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Pastor-político: mutações no âmbito político-religioso

Pastor-político: mutações no âmbito político-religioso
16 de setembro de 2020 Leonardo Gonçalves de Alvarenga

O presidente da República, Jair Bolsonaro, assiste ao culto na Igreja Batista Atitude,acompanhado da esposa, Michelle Bolsonaro e o pastor Josué Valandro. Foto: Fernando Frazão | Agência Brasil

Segundo dados do TSE, em 2018, ao menos 313 em um universo de 521 casos de candidatos utilizaram o título religioso de pastor / pastora na última candidatura aos cargos legislativos estaduais (Gelape & Putini, 2018). Pastores-políticos estão, portanto, entre os principais títulos utilizados entre os religiosos. Após o resultado das eleições de 2018, o cenário entre os pastores (as) políticos ficou com a seguinte configuração: 217 pastores/as se candidataram, 7 foram eleitos e 8 pedidos foram indeferidos. O partido que mais elegeu candidatos pastores/as foi o Partido Republicano Brasileiro (PRB), reconhecido por figuras como José Alencar, vice-presidente nos dois governos do presidente Lula e por acolher um maior número de pastores e bispos da Igreja Universal. Se comparado as eleições para Deputado Estadual em 2014 houve um crescimento, uma vez que naquele ano foram 171 candidatos pastores/as, conquanto tenha havido um número maior de eleitos, 11. O partido que mais elegeu pastores foi também o PRB. Outro dado interessante que chama atenção é da pesquisa Datafolha, de 2017. Ela mostra que em época de eleições a maior parcela dos brasileiros adultos (81%) que têm religião não costuma levar em consideração os candidatos apoiados por seus líderes religiosos. Claro, que a pesquisa não leva em conta o universo complexo e fragmentado de um campo em mutação. A representação dos católicos na população brasileira declinou de 83,3%, em 1991, para 73,8%, em 2000, e 64,6%, em 2010, a dos evangélicos, nos mesmos períodos, evoluiu de 9% para 15,6% e 22,2% (IBGE, censo demográfico de 2010). O que precisa ficar claro é que essa tendência ascendente resulta da diversificação e da difusão do pentecostalismo, uma vez que os integrantes desse segmento deixaram para trás os chamados protestantes históricos, nas últimas décadas do século XX, e, segundo os dados do último censo, representam agora 60% dos evangélicos (Machado & Burity, 2014, p. 603, 604). Continuando, a pesquisa Datafolha apontou que 19% declararam que costumam levar em conta os candidatos indicados por seus líderes religiosos – desses, 4% consideram a opinião de seus líderes religiosos somente se o candidato for ligado a sua igreja, e 15%, independentemente do candidato ser ou não ligado à sua igreja. A taxa de entrevistados que leva em conta o apoio de suas lideranças religiosas a candidatos é pouco mais alta entre os evangélicos em geral (26%) – sobretudo, entre os evangélicos Neo-pentecostais (31%). Uma das hipóteses de interpretação desses números é que um conservadorismo ainda paira entre católicos e evangélicos no que diz respeito a uma maior autonomia dos fiéis em relação aos seus líderes e instituições religiosas concomitantemente a um conservadorismo em relação a fronteira entre o que se acredita ser uma separação entre igreja e política.

A modernidade religiosa (Hervieu-Léger, 1997; 2008; Willaime, 1986; 2005) trouxe à tona figuras bem versáteis, como as do “peregrino” e do “convertido”. Estas fazem parte de um universo de comunidades regidas pelo individualismo religioso, vigorando o “crer sem pertencer” e a “bricolagem de fé”. No entanto, diante da efervescência política dos últimos anos e novas modulações da relação entre religião e política, destaca-se a figura do pastor-político. Não parece algo novo, mas é uma expressão que tem se renovado e aparecido fortemente no Brasil. Um pastor-político parece uma redundância se levarmos em conta que todo pastor ou líder religioso é político. Mas não é no sentido aristotélico que estamos tratando. Sim, da relação entre o serviço religioso e político concomitantemente como forma recíproca de legitimação. No meio religioso evangélico, principalmente pelo histórico de defesa da separação entre igreja e estado, o pastor deve cuidar das “almas” e da “salvação” dos fiéis. Não deve se meter em assuntos “mundanos”, ainda mais na política, por ser esta uma função do estado. Além disso, o grupo considerava ser sua meta principal fazer prosélitos sem com isso se envolverem com questões políticas (Campos, 2002).

Outro aspecto que deve ser considerado é que esse tipo ideal difere, por exemplo, do “político evangélico” (Campos, 2002, p.2), que “usava simplesmente as denominações evangélicas para produzir votos que os elegessem e depois procuravam defende-las na fronteira política”. Todavia, o pastor-político se aproxima do “político de Cristo”, que segundo Campos (2002, p.2) “se constitui um novo ator político-religioso, pois empresta a sua personalidade para ser usada como um instrumento da confissão religiosa que o escolheu candidato e fez dele o seu defensor na fronteira política”. Essa aproximação é superada somente na medida em que se vê na figura do “pastor-político” uma extensão do pastorado e produção de uma modernidade religiosa à brasileira, marcada por um deslocamento de fronteiras e desprivatização do religioso. Além disso, o pastor-político não é exclusivamente neopentecostal, como analisou Campos (2002), mas pertence a outras denominações e as ressignifica, podendo na medida do possível manter ainda que superficialmente a separação entre as fronteiras para que não seja deslegitimado. Contudo, devo créditos ao trabalho de Leonildo Campos (2002) e Paul Freston (1993; 1999) que aborda de maneira mais específica a figura do “político evangélico”.

A partir da Assembleia Nacional Constituinte de 1986, ou seja, após a redemocratização do país, os evangélicos ingressaram em maior número na política e ganharam visibilidade na política brasileira (Gerardi, 2016). Nessa ocasião, foi implantada no Congresso Nacional a chamada “Bancada Evangélica”, uma bancada pluripartidária, composta de 33 membros, sendo 18 deles do ramo pentecostal. Segundo Pierucci, tal bancada atuou como um bloco corporativo na defesa da “maioria moral” e aliaram-se politicamente à direita (Pierucci, 1996, pp. 175 e ss). Freston sublinha que o grupo evangélico manteve unidade em questões comportamentais (aborto, drogas, divórcio, homossexualismo), elegendo a família, mas também a mídia, como temas de grande interesse, caracterizando-se, ainda, pela ausência de crítica às autoridades e distância de questões sociais como a reforma agrária. Nota-se que a presença evangélica no Congresso Nacional se modificou com o ingresso de representantes de igrejas pentecostais que abandonaram o slogan “crente não se mete em política”, e assumiram o slogan “irmão vota em irmão” (Oro, 2005). Segundo Freston, tal mudança de orientação ocorreu especialmente às vésperas da Constituinte, mobilizando sobretudo a Assembleia de Deus, em razão de notícias, na forma de boato, que corria então nesse meio religioso, segundo as quais a Igreja Católica estaria articulando voltar a ser a religião do Estado e cercear a liberdade religiosa para as demais igrejas e religiões.

O esquema típico da modernidade política que reduz o espaço religioso no interior de uma sociedade secularizada também permite que se veja outras maneiras de correspondência entre religião e política que suscitam reavaliações de uma suposta impermeabilização dessas duas ordens de realidades e atividades humanas. O funcionamento de certas instituições religiosas e determinados grupos políticos é uma dessas correlações.

A figura do pastor-político é mais do que um binômio, é também um atestado das novas modulações entre religião e política. O fato de em cada momento histórico existir uma forma de relação entre religião e política (Burity, 2001) não quer dizer necessariamente que os fenômenos atuais não sejam frutos ou desdobramentos de um processo de secularização marcados, sobretudo pela privatização da religião, neutralidade do Estado e separação entre igreja e Estado.

Essas novas modulações da relação entre religião e política no Brasil, vista até certo tempo com suspeita em alguns círculos religiosos tradicionais pode ser compreendida na fala do pastor Eber Silva, eleito deputado federal em 1998 pelo PDT, candidato em vários outros pleitos sem o mesmo êxito de outrora e pastor até o ano de 2019 da maior igreja evangélica histórica do norte-fluminense. No domingo seguinte ao resultado do primeiro turno das últimas eleições de 2018, do qual veio mais uma vez como candidato, desta vez pelo DEM, disse algo no editorial de sua igreja que representa talvez o sentimento dos muitos pastores-políticos. O pastor Eber Silva não foi eleito, mesmo tendo um número expressivo de 20.103 votos. No editorial, do dia 14 de outubro de 2018, com o título “Abatido, mas não destruído”, o pastor Eber Silva disse: “um único propósito dominou minha mente e meu coração neste tempo; ou seja, transferir o meu púlpito para a casa de Leis do nosso Estado”.

Sobre os detalhes e avanços dessa pesquisa, está em andamento e com vistas à publicação. Consistem em dados que abrangem as eleições de 1998 a 2018. Teve início no pós-doutoramento em Sociologia Política e no pós-doutoramento em Políticas Sociais (UENF). A pesquisa conta com o apoio do pesquisador Nelson Lellis (PPGSP-UENF) no levantamento para o banco de dados.


REFERÊNCIAS
CAMPOS, Leonildo Silveira. Os “políticos de Cristo”. Uma análise do comportamento político de protestantes históricos e pentecostais no Brasil, Trabalho apresentado no GT Religião e Sociedade, no XXVI Encontro Nacional da ANPOCS, Caxambu, MG, 2002.
CHAMPION, F. et COHEN M. Recompositions, décompositions. Le Renouveau charismatique et la nébuleuse mystique-ésotérique depuis les années soixante-dix, Le Débat, 1993, nº 75, p.81-89.
BOAS, Taylos C. Pastor Paulo vs. Doctor Carlos: Professional Titles as Voting Heuristics in Brazil. Journal of Politics in Latin America 2/2014: 39–72
BURITY, Joanildo. Religião e política na fronteira: desinstitucionalização e deslocamento numa relação historicamente polêmica. In: Rever, 4, 2001. Disponível em http://pucsp.br/ rever/4/t_burity.htm. Acesso em junho de 2010.
FRESTON, Paul. Protestantes e política no Brasil: da Constituinte ao Impeachment, Tese de Doutoramento, Universidade de Campinas, 1993.
FRESTON, Paul.  “Protestantismo e democracia no Brasil”, Lusotopie, 1999.
GERARDI, Dirceu André. Parlamentares evangélicos no Brasil: perfil de candidatos e eleitos a deputado federal (1998-2014). The Observatory of Social and Political Elites of Brazil. v. 3 ▪ n. 14 ▪ novembro, 2016
HERVIEU-LÉGER, Danièle. O peregrino e o convertido: a religião em movimento. – Petrópolis, RJ: Vozes, 2008.
HERVIEU-LÉGER, Danièle. “Croire em modernité: au-delà de la problématique des champs religieux et politique”, in Patrick Michel (ed.), Religion et démocratie, Paris, Albin Michel, pp. 361-381, 1997.
MACHADO, Maria das Dores Campos; BURITY, Joanildo. A Ascensão Política dos Pentecostais no Brasil na Avaliação de Líderes Religiosos. DADOS – Revista de Ciências Sociais, Rio de Janeiro, vol. 57, no 3, 2014, pp. 601 a 631.
ORO, Ari Pedro. “Religião e política no Brasil”, Cahiers des Amériques latines [En ligne], 48-49 | 2005, mis en ligne le 15 août 2017, consulté le 03 janvier 2019. URL : http://journals.openedition.org/cal/7951 ; DOI : 10.4000/cal.7951
PIERUCCI, Antonio Flavio, «Representantes de Deus em Brasília: a bancada evangélica na Constituinte», in Pierucci Antonio Flavio e Prandi Reginaldo, A realidade social das religiões no Brasil, São Paulo, Hucitec, 1996a.
PIERUCCI, Antonio Flavio. “Representantes de Deus em Brasília: a bancada evangélica na Constituinte”, in Pierucci Antonio Flavio e Prandi Reginaldo, A realidade social das religiões no Brasil, São Paulo, Hucitec, 1996b.
REPOSITÓRIO DE DADOS ELEITORAIS. Disponível em: www.tse.jus.br/eleicoes/estatisticas/.
WILLAIME, Jean-Paul. “Les pasteures et les mutations contemporaines du rôle du clerc”, Clio. Histoire‚ femmes et sociétés [En ligne], 15 | 2002, mis en ligne le 08 février 2005, consulté le 12 décembre 2018. URL : http://journals.openedition.org/clio/60 ; DOI : 10.4000/clio.60
Willaime Jean-Paul, Profession : pasteur. Sociologie de la condition du clerc à la fin du xxe siècle, Genève, Labor et Fides, 1986.

FONTES ELETRÔNICAS
Lucas Gelape e Rafaela Putini. Mais de 500 candidatos usam títulos religiosos no nome de urna. Disponível em: g1.globo.com/politica/eleicoes/2018/
DATA FOLHA. Na hora do voto, 19% dos brasileiros com religião seguem líder da igreja. Disponível em: datafolha.folha.uol.com.br/opiniaopublica/2017/

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