500 já foram, o que nos resta aprender? Inquietações ao olhar a reforma

500 já foram, o que nos resta aprender? Inquietações ao olhar a reforma
12 de junho de 2017 Sandson Rotterdan

500 já foram, o que nos resta aprender? Inquietações ao olhar a reforma

Por Sandson Rotterdan

Nossa tentação ao olharmos para as religiões é pensar que elas sempre foram uma grande uniformidade, de maneira a não haver em seu interior múltiplos movimentos e maneiras de ser. Claro que, historicamente, sobressai o grupo que conseguiu reunir mais poder ou adeptos, o que não quer dizer que aqueles que detêm poder sejam os únicos adeptos da religião ou mesmo que seu modo de ser hegemônico seja o único possível dentro da religião.

O cristianismo, por mais que o catolicismo tenha sido e continue, em alguma medida, sendo hegemônico, nunca foi essa calmaria de uniformidade. Desde as origens cristãs subsistem cristianismos, mesmo que um modelo tenha se tornado o oficial.

Talvez um belo legado que os 500 anos da reforma nos tenha deixado seja a retomada da pluralidade dos cristianismos. A reforma nos recordou que ser cristão não é, necessariamente, ser uniforme, ter as mesmas práticas litúrgicas e dogmáticas. Em uma realidade marcada pelo multiculturalismo, as igrejas advindas da reforma nos levam a perceber que ser igreja ou a unidade da igreja cristã está para além da obediência a um soberano que governa uma instituição. Em contrapartida, se olharmos o cenário brasileiro, há um lobby religioso no poder legislativo que nutre, ainda um sonho de volta à cristandade, o que nos inquieta.

Uma boa herança que nos deixa a Reforma é a saída da instituição. Claro, não há uma saída total. Os reformadores constituíram outras instituições religiosas, se aliaram sim ao poder dos príncipes. Todavia, em alguma medida, isso gera um enfraquecimento do poder centralizado em Roma. A pulverização de igrejas talvez signifique o enfraquecimento desse polo único de poder. Essa saída também se expressa com a bíblia nas mãos do povo. A instituição não é mais a intérprete autorizada do texto sagrado, mas o povo, a partir do chão da vida que interpreta a Palavra de Deus, com todos os riscos que isso implica, mas o que é viver que não arriscar? A inquietação que fica é a tendência a um literalismo e uma não interpretação das Escrituras. Textos lidos fora dos seus contextos são usados como pretextos para semear a intolerância religiosa, cultural e de gênero.

Uma última provocação e uma última inquietação sobre esses 500 anos: a Reforma chegou para ficar nas periferias brasileiras. Se o discurso é alienado ou não, é discussão para uma outra matéria. Fato é que a Reforma criou uma outra forma de ser cristão que pegou nas periferias. O microfone, o poder da fala e da palavra é mais democratizado quando a pregadora ou pregador, independentemente se ter passado anos e anos dentro de um gabinete de uma universidade, tem a possibilidade de falar. Talvez esse discurso convença mais a periferia que os discursos abstratos da pretensa “alta teologia”, porque é feito por gente com cheiro de povo e não com cheiro das bibliotecas das universidades. A inquietação que isso nos causa é semelhante à anterior, só que o discurso literal, mas o discurso fácil da prosperidade, que coloca nas costas de Deus a responsabilidade por um sistema econômico injusto construído por nós.

Com esses 500 anos passados resta-nos aprender que nenhuma instituição é dona da verdade, que o cristianismo precisa falar do chão da vida se quiser ser plausível para a vida das pessoas, que é preciso desempoderar as instituições e democratizar as igrejas… virão outros 500. Qual legado deixaremos?