Informação, filtro e adoecimento coletivo: Diálogo entre David Easton e Jessé Souza

Informação, filtro e adoecimento coletivo: Diálogo entre David Easton e Jessé Souza
14 de outubro de 2019 Nelson Lellis

Informação, filtro e adoecimento coletivo: Diálogo entre David Easton e Jessé Souza

Por Nelson Lellis

Esta é a análise sistêmica política, de David Easton. Eu mesmo a ilustrei aqui de forma bem artesanal. Sua descrição encontra-se no livro Uma Teoria de Análise Política, publicado no Brasil pela Zahar Editores em 1968. Trata-se de um método que serve para muitas coisas. Chega a ser quase infantil, mas é interessante. Veja como funciona:

  1. À esquerda temos pessoas interessadas (ou conteúdo) por uma “coisa” (ou uso do conteúdo na plataforma)
  2. O gatekeeper é uma espécie de filtro
  3. A caixa preta é o local onde tudo acontece
  4. O feedback é o resultado para o ponto 1

 

Vejamos como isso acontece em um exemplo utilizando o telejornal:

  1. O in-put são as notícias coletadas na sociedade
    2. O gatekeeper são as reuniões de pauta
    3. A caixa preta é o que entrará no noticiário
    4. O feedback é a notícia que dada aos próprios objetos (pessoas entrevistadas, foco da notícia etc.)

O que vemos neste caso está claro?

Você consegue entender que o feedback pode alterar as novas notícias porque as notícias oferecidas são filtradas, escolhidas para serem “aplicadas” na sociedade? Consegue enxergar que a análise sistêmica amplia a maneira como enxergamos os interesses de várias estruturas, sejam elas educacionais, eclesiais, empresariais?

As notícias que são filtradas e relançadas à sociedade podem criar um adoecimento coletivo, onde apenas notícias de crimes, catástrofes e coisas do gênero acham espaço e vez. Afinal de contas, “notícia ruim é que dá ibope”, já diz o ditado popular.

Mas… mais do que isso. Quanto à mídia, o sociólogo brasileiro Jessé Souza entende que há os

“intelectuais com seu prestígio e a mídia com seu poder de amplificar e reproduzir mensagens com duplo sentido: mensagens que fazem de conta que esclarecem o mundo como ele é, mas que, no fundo, existem para retirar das pessoas toda compreensão e toda defesa possível”.

 

No campo político, a religião influencia, mas antes, é influenciada

Em nossa sociedade, onde o encantamento mostra-se cada vez mais plural, temos um movimento especificamente evangélico que é visto como aquele que influencia a massa através de seus discursos legitimados pela divindade: castigos ou bênçãos de acordo com a obediência à cartilha. Não nos resta dúvidas de que a análise sistêmica pode ser utilizada exclusivamente numa esfera micro, como a igreja. Todavia, em diálogo que aqui fazemos com Jessé Souza, em esfera macro, a elite (do atraso) brasileira influencia o país e, em minha leitura, a maioria das igrejas.

E é curioso como as relações são construídas desta forma. A igreja é apenas mais uma ferramenta que elites usam para reproduzirem padrões de comportamento capitalista, de autoimagem de inferioridade diante dos EUA, de identidade “exclusivamente” nacional baseada na corrupção.

Basta notar como o ciclo é vicioso quando o poder e o dinheiro entram na veia: a disputa entre mega-igrejas, suntuosos templos, luta por números cada vez maiores de membros, teologia(s) da prosperidade, pastor-coach, literaturas sagradas que focam no sucesso e no empreendimento…

Não apenas esses aspectos, mas também como as igrejas estão ligadas às ideias que buscam perpetuar aquilo que Souza chama de “uma sociedade cruel e forjada na escravidão”. A igreja inclina-se aos donos do poder a) porque sem o poder seu deus morre; b) porque possui projetos de ascensão política, social e econômica; c) porque não há nada mais eficaz do que colocar a divindade no jogo para ajudar a controlar o povo crédulo e desgraçado por uma sociedade que possui donos – não mais com chicotes, mas com as chaves da dispensa.

Grande parte desse grupo sagrado pensa ser elite, mas está a serviço de outra elite. E como são controladas? Primeiramente, por interesses políticos (pautas morais, eleições de pastores e membros de igrejas); depois, pelo poder da mídia e das redes. Daí, a análise sistêmica ajuda a compreender como a sociedade vai sendo construída, manipulada e adoecida por meio de determinados filtros.

Qual a saída?

Assumamos: não há cura. Há alertas. Seguem alguns deixados por Souza:

“Colonizar o espírito e as ideias de alguém é o primeiro passo para controlar seu corpo e seu bolso.

[…] nós só podemos construir e reproduzir um padrão de comportamento por força de ideias que nos ajudam a interpretar o mundo.

[…] toda a nossa ação no mundo é influenciada, quer saibamos disso ou não, por ideias. São elas que nos fornecem o material que nos permite interpretar nossa própria vida e dar sentido a ela.

[…] quem controla a produção de ideias dominantes controla o mundo. […] as ideias dominantes são sempre produto das elites dominantes”.

Caso a igreja cristã queira influenciar de outra maneira a sociedade, resta, sinceramente, abandonar quaisquer projetos de poder. Se de tudo, quiser permanecer como está, que cada comunidade coloque em sua fachada a frase do filósofo italiano Giorgio Agamben: Aqui… “Deus não morreu, tornou-se dinheiro”.

Inscreva-se na newsletter da Revista Senso e receba as novidades exclusivas em seu e-mail!