Do palanque ao púlpito e vice-versa: desafios de um campo em movimento

Do palanque ao púlpito e vice-versa: desafios de um campo em movimento
21 de agosto de 2018 Leonardo Alvarenga

Do palanque ao púlpito e vice-versa: desafios de um campo em movimento

Por Leonardo Alvarenga

Sammis Reachers

© Sammis Reachers

Sobre o episódio emblemático protagonizado pelo pastor Josué Valandro Jr., líder da Igreja Batista Atitude, Rio de Janeiro, ao declarar apoio a um dos candidatos à presidência da República e os desafios do campo para pesquisas.

O candidato à presidência da República Jair Messias Bolsonaro foi convidado pelo pastor da Igreja Batista Atitude, Josué Valandro Jr., em dia de culto, para ocupar o palco central a fim de orar por ele [1]. Depois de ser aplaudido, disse o pastor não estar fazendo “voto de cabresto” e teceu elogios e honras, a partir das quais convocou sua plateia a orar pelo candidato para que se “cumprisse a vontade de Deus” e Bolsonaro se tornasse o futuro presidente do Brasil a partir de primeiro de janeiro de 2019. Devo admitir, sem qualquer constrangimento, que o objeto de pesquisa com o qual trabalho há anos, igrejas batistas, merece estudos mais profundos e por diferentes ângulos. Concordo com um dos pesquisadores sobre o pentecostalismo no Brasil, Dr. Gedeon Alencar, que o fenômeno religioso é “muito mais fugaz e mutável. Sempre que um estudo elabora padrões, delimita espaços e estabelece modelos, chega com algum atraso, pois naturalmente o fenômeno religioso já tomou outra formulação, se alterou, se complexificou” (Alencar, 2013, p. 64) [2].

Em minha tese de doutorado [3], sublinhei, como outros já o fizeram, a participação histórica de um grupo de pastores, liderados pelo então pastor Nilson Fanini, Ebenézer Ferreira, Éber Vasconcelos e Delcyr de Souza Lima em visita ao presidente Figueiredo, no dia 30 de outubro de 1980, cujo intuito, conforme matéria publicada pelo Jornal Batista, era manifestar apoio “moral e espiritual” [4] às medidas até então tomadas. As duas campanhas nacionais dos batistas, “Jesus Cristo, a única esperança” (1965) e “Só Jesus Salva” (1979) foram uma resposta ao contexto sociopolítico que o país atravessava. O principal inimigo a ser combatido (política e ideologicamente) era o comunismo. Só para lembrar, nos 30 segundos que foi concedido ao candidato Jair Bolsonaro na Igreja Batista da Atitude, ele disse que era preciso “varrer o comunismo” do Brasil (sob aplausos). Voltando a Ditadura, como nos informa a pesquisadora Elizete da Silva: “O mote da campanha, Cristo a Única Esperança, claramente se reportava ao contexto sócio-político do Brasil. O hino oficial, divulgado em todas as vias de comunicação da denominação batista, era uma conclamação aos fiéis para as lides proselitistas, ao mesmo tempo uma profissão de fé no poder regenerador do evangelho e as bênçãos que o mesmo traria para o País. A campanha nacional de evangelização foi uma das respostas dos batistas à conjuntura nacional durante o golpe de 1964. A outra atitude, complementar às suplicas e campanhas proselitistas, foi uma densa articulação com os governos militares. A pseudo omissão política dos batistas desvelou-se publicamente: não só legitimavam o regime militar, mas passaram a colaborar com as instâncias governamentais e a pleitear, num jogo de intensas barganhas, cargos e postos políticos em nível federal, estadual e municipal” [5].

Para que não se perca em poucos fatos, em 2010 o pastor da Primeira Igreja Batista de Curitiba, Paschoal Piragine Jr., falou do púlpito de sua igreja, motivado pela questão do aborto, às vésperas das eleições, e contra uma série de leis que estavam tramitando, das quais, segundo ele, tinham que serem submetidas aos “valores cristãos”, para que não resultasse no que chamava de “institucionalização da iniquidade” no Brasil em forma de lei e por consequência “o juízo de Deus sobre a nação brasileira” [6]. Nesta ocasião, o pastor Paschoal Piragine Jr. se posicionara contra o Partido dos Trabalhadores (PT), sobre o qual alegava ter fechado questão sobre um dos assuntos em pauta, em especial o aborto. O pastor Paschoal Piragine Jr. usou de um discurso muito parecido com o do pastor Valandro Jr., dizendo que não tinha intenção de dizer para os fiéis de sua igreja em quem deviam votar, mas sim em quem não votar sob pena de “Deus julgar a nossa terra”. Além disso, o posicionamento de Paschoal parecia incomum, pois dizia nunca ter feito o que fez em 30 anos de ministério pastoral. Na mesma região, Curitiba-PR, uma outra personagem, o menino prodígio Daltan Dallagnol, procurador da República e membro da Igreja Batista do Bacacheri, também assume um papel político explícito e tem ocupado os púlpitos de várias igrejas batistas para declarar justiça contra políticos ligados ao PT, mais expressivamente ao ex-presidente da República, Lula. Ficou conhecido, inclusive, pelo PowerPoint que denunciava de forma rudimentar o ex-presidente como suposto chefe de uma quadrilha.

Estes fatos, que não são de somenos importância, são de extrema relevância para que se investigue mais sobre essa denominação que está no coração da paisagem religiosa no Brasil. No nível congregacional, eles não estão nem no campo histórico clássico nem na nova onda representada pelo pentecostalismo, que no Brasil de 1980 a 2010 mexeu com o campo religioso, nem nos movimentos sectários. Apegando-se a um conservadorismo social, político e migratório, eles têm, de fato, uma fluidez que os torna objeto de observação e estudo surpreendente. Levando em conta esses fatos, é preciso dizer que os batistas no Brasil não formam um bloco monolítico. Sua pluralidade e heterogeneidade vão além do perfil conservador.


Referências

[1] Disponível em: https://youtu.be/WrsDn13QlCY
[2] ALENCAR, Gedeon Freire de. Matriz Pentecostal Brasileira: Assembleias de Deus 1911-2011. Rio de Janeiro: Editora Novos Diálogos. – 2013.
[3] Os batistas em movimento: um estudo da dinâmica sócio religiosa de batistas no Brasil: o exemplo de Macaé-RJ. Tese de Doutorado, Programa de Pós-Graduação em Ciência da Religião, PUC-SP, 2017.
[4] Batistas vão ao presidente Figueiredo. JB, 7 de dezembro de 1980, Ed. 49, p.12.
[5] Silva, Elizete da. Mesa-Redonda – Um Olhar Evangélico Sobre O Golpe De 1964 – Comunicação – Os Batistas E O Governo Militar: Deus Salve A Pátria, 2008.
[6] Disponível em: https://youtu.be/lxRof2j9XdU.