O Sagrado dos Corpos Marginais

O Sagrado dos Corpos Marginais
4 de janeiro de 2018 Thiago Teixeira

O Sagrado dos Corpos Marginais

por Thiago Teixeira

© Gili Benita

© Gili Benita

O corpo é uma experiência da existência. Através dele nós habitamos no mundo, significamos e somos significados. Ele é meio pelo qual as nossas sensações são vividas. Nós o compreendemos como uma porta que se abre para o humano e também para o sagrado.

Inegavelmente, sobretudo em nosso contexto social e político, alguns corpos são lidos e construídos à margem. A eles, de modo inconteste, são negados direitos fundamentais. Sua realidade é condicionada ao escondimento, a uma interpelação violenta e a determinação objetal. Numa dinâmica violenta e pouco empática, os corpos que se prostituem  são lidos de uma forma deslegitimada e fetichizada.

Aparentemente, no ato do gozo e do interesse sexual, aquele indivíduo é apartado de sua identidade como sujeito. Logo, ele é colocado à margem, inclusive, do sagrado, pois, numa compreensão hegemônica, aquela prática é profana.

Nossa questão está exatamente nesse lugar tensional entre o sagrado e o profano dos corpos marginais. Sendo assim, a nossa maior pergunta é: há possibilidade de uma prostituta experimentar o Divino? Essa interrogação fulcral nos direciona a outra: é possível que ela perceba que o seu corpo não é hostilizado num templo religioso, na mesma medida que o é, fora dali? Essas duas questões nos fazem pensar no Direito ao Culto Religioso e também no Direito a ser Humano.

Claramente, aqui, lidamos com um problema que chamamos, orientados por Butler, de enquadramento. Isto significa que alguns corpos e existências são colocados no limite de um reconhecimento positivo e outros não. Pensamos que a experiência do Sagrado, por vezes, é requisitada por corpos que não se entendem ou não são compreendidos como marginais. Eles reivindicam a fé como algo restrito, intocável e intransponível.

Pensamos, ao contrário: é preciso romper com essa estrutura e ampliar as perspectivas de reconhecimento. Todos os corpos podem e devem ter seus direitos resguardados, inclusive o de acreditar e acessar o Sagrado.

Compreendemos que o Candomblé, por exemplo, importante Religião de matriz africana é, desde sempre, uma manifestação religiosa que abraça ao que, de modo injusto, são excluídos e apartados dos lugares sociais privilegiados. Sua força e resistência indicam que para além da vivência dos Orixás, Voduncis e Nkisis, está uma força política e de afirmação da existência de minorias políticas.

Atemo-nos aqui perspectiva de Karol ty Osum, iniciada no Candomblé, praticante da Religião e vinculada ao Axé Oxumaré. Para ela o filho de santo, ao ingressar na religião, “apreende o que certo e o que é o errado” naquele contexto de fé. Além disso, “a Religião não condenará ninguém pelo seu trabalho”. Entendemos que, quando o filho se torna um Omorixá ele é iniciado e aprende sobre a conduta e os valores que o integram naquele culto e o aproximam do sagrado: “há regras que você tem que seguir como existem como em todas as religiões.” Esse espaço do culto é aberto a todos os corpos.

É importante salientar que, durante os rituais que se orientam a fortalecer o elo com os Orixás todos — independente da profissão que exercem fora do Ilê —, são convidados a manter o corpo e a mente entregue ao Sagrado. Segundo, Karol d’Oxum, por exemplo, nesses momentos “não se trabalha com o corpo”.

Entendemos que os corpos que se prostituem, no Candomblé, logram da possibilidade ao culto. Não há estigma que os vetem de participar, com dignidade, do cotidiano da Religião. O que se faz fora das Casas de Santo não importa, uma vez que ali dentro a força do Sagrado nivela a todos. Aqui são requisitados os valores como fraternidade e comunidade. Nesse sentido, não importa o que se faz fora do Ilê se, lá dentro, os corpos estão a serviço do Sagrado.


Referências

BUTLER, Judith. Quadros de Guerra: quando a vida é passível de luto. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2015.

SANTOS, Erisvaldo Pereira dos. Formação de professores e religiões de matrizes africanas: um diálogo necessário. Belo Horizonte: Nandyala, 2016.