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A longa espada de dois gumes

A longa espada de dois gumes
16 de setembro de 2020 Osvaldo Luiz Ribeiro

¿Que Dios vela por los pobres?
Talvez sí, y talvez no.
Pero es seguro que almuerza
En la mesa del patrón
(Preguntitas sobre Dios,
Atahualpa Yupanqui)

Amós era um “petralha”. A despeito de a tradição e a história da recepção tê-lo transformado em profeta, ele mesmo negava-se o título, dizendo-se mero plantador e criador, sem que possamos decidir se era – digamos – do MST ou da UDR. Tecnicamente, constitui um dos “profetas críticos” do Antigo Testamento cristão. A desgraça que cai sobre a vida dos pobres ele a reputa não à fatalidade natural ou divina nem à culpa eventual do povo, mas à política. O rei produzia o sofrimento do povo, quando o forçava a produzir mais do que ele podia e a ceder mais do que tinha.

A despeito de não aceitar o título de profeta, Amós reconhecia um chamado divino. Quando se pôs a caminho até Betel, para denunciar a perversidade do rei, julgava ter ouvido e estar atendendo a um chamado do deus da justiça. Difícil discernir o que aí é religião, o que aí é política. Também o rei, a seu turno, agia em nome da divindade, sempre um tanto esquizofrênica nessa história. Posto no trono pelo deus nacional, é o que todo rei diz, sua missão divinamente estabelecida era promover a justiça. Sim, a justiça não é uma invenção dos profetas, mas dos reis. Os profetas articulam o discurso da justiça porque ele é operado pelo rei. Trata-se da questão fundamental da demagogia, nos termos da qual justifica-se a monarquia. Por isso o discurso da coroa é um discurso fundamentado em noções de justiça, porque esse é o momento demagógico, no transcurso do qual o rei tanto se legitima quanto se empodera. Agora, se o rei vai efetivamente promover a justiça, essa já é outra questão. De qualquer forma, na crítica profética aos desmandos da corte, os críticos se servem do discurso demagógico real contra o próprio detentor do cetro. Profetas e reis, frente a frente,apresentam-nos o curioso cenário da luta dos deuses, sendo que, nesse específico caso, o mesmo deus se apresenta de ambos os lados…

De que lado está o deus da justiça? De Amós? Do rei? Do status quo? Da subversão? Da ordem? Da revolução? Os sacerdotes e os profetas oficiais do rei garantiam à corte e ao povo que o rei era o ungido do deus, por meio de quem a divindade governava e operava. Opor-se ao rei era opor-se ao deus nacional. Do outro lado, um homem apenas, e sua convicção de que falava em nome do mesmo deus. De que lado estava o deus?

Falemos de Eliseu, agora. Eliseu era um homem sagrado, um mágico, por assim dizer, devendo ser classificado no grupo dos profetas carismáticos, e não dos profetas críticos. A prática de seu ofício era o atendimento de varejo, enquanto Amós opera no atacado. Eliseu experimenta compaixão pelos mesmos enfraquecidos que comoviam Amós, mas não está engajado, nesse sentido, em superar a causa do fenômeno. Sua prática se destina ao atendimento mágico-religioso de pessoas e famílias, como na famosa alegoria das estrelas do mar, que nos conta que um ativista devolvia às águas, encontrando-as a morrer na areia: a estrela do mar que ele devolvia ao mar, essa se salvaria. Ele não pergunta por que estão na praia, nem quantas. Ele apenas pega uma a uma as que pode salvar, e salva. É o que os textos dizem que Eliseu fazia…

Naturalmente que os serviços mágico-religiosos que Eliseu e seus colegas de ofício prestavam à população se faziam chancelar, na crença geral e nas declarações dos próprios, pela divindade. Diferentemente de um vocacionado, como Amós, que a divindade deve convocar ad hoc, o mago dispõe das forças divinas, que aprendeu a manejar. Ele é um profissional da religião mágica. São distintas as modalidades religiosas, conquanto a divindade esteja na legitimação de todas elas. No caso monoteísta, curiosamente, sempre a mesma…

Se a leitura que Amós faz da desgraça do povo pobre estiver correta, então alguém poderia perguntar se a atividade de homens sagrados como Eliseu resolvem alguma coisa, já que para cada viúva alimentada e cada criança ressuscitada, a corte produz outro tanto. Como resposta, se poderia considerar que enquanto a fonte das injustiças não cessa de jorrar, alguém deve ao menos aplicar unguentos circunstanciais ao atingidos. Seria essa uma boa resposta, mas não, certamente, a única…

Eliseu não é apenas um curandeiro popular. A depender da tradição, é também um comissionador de regicidas. Eliseu haverá de ungir certa personagem e dar a ela a missão de assassinar a família real inteira. Empilhar-se-iam as caveiras. Enquanto o “petralha” e ativista Amós é enxotado pelo alto funcionário do rei, o “macumbeiro” Eliseu promove a chacina de toda a família real. E seja observado: o homem sagrado unge um agente para que esse assassine toda a família do ungido do deus. De novo, a esquizofrenia… Não surpreende que a mística considere misteriosos os caminhos divinos…

É curiosa a relação dos reis com esse tipo de profissional da religião. Contaram-nos que o assim considerado primeiro rei de Israel teria consultado um dos representantes da categoria, a rigor, uma mulher sagrada, que em consulta, lhe teria feito ver supostamente o defunto Samuel. O mundo da magia parece atrair o poder. No Brasil, nos tempos da “redemocratização”, Brasília frequentava os terreiros da Bahia. Os orixás perderam seus dias de glória, e os corpos hoje se fecham não em cerimônias de Candomblé ou de Umbanda, mas em poderosos cultos evangélicos. A grife de Jesus invade o Planalto. No Rio de Janeiro, evangélicos e traficantes dominam os morros, e Exu e Ogum não estão mais na moda…

Há um padrão aí, que pode ser observado mesmo em grande angular. O rei Saul consulta a mulher sagrada. Eliseu ordena o assassinato de toda uma família real. Bonhoeffer engaja-se em uma tentativa de assassinar Hitler. Rosana e Collor consultam uma Ialorixá. Bolsonaro cerca-se de crentes em Jesus. A Teologia da Libertação vai bem, obrigado.

Voltemos aos tempos idos. O reino de Israel e o de Judá são destruídos. O de Judá é reconstruído, mas os reis desaparecem. Os reis voltarão no período grego. Judá encontra-se ocupada pela Grécia, e a família dos Macabeus sente-se ungida para a missão de expulsar os usurpadores. Naturalmente que a divindade toma o partido dos reis-sacerdotes e abençoa-os em certa medida. Não são os dias de Eliseu, em que os inimigos são todos e totalmente destruídos, mas pesa a favor da divindade que agora ela luta contra uma potência internacional, e não contra a casa real de um simples reino secundário no concerto das nações.

Judá vai à guerra contra a Grécia. A guerra é santa. Naturalmente que dos dois lados, mas estamos aqui a acompanhar as relações de uma particular divindade, e ela se encontra do lado judaíta. A batalha se dava na forma de uma grande liturgia de sangue. Temos os testemunhos tradicionais dos livros de Macabeus, que outra batalha decidiu comporem apenas o cânon de Roma, mas não o de Wittenberg. Nas mãos, a espada, nas bocas, as orações e os cânticos novos. Jihad, como quer Salmos 149,9: “executar neles a sentença prescrita é uma honra para os santos”! Cabeças rolaram. Mas as espadas no máximo substituíram gregos por romanos.

Aliás, os romanos são um capítulo muito sério, quando o tema são as relações políticas entre religião e poder. Os messias de hoje podem namorar o fascismo e odiar a revolução, mas permanece a dúvida plausível se o messias da época romana desposara o status quo ou a subversão. Nos costumes, ao que parece, estava com os beberrões e comilões, com prostitutas e hemorroíssas, para horror dos puritanos. Mas permanece uma longa discussão sobre se também na política o messias estava contra os poderosos – tanto de Roma contra de sua própria terra, porque sempre há os traidores, como até hoje – ou se com os descamisados de sua própria pátria.

Para muitos, aquele messias teria sido um dentre muitos revolucionários judeus de seu tempo. A depender de quem conta a história, tanto podem ser profetas, quanto bandidos, quanto messias. Até hoje, nos ensinam, eram três cruzes: um messias entre dois bandidos. Aos olhos de Roma, todavia, todos bandidos. Seja como for, aquele messias teria ao seu lado pelo menos um zelote e um sicário. Estes eram a fina flor do “terror”. Os romanos julgavam que seria necessário executar pelo menos uns trinta mil… A tradição nos conta que, perguntado, aquele messias teria dito que a Roma deve caber o que é de Roma, e ao deus dos judeus, o que cabe ao deus judeu. À direita, olhos interpretam que estamos diante da separação das órbitas: política, para Roma, e religião, para a divindade. Mas à esquerda, olhos preferem ler que se trate de uma acusação: Jerusalém não é de Roma! “Tu és o rei dos judeus?”, perguntaram-lhe. Mataram aquele messias. Apostaria nos olhos sinistros.

São também questões políticas, como todas, que farão com que cristãos, desde cedo, começassem a dizer que os judeus, não Roma, mataram o messias. Malhamos Judas até hoje… Uma série de transformações – traições? – se sucederam tão logo aquele messias tenha morrido, Roma tenha se decidido a dar fim a Jerusalém e os cristãos tenham aprendido a fazer contas. O reino pelo qual seu messias morreu não é Jerusalém, mas é um reino que não é deste mundo. A mensagem do messias passa a ser teológico-religiosa, e não político-religiosa, conquanto, a rigor, razões políticas tenham feito com que fosse assim. Os romanos são isentados da culpa pela execução do messias, que cai, até hoje, nas costas dos judeus. Seria o caso de alguém estar a dar voltas no túmulo, não fora o detalhe de sua ressurreição…

A escola política foi bem aprendida. Os cristãos se tornarão senhores do reino romano. Depois, farão acordos de conversão com os bárbaros, cuja geografia responde até hoje pela divisão católicos versus protestantes da Europa. Quando a Reforma ocorrer, um novo Pilatos lavará as mãos diante da execução de cem mil camponeses que acharam que era para levar até o fim a mensagem do Evangelho. O criador criou uns para mandar e outros para obedecer. Como na igreja, também, é claro. Nem falaremos das cruzadas…

Não falamos das mulheres, dos negros, dos povos “originários” das “novas” terras conquistadas. A divindade esteve o tempo inteiro na justificativa do papel que se dizia caber a cada uma dessas identidades, e quando ela se converteu ao capitalismo, mandou derrubar as senzalas e erigir favelas, porque novos tempos impõe novas relações sociais… A questão dos povos “originários” vai-se cozinhando em banho Maria, a ferro, fogo, boi, bala… e Bíblia. Os mais cordatos, que se convertem à fé, se dissolvem culturalmente. Os demais, a sete palmos.

No caso das mulheres, foi necessária certa dose – provisória? – de apostasia social. Inventou-se de separar Estado e Igreja, e, de repente, a secular batalha entre, de um lado, o deus dos cristãos e os homens, e, de outro, as mulheres, converteu-se em uma batalha de homens contra mulheres, à qual o primeiro só podia assistir, sem tomar partido formal, ainda que, todos sabemos, parece correto avaliar que permanece o tempo todo do lado da testosterona. Todavia, no mano a mano instalado, elas arrancaram deles direitos que nunca tiveram, desde votar e ter propriedades, até controlarem sua fertilidade e, quase totalmente, mas não ainda totalmente, seus corpos e funcionalidades.

Em plena efervescência da segunda metade do século XX, a Teologia lembrou-se dos pobres, tentou uma operação de cooptação do divino e protagonizar uma virada ético-política da tradição. Há alguma controvérsia se foram os demônios ou o Espírito a descer do Norte, mas o fato é que o status quo, mais uma vez, se sustentou e Yupanqui permanece com a palavra… “Dios” não quer mais apenas a mesa do patrão: ele quer a própria faixa presidencial.

Estamos todos enfiados na tradição, e provavelmente temos a tendência a lê-la a partir de nossa situação nessa longa história de esquizofrenia divina. Seria o caso de quem sabe um dia entrevistarmos uma criatura inteligente de outro mundo, para lhe perguntar a respeito de suas impressões sobre o papel da religião no planeta. Talvez ouviremos deles que a espada de dois gumes que corta à direita, e ora sente frêmitos de cortar pela esquerda, a rigor, até hoje, está sobre a mesa dos coronéis. E isso no varejo e no atacado. Nas grandes e nas pequenas políticas. E sempre debaixo dos vigilantes olhos divinos…

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