo, das organizações sociais, enfim, das sociedades em geral, que constitui o patrimônio comum da humanidade e deve ser reconhecida e consolidada em benefício das gerações presentes e futuras.

É, portanto, verificável e confirmativo que a diversidade cultural é uma das características fundamentais e essenciais à humanidade. Ou seja, é a diversidade cultural, que demonstra e contém os aspectos que mais marca o individuo, o cidadão, um povo. Ao revelar uma identidade especifica e única, preserva-se e desenvolve-se como o maior bem cultural da humanidade.

Percebemos que expressões hegemônicas, como o retratado na história do livro ou dos filmes “A onda”, destroem a dignidade dos grupos vulneráveis, ou ordinariamente vítimas de violações dos direitos humanos. Neste sentido, diz a Declaração Universal sobre a Diversidade Cultural, no seu art. 4º, expressa: “A defesa da diversidade cultural é um imperativo ético, inseparável do respeito à dignidade humana. E no art. 5º, a Declaração ainda estabelece que a diversidade cultural é, “parte integrante dos direitos humanos, que são universais, indissociáveis e interdependentes” (UNESCO, 2002).

Desta forma, favorecer às novas gerações o estudo e a apropriação do tema da diversidade cultural é vincular e desenvolver a real concepção e importância do tema dos Direitos Humanos. Dentre os papeis sociais, por exemplo, estão os movimentos sociais que organizaram suas reivindicações de seus direitos básicos na sociedade (acesso a educação, à saúde, entre outros), o que cabe a educação básica apresentar e introduzir as questões de diversidade, considerando os tratados já elaborados e assumidos pelas organizações sociais. Ou seja, a incorporação do tema da diversidade na Educação Brasileira é mediado e está amparado pelos órgãos Internacionais, como: ONU, UNESCO, OIT, FMI, entre outros. Somente nessa perspectiva é que pode surgir o respeito pela diversidade, ou seja, pelos grupos que, nas relações sociais, permanecem em desfavorecimento. E entre esses, ainda por exemplo, está a diversidade religiosa presente na sociedade.

Assim, o diálogo sobre o universo religioso precisa mais do que nunca ser  interdisciplinar. É factível, especialmente hoje, um tipo de organização dos grupos religiosos, como ocidentais e orientais, e tal proposição é homogeneizadora, o que não retrata as inferências das novas formas dos indivíduos e dos grupos. Nesse apecto, e a exemplo, o cristianismo nascido no oriente foi profundamente ocidentalizado, assumindo paradigmas resultantes de um longo processo histórico-político-cultural. Especialmente, e o que justifica, é que é preciso perceber que o povo não faz teologia, o mais forte nas comunidades são os ritos e os mitos, as lideranças que por várias situações sistematizam e estruturam seus pontos teóricos.

De fato, sujeitos e grupos religiosos promovem uma releitura do cotidiano, com ações próprias, e conseguem estabelecer estruturas que orientam a vida de seus seguidores, pois, promovem atividades que colaboram na convivência das pessoas, assim como em movimentos belicosos que assistimos ao longo da história. Algo a ser ressaltado, são os muitos dos movimentos da expressão pragmática religiosa do povo surge a partir de experiências individuais e progressivamente são coletivizados. Estes movimentos surgem dentro e fora de religiões estruturadas, que com o tempo exige que seja compreendido, aceito ou mesmo combatido em nome do credo hierarquizado.

A organização deste processo religioso está intimamente relacionada aos sujeitos e ao espaço cultural, por exemplo, para os orientais, já que não existe propriamente religião, pois esta é vida, vivência. Enquanto grupos são como os romanos que  compreendiam religião como algo oriundo de um pontífice, ou seja, de uma ponte que permite a relação entre o mundo visível e invisível.

Neste contexto, encontram-se políticas e deliberações educacionais propostas a partir da Constituição de 1988 e confirmada na Lei de Diretrizes e Base da Educação Nacional (1996). Estas almejam e embasam legalmente para se levar em consideração as múltiplas e diferentes orientações culturais e as diferentes aspirações de grupos, a respeito de modo de vida, representadas pela diversificada da população de alunos das escolas. Porém, em pleno século XXI, dado pelo contexto sociocultural, ainda se verifica, especialmente no espaço das escolas, uma forte tensão entre homogeneização e diversidade. Essa divergência têm sido uma característica incessante da teoria e da prática educacional, e que é confirmada por governos e gestores que orientam suas ações por uma ideologia fundamentalista cristã.

Em contrapartida, a esta orientação, torna-se necessário trabalhar com a diversidade nas escolas como algo indispensável para, assim, buscar assegurar a igualdade de direitos e deveres sem, no entanto, aniquilar as diferenças. E num país, como o nosso, marcado por contrastes e desigualdades de recursos, de direitos, de oportunidades, de aprendizagem, de informação, de voz ativa, dentre outros, uma educação de qualidade, e para todos, torna-se essencial e fundamental, visando o acesso por todos numa sociedade, com direitos inerentes que atendam às necessidades básicas de cada indivíduo e de cada grupo social. Nesta perspectiva, percebe-se que articulação dos componentes curriculares, especialmente da área de humanas (História, Geografia, Ensino Religioso, Filosofia e Sociologia), precisa refletir efetivamente sobre a diversidade cultural e religiosa do país, com vistas a contribuir para o conhecimento e respeito das diferentes expressões culturais e religiosas advindas da rica cultura construída na e pela sociedade brasileira.

Assim, incorporar efetivamente o tema da diversidade cultural e religiosa na prática educacional, requer, antes de tudo, esforço na formação e atuação dos professores/as. Isso se faz justamente pelo fato de que a cultura é um produto histórico, com certa autonomia para gerar formas de pensar e agir próprios, e os quais interferem no cotidiano das comunidades e promovem a identidade das mesmas, ultrapassando padrões de leitura exclusivos da cultura predominante dos educadores, estendendo o campo de visão para outros modos de fazer cultura, religião e religiosidade. Portanto, subsidiar os/as professores/as para que possam adquirir estratégias pedagógicas específicas, a fim de que a seleção de conteúdos e o trato pedagógico sejam elaborados em conformidade com a diversidade que se constitui nas identidades dos grupos. E por fim, buscar obter domínio de certos saberes de ordem sociológica, geográfica, política, pedagógica, filosófica, religiosa, entre outros, visando intencionalmente interromper os processos de homogeneização e imposição da cultura dominante aos grupos minoritários presentes na sociedade.

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Mais recentemente no documento da Base Nacional Comum Curricular (2017), por meio de suas habilidades e objetos de conhecimento, faz perceber que é possível verificar como concretizar a educação para conhecer – compreender e respeitas as diferentes identidade para uma sociedade plural e de convivência respeitosa.

Exemplifico, para isso, duas habilidades para o quinto ano – inicialmente de história. “(EF05HI04) Associar a noção de cidadania com os princípios de respeito à diversidade, à pluralidade e aos direitos humanos.” E a outra para o Ensino Religioso “(EF05ER01) Identificar e respeitar acontecimentos sagrados de diferentes culturas e tradições religiosas como recurso para preservar a memória”. É possivel, assim, associar a cidadania ao princípio do respeito, ilustrando no Ensino religioso o respeito aos diferentes acontecimentos sagrados das comunidades. O que efetiva os três verbos para educação da diversidade – CONHECER: saber do que está sendo conversado, com informação clara e confiável – COMPREENDER: saber o que está sendo dialogado – RESPEITAR – visando a convivência na comunidade com profundo respeito a outras experiências visando uma sociedade solidária.


Referencias

CORRÊA, R. L. T. Cultura e diversidade. Curitiba: Ibepex, 2008.

JUNQUEIRA, S.; REIS, M. Diversidade religiosa, laicidade aplicado ao Ensino Religioso. In. Revista Labirinto, v. 32, 2020, 25-41.

KADLUBITISKI, L. JUNQUEIRA, S. Diversidade religiosa na educação. In. Interações, v. 7. N. 11, 2011, 179-197.

KADLUBITSKI, L. Diversidade cultural na formação do pedagogo. Dissertação (Mestrado em Educação) – Pontifícia Universidade Católica do Paraná, Curitiba, 2010.