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Pastor-político: mutações no âmbito político-religioso

Pastor-político: mutações no âmbito político-religioso

Segundo dados do TSE, em 2018, antes mesmo das eleições, ao menos 313 em um universo de 521 casos de candidatos utilizaram o título religioso de pastor / pastora na última candidatura aos cargos legislativos estaduais (Gelape & Putini, 2018). Pastores-políticos estão, portanto, entre os principais títulos utilizados entre os religiosos. Após o resultado das eleições de 2018, o cenário entre os pastores (as) políticos ficou com a seguinte configuração: 350 pastores/as se candidataram, 16 foram eleitos. O partido que mais elegeu candidatos pastores/as foi o Partido Republicano Brasileiro (PRB), reconhecido por figuras como José Alencar, vice-presidente nos dois governos do presidente Lula e por acolher um maior número de pastores e bispos da Igreja Universal. Se comparado as eleições para o legislativo em 2014 houve um aumento, uma vez que naquele ano foram 288 candidatos pastores/as, conquanto tenha havido um número maior de eleitos, 19. O partido que mais elegeu pastores foi também o PRB, com 7 pastores eleitos.

A modernidade religiosa (Hervieu-Léger, 1997; 2008; Willaime, 1986; 2005) trouxe à tona figuras bem versáteis, como as do “peregrino” e do “convertido”. Estas fazem parte de um universo de comunidades regidas pelo individualismo religioso, vigorando o “crer sem pertencer” e a “bricolagem de fé”. No entanto, diante da efervescência política dos últimos anos e novas modulações da relação entre religião e política, destaca-se a figura do pastor-político. Não parece algo novo, mas é uma expressão que tem se renovado e aparecido fortemente no Brasil. Um pastor-político parece uma redundância se levarmos em conta que todo pastor ou líder religioso é político. Mas não é no sentido aristotélico que estamos tratando. Sim, da relação entre o serviço religioso e político concomitantemente como forma recíproca de legitimação. No campo religioso evangélico, durante bastante tempo, principalmente pelo histórico de defesa da separação entre igreja e estado, o pastor é aquele que deve cuidar das “almas” e da “salvação” dos fiéis. Não deve se meter em assuntos “mundanos”, ainda mais na política, por ser esta uma função do estado. Além disso, o grupo considerava ser sua meta principal fazer prosélitos sem com isso se envolverem com questões políticas (Campos, 2002).

Outro aspecto que deve ser considerado é que esse tipo ideal difere, por exemplo, do “político evangélico” (Campos, 2002, p.2), que “usava simplesmente as denominações evangélicas para produzir votos que os elegessem e depois procuravam defende-las na fronteira política”. Todavia, o pastor-político se aproxima do “político de Cristo”, que segundo Campos (2002, p.2) “se constitui um novo ator político-religioso, pois empresta a sua personalidade para ser usada como um instrumento da confissão religiosa que o escolheu candidato e fez dele o seu defensor na fronteira política”. Essa aproximação é superada somente na medida em que se vê na figura do “pastor-político” uma extensão do pastorado e produção de uma modernidade religiosa à brasileira, marcada por um deslocamento de fronteiras e desprivatização do religioso. Além disso, o pastor-político não é exclusivamente neopentecostal, como analisou Campos (2002), mas pertence a outras denominações e as ressignifica, podendo na medida do possível manter ainda que superficialmente a separação entre as fronteiras para que não seja deslegitimado. Contudo, devo créditos ao trabalho de Leonildo Campos (2002) e Paul Freston (1993; 1999) que aborda de maneira mais específica a figura do “político evangélico”.

Com a queda do comunismo, a re-islamização, os debates sobre o secularismo, a falta de ar da teologia da libertação na América Latina, a consciência do estreito entrelaçamento de religião e política está se tornando cada vez mais aguçada.  Para Patrick Michel (1997), sociólogo da religião e diretor de pesquisa do CNRS, mudanças acontecem nesses campos em diferentes contextos como Magrebe, Índia, América Latina,  Rússia.  Em um mundo que se tornou incerto, as religiões constantemente vivem nas falhas da política e reivindicam oferecer valores a uma democracia que é incapaz de produzi-las.

A partir da Assembleia Nacional Constituinte de 1986, ou seja, após a redemocratização do país, os evangélicos ingressaram em maior número na política e ganharam visibilidade na política brasileira (Gerardi, 2016). Nessa ocasião, foi implantada no Congresso Nacional a chamada “Bancada Evangélica”, uma bancada pluripartidária, composta de 33 membros, sendo 18 deles do ramo pentecostal. Segundo Pierucci, tal bancada atuou como um bloco corporativo na defesa da “maioria moral” e aliaram-se politicamente à direita (Pierucci, 1996, pp. 175 e ss). Freston sublinha que o grupo evangélico manteve unidade em questões comportamentais (aborto, drogas, divórcio, homossexualismo), elegendo a família, mas também a mídia, como temas de grande interesse, caracterizando-se, ainda, pela ausência de crítica às autoridades e distância de questões sociais como a reforma agrária. Nota-se que a presença evangélica no Congresso Nacional se modificou com o ingresso de representantes de igrejas pentecostais que abandonaram o slogan “crente não se mete em política”, e assumiram o slogan “irmão vota em irmão” (Oro, 2005). Segundo Freston, tal mudança de orientação ocorreu especialmente às vésperas da Constituinte, mobilizando sobretudo a Assembleia de Deus, em razão de notícias, na forma de boato, que corria então nesse meio religioso, segundo as quais a Igreja Católica estaria articulando voltar a ser a religião do Estado e cercear a liberdade religiosa para as demais igrejas e religiões.

O esquema típico da modernidade política que reduz o espaço religioso no interior de uma sociedade secularizada também permite que se veja outras maneiras de correspondência entre religião e política que suscitam reavaliações de uma suposta impermeabilização dessas duas ordens de realidades e atividades humanas. O funcionamento de certas instituições religiosas e determinados grupos políticos é uma dessas correlações.

A figura do pastor-político é mais do que um binômio, é também um atestado das novas modulações entre religião e política. O fato de em cada momento histórico existir uma forma de relação entre religião e política (Burity, 2001) não quer dizer necessariamente que os fenômenos atuais não sejam frutos ou desdobramentos de um processo de secularização marcados, sobretudo pela privatização da religião, neutralidade do Estado e separação entre igreja e Estado.

Essas novas modulações da relação entre religião e política no Brasil, vista até certo tempo com suspeita em alguns círculos religiosos tradicionais pode ser compreendida na fala do pastor Eber Silva, eleito deputado federal em 1998 pelo PDT, candidato em vários outros pleitos sem o mesmo êxito de outrora e pastor até o ano de 2019 da maior igreja evangélica histórica do norte-fluminense. No domingo seguinte ao resultado do primeiro turno das últimas eleições de 2018, do qual veio mais uma vez como candidato, desta vez pelo DEM, disse algo no editorial de sua igreja que representa talvez o sentimento dos muitos pastores-políticos. O pastor Eber Silva não foi eleito, mesmo tendo um número expressivo de 20.103 votos. No editorial, do dia 14 de outubro de 2018, com o título “Abatido, mas não destruído”, o pastor Eber Silva disse: “um único propósito dominou minha mente e meu coração neste tempo; ou seja, transferir o meu púlpito para a casa de Leis do nosso Estado”.

Sobre os detalhes e avanços dessa pesquisa, está em andamento e com vistas à publicação ainda neste ano. Consistem em dados que abrangem as eleições de 1998 a 2018. Teve início no pós-doutoramento em Sociologia Política e no pós-doutoramento em Políticas Sociais (UENF). A pesquisa conta com o apoio do pesquisador Nelson Lellis (PPGSP-UENF) no levantamento para o banco de dados. Alguns questionamentos precisam ser feitos, tais como a razão da diminuição de pastores(as) em partidos de esquerda, do decréscimo de participação de pastores no período do governo Lula e o considerável aumento destas candidaturas após o impeachment de Dilma Rousseff; do PRB como partido que mais elegeu pastores, deixando o PL para trás, que no primeiro governo Lula elegeu 12 pastores; dos estados que mais tiveram pastores candidatos e eleitos; como explicar o crescimento de mais da metade do número de candidatos do governo FHC para o governo Lula. Até mesmo o questionamento sobre a presença de pastoras e o apoio das igrejas a esse tipo de candidatura. Entretanto, o questionamento que mais tem interessado é sobre a motivação desses pastores(as) em se enveredarem no caminho da política. O gráfico abaixo justifica partes dessas perguntas.

 leia também

REPOSITÓRIO DE DADOS ELEITORAIS – TSE.

Referências

CAMPOS, Leonildo Silveira. Os “políticos de Cristo”. Uma análise do comportamento político de protestantes históricos e pentecostais no Brasil, Trabalho apresentado no GT Religião e Sociedade, no XXVI Encontro Nacional da ANPOCS, Caxambu, MG, 2002.
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MACHADO, Maria das Dores Campos; BURITY, Joanildo. A Ascensão Política dos Pentecostais no Brasil na Avaliação de Líderes Religiosos. DADOS – Revista de Ciências Sociais, Rio de Janeiro, vol. 57, no 3, 2014, pp. 601 a 631.
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REPOSITÓRIO DE DADOS ELEITORAIS. Disponível em: www.tse.jus.br/eleicoes/.
WILLAIME, Jean‑Paul. “Les pasteures et les mutations contemporaines du rôle du clerc”, Clio. Histoire‚ femmes et sociétés [En ligne], 15 | 2002, mis en ligne le 08 février 2005, consulté le 12 décembre 2018. URL : http://journals.openedition.org/clio/60 ; DOI : 10.4000/clio.60
Willaime Jean-Paul, Profession : pasteur. Sociologie de la condition du clerc à la fin du xxe siècle, Genève, Labor et Fides, 1986.


Fontes Eletrônicas

Lucas Gelape e Rafaela Putini. Mais de 500 candidatos usam títulos religiosos no nome de urna. Disponível em: g1.globo.com/politica/eleicoes/2018/
DATA FOLHA. Na hora do voto, 19% dos brasileiros com religião seguem líder da igreja. Disponível em: datafolha.folha.uol.com.br/opiniaopublica/2017/