Religiões de Matriz Africana: reconhecendo sua diversidade

Religiões de Matriz Africana: reconhecendo sua diversidade
2 de junho de 2017 Alexandre Magno da Gloria

Religiões de Matriz Africana: reconhecendo sua diversidade

Por Alexandre Magno da Glória

© Emanuele Scherer

Você, com certeza, já ouviu falar em Exu, Ogun, Oxum, Iemanjá ou na palavra “Axé” certo? Nomes tão populares na religio – sidade e cultura brasileira, mas, na maioria das vezes, tão distorcidos de seu verdadeiro significado.

Devido aos séculos de escravidão em nosso país, tudo que veio da cultura negro-africana passou a ser incompreendido, demonizado ou marginalizado por grande parte da sociedade.

Alguns tentam afirmar que é somente uma questão de ensinamentos da fé cristã que não aceita outros deuses, promovendo uma verdadeira “cruzada moderna” para converter os fiéis dos cultos de matriz africana. No entanto, podemos perceber que o problema ultrapassa as questões doutrinárias de um livro sagrado.Por exemplo, muitas crianças são fãs de heróis da Marvel. Entre os diversos personagens, um que voltou a fazer muito sucesso é o deus nórdico Thor, filho de Odin. Os pais não veem problema no filho ser fã de um deus do trovão, de cabelos loiros e que recebia até sacrifícios humanos dos antigos povos germânicos. Então, por que quando se fala de Xangô, um deus do trovão e da justiça dos povos yorubás da Nigéria, culturalmente logo o associam com algo maléfico? Percebemos que o aspecto do racismo é um ponto central da nossa cultura, sempre valorizando a europeia em detrimento da africana, tão importante na construção de nossa identidade e diversidade cultural.

Os dados do “Disque 100”, serviço de utilidade pública da Secretaria de Direitos Humanos, atualmente vinculada ao Ministério da Justiça, mostram um aumento de 626% nas denúncias de intolerância religiosa entre 2011 e 2012, sendo o maior alvo os adeptos de religiões de matriz africana. Um relatório de 2011, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, revelou que em um grupo de 847 terreiros no Rio de Janeiro, 430 foram alvos de intolerância, com 57% dos casos em locais públicos. Os dados mais recentes disponíveis revelam que, entre janeiro e setembro de 2016, foram registradas 300 denúncias de intolerância religiosa, pelo Disque 100. Um aumento de 105% em denuncias registradas quando comparado o mesmo período em 2015.

Estes dados revelam um crescente e grave problema de intolerância religiosa, e estão longe de demonstrar a realidade de fato, já que ainda não se consolidou o hábito de denunciar todas as agressões e violações de direitos que sofrem frequentemente os adeptos destas tradições.

É preciso conhecer para aprender a

respeitar…

As religiões de matriz africana são adaptações e reinvenções das diversas formas de crer dos povos africanos para cá trazidos para serem escravizados. São diversas crenças que se caracterizam por cultuar a ancestralidade, o respeito à sabedoria dos mais velhos, o bom caráter, as forças e leis que regem a natureza e por partilhar alimentos ritualísticos e acolher todas as pessoas, independentemente de cor, credo, classe social, escolaridade ou orientação sexual.

Entre os mais conhecidos destaca-se o Candomblé, que é um termo genérico para nomear diversas tradições que foram criadas ou recriadas no Brasil por povos oriundos principalmente, de países atualmente conhecidos como Angola, Nigéria e República do Benim.

É dividido em três grandes “nações” que se distinguem, principalmente, pelo conjunto de divindades cultuadas e pelo idioma proferido nas cerimônias religiosas, sendo elas:

Nação Angola: Aonde se cultua os Inquices/Nkises. O idioma utilizado nas cerimônias religiosas é o Kimbundu, Umbundu ou kikongo, tendo Nzambi como força criadora primordial.

Nação Jeje: cultua-se os Voduns, o idioma é o Ewe e língua Fon e Mawu é o Ser Supremo.

Nação Nagô: Cultua-se os Orixás, o idioma utilizado é o yorubá e o Criador supremo é Olódùmarè /Olorun.

Cada uma destas “nações” tem diversos subgrupos. Por exemplo; Ketu, Efan, Ijexá, Nagô Egbá, dentre outros, pertencem à nação Nagô, mas, possuem tradições e características particulares entre si.

Outro grande grupo dentro das religiões de matriz africana é o Batuque, que é um nome geral para definir diversos cultos afro-brasileiros originários do estado do Rio Grande do Sul, aonde se cultua, também, as divindades africanas em diferentes “nações”: Kambína, Òyó, Ijexá… Mas, suas tradições se diferem do Candomblé, pois diferentemente deste, não possuem o fundamento de raspar os cabelos na iniciação, não paramentam o Orixá, e pode se comunicar com os adeptos após alguns rituais, entre diversas outras características particulares.

Não podemos também deixar de citar uma religião afro-brasileira presente em todos os cantos do país: a Umbanda. Conhecida principalmente por sincretizar os santos católicos com as divindades Yorubás, os Orixás, mas, diferente do Candomblé estes não se manifestam nas pessoas, sendo as diversas entidades (Caboclos, Preto-velhos, Boiadeiros, Pombo Giras e Exus “catiços”) que incorporam e se comunicam com as pessoas que vêm em busca de conselhos e orientações para os mais diferentes problemas.

Toda esta pluralidade faz parte deste universo das tradições de matriz africana em nosso país.

Exu (Èṣù): O mais controverso entre as divindades Nagô!

O que vêm à sua mente quando escuta o nome Exu?

Demônio? Ser maléfico? Destruidor da ordem? Se você pensou em algo assim, desculpe, mas, este não é Exu.

Primeiramente, é importante lembrar que, nos cultos de matriz africana, não se acredita na existência do Diabo, que é um ser presente em outras religiões. Orixá Exu foi o mais castigado pela perseguição cristã que logo o associou com a figura do Satanás, o que permanece na mente e na cultura popular de muitos. Na verdade, Exu é um dos mais importes Orixás, responsável pela ordem do universo, pela comunicação, dinamismo, disciplina e inspeção dos rituais por ordem do próprio Olódùmarè.

Em terras nigerianas, até hoje, ele também sofre com a perseguição e desconhecimento. Por isso, foi criada uma campanha por lá que diz: “Èṣù is not Satan” – Exu não é o Satanás! que, em dezembro do ano passado, teve sua segunda edição, contando com o apoio do atual rei de Òyó (cidade do culto ao Orixá Xangô) e de diversos sacerdotes da religião tradicional yorubá.

Orixá Exu quando tratado com respeito pode ser o mais benevolente entre as divindades nigerianas.

– Mas, e os trabalhos na encruzilhada?

Bom, Exu sendo o senhor dos caminhos, fez sua morada ao ar livre, aonde os caminhos se cruzam, se encontram, daí sua referencia com as encruzilhadas, o que de nada têm de maléfico, mas, sim de orientação quando não sabemos qual a melhor direção a seguir. Exu, sendo divindade, portador de grande inteligência e onipresença, não é controlado pelos seres humanos. Portanto, não faz amarrações ou promove vinganças apenas para satisfazer desejos fúteis, mas, pode se voltar contra aqueles que lhe pedem algo injusto.

“Exú faz o erro virar acerto e o acerto virar erro!”

Algo que também gera muita confusão é diferenciar Exu Orixá, divindade primordial do principio dinâmico, com Exu “catiço”, ou Exu de Umbanda, que são entidades, seres espirituais que já viveram na Terra e incorporam em seus protegidos, que se comunicam, bebem, fumam e participam das conhecidas giras, nas quais são cultuados. Estes recebem nomes como “Tranca-Rua”, “Caveira”, “Sete Encruzilhadas”, “Marabô”, dentre outros, sendo também bastante incompreendidos e marginalizados.

Exu de Umbanda trabalha para aconselhar e proteger as pessoas, com energias mais densas dentro da leis que regem a natureza como ação e reação.

O mal não é Exu, Divindade ou entidade! O mal está no coração do ser humano que tem o costume de querer terceirizar seus defeitos e vaidades.

O abate religioso

Outra questão que têm levantando muita polêmica, desconhecimento e até ação no Supremo Tribunal Federal é o abate religioso, presente nos rituais de tradições de matriz africana.

É importante esclarecer aqui que esta pratica alimentar e litúrgica, não tem por objetivo causar sofrimento ao animal ofertado, e jamais pode ser feito com imprudência. Quando há necessidade ritual de se abater um animal, tudo deve ser feito com cuidado e respeito.Após o ato, quase toda carne é limpa e preparada para servir de alimento para os adeptos da comunidade, criando um simbolismo de partilha com o Sagrado.

Mais uma vez, percebemos a presença de um racismo religioso, já que a pratica de partilha de alimentos derivados de animais é tão comum nas tradições cristãs, como o peixe no período pascoal e as aves no período natalino, sem que isso gere qualquer questionamento de boa parte da população. Argumentos como a preocupação com os animais não se sustentam, na maioria das vezes estão recheados de certa hipocrisia e conveniência, já que o Brasil é um dos maiores exportadores de carne animal do mundo.

Animais são abatidos e comercializados aos milhares nos frigoríficos do país. Indústrias como a de alimentos, do couro, farmacêutica e de cosméticos, faturam milhões de reais todos os meses a custa do abate animal em grande escala, e, na maioria das vezes, diferentemente do abate religioso das tradições afro brasileiras, possuem praticas cruéis e violentas, não levantando nenhuma preocupação e revolta na maioria da sociedade, que acaba se beneficiando destas práticas economicamente através de postos de trabalho e como consumidores ativos.

Mais uma vez, o desconhecimento e o preconceito falam mais alto em alguns temas…

Neste breve resumo deste vasto universo das tradições afro-brasileiras, procuramos refletir a importância de abrir a mente e o coração para repensar velhos conceitos e aprender outras formas de cultuar o Sagrado. A intolerância religiosa mata, fere, agride e separa, enquanto o respeito à pluralidade e o direito de crer ou não crer, liberta, aproxima e valoriza.

Lembramos que toda generalização é cega. Em todas as religiões há bons e maus adeptos que não representam o todo, por isso, devemos conhecer para aprender a distinguir, não misturando falhas pessoais com tradições tão ricas, garantindo sempre o direito do outro e da outra de existir em um país Laico, plural e diverso como o nosso.

Às̩e̩!