A sacralidade da natureza e a sacralização do espaço no candomblé

A sacralidade da natureza e a sacralização do espaço no candomblé
Daniela Calvo e Marcelo dos Santos Monteiro 15 de maio de 2020

O candomblé é uma das religiões que se desenvolveram no Brasil a partir da reterritorialização de homens, práticas, saberes e divindades, conseguinte ao tráfico escravo entre os séculos XVI e XIX. Na variabilidade entre os diferentes terreiros e linhagens, podemos encontrar regularidades: o culto à ancestralidade, a incorporação ritual de ancestrais divinizados[1], o procedimento iniciático, o sistema oracular, o sacrifício animal, a transmissão oral do conhecimento e a organização social em espaços ditos terreiros.

No candomblé, o conceito de sagrado vem a coincidir com aquele de aṣẹ (axé), a força que constitui a base da vida, em seus diferentes prismas e formas, uma vida de “fluxos” em contínuo movimento. Na cosmovisão do candomblé, toda a natureza possui caráter sagrado por ser formada a partir de um processo de subdivisão de aṣẹ. Por outro lado, o àṣẹ pode ser concentrado por intermédio de rezas, cantigas, rituais e materiais em lugares que se tornam centros de transmissão e irradiação do sagrado e onde se intensifica a continuidade entre o mundo físico (aiyé) e o mundo espiritual (òrun).

 A sacralidade da natureza

 Segundo a cosmogonia yorùbá, Ọlórun[2] criou o o aiyé, o mundo físico, por meio de um processo de desdobramentos e subdivisões sucessivas de àṣẹ, a começar pelos quatro oṣa (os quatro elementos básicos do universo): água, terra, fogo e ar. Portanto, cada ser participa da essência divina do deus supremo.

A água representa a força da mulher, a origem da vida, na forma de chuva e rios que nutrem a terra, e do líquido amniótico, que constitui o primeiro alimento do ser humano. A terra, oṣa feminino, fornece os minerais e os frutos para a alimentação. O fogo, oṣa masculino, representa o poder da transformação, da regeneração e da luz. O ar, oṣa masculino, representa a essência da vida, o sopro de Ọlórun – que anima os seres e mantém a vida.

O candomblé prevê uma complexa classificação dos seres da natureza, segundo diferentes linhas, tais como: a divisão entre os quatro elementos básicos da natureza (água, ar, terra e fogo); o compartilhamento entre os diferentes òrìṣà e a partir de sua força vital, expressa em diferentes características: tamanho, forma, cor, cheiro, textura, habitat, forma de vida, comportamentos, relações com outros seres naturais, reação ao tato e acontecimentos míticos.

Portanto, os seres da natureza podem ser definidos com o conceito de “coisa” proposto por Ingold (2012): “ ‘coisa’, porosa e fluida, perpassada por fluxos vitais, integrada aos ciclos e dinâmicas da vida e do meio ambiente” (INGOLD, 2012, p. 25).

Por exemplo, Oṣíbàtà[3], planta aquática com folhas flutuantes, manifesta sua força vital na relação com seu habitat natural, pois nunca afunda na água, resistindo às diferentes condições climáticas.  Podemos pensar Oṣíbàtà-na-água, assim como Ingold sugere de pensar a “árvore-no-ar” (INGOLD, 2012, p. 29), portanto, “não um objeto, mas um certo agregado de fios vitais” (INGOLD, 2012, p. 29).

De acordo com Ingold (2012), as coisas estão vivas porque “vazam”, porque participam das circulações de materiais. No candomblé, a força vital dos elementos da natureza pode ser transmitida a objetos, lugares e pessoas após ser “despertada”, “acordada” por meio da palavra.

Além de seu caráter sagrado, a natureza é de grande importância no candomblé como transmissora de vida através da alimentação e como lugar onde são realizados diferentes rituais, como na cachoeira, em que se abre o processo iniciático. Por esses motivos, para as pessoas do candomblé é fundamental respeitar e preservar a natureza.

Créditos: Marvin Kennedy

A sacralização do espaço

 O terreiro é centro de irradiação do àṣẹ e ponto de partida de uma série de caminhos percorridos por pessoas, animais, materiais, objetos, conhecimentos, valores, ideias, sentimentos, ações, “forças”. Outros espaços se tornam temporariamente sagrados: o rio onde se realiza o ritual que abre a iniciação, os lugares onde são depositadas as oferendas, e outros locais escolhidos para procissões, festas e rituais.

A afirmação de Rosendahl (2002, p.39): “é possível reconhecer o sagrado não como aspecto da paisagem, mas como elemento da produção do espaço” é particularmente apta a descrever o terreiro de candomblé, onde uma geometria e uma geografia sagrada são construídas a partir de pontos de singularidades (principalmente o àṣẹ no barracão e os assentamentos), em que a intensidade da relação entre òrun e aiyé é reforçada e se estabelece a comunicação com os òrìṣà e os antepassados.

Ali é fixado (e continuamente renovado, pois, está sujeito ao desgaste) o àṣẹ por meio de atos rituais, do ófò (encantação) e de elementos que provêm dos três reinos da natureza (animal, vegetal e mineral). O terreiro, portanto, representa um “centro” na definição de Rosendahl (2002, p. 31): um “lugar onde acontecem as hierofanias, isto é, onde se verifica a possibilidade de ruptura entre céu e terra”.

No Brasil, o culto aos diferentes òrìṣà reuniu-se no mesmo templo, o terreiro (ilé, àṣẹ, casa, roça), que Bastide (2001) define como um microcosmo, uma África em miniatura, na medida em que, na África Ocidental, o culto aos diferentes òrìṣà encontra-se localizado em cidades ou templos distintos.

A estrutura tradicional do terreiro inclui quartos que hospedam os assentamentos dos òrìṣà  e dos egúngún (antepassados); o barracão, no qual se realizam as festas para os òrìṣà; um igbó, ou espaço mato, onde crescem as árvores e as plantas empregadas para o culto; o ohunko (onde são realizadas as iniciações e as obrigações); o sabaji, ou camarinha (em que os filhos de santo trocam de roupa, vestem os òrìṣà incorporados durante as festas e guardam adereços e vestimentas); a cozinha, na qual se preparam os alimentos para os òrìṣà, e a cozinha para a comida comum. Em alguns casos, há quartos onde moram o pai/mãe de santo e/ou alguns filhos de santo.

Os assentamentos representam pontos de concentração da força vital, lugares de conexão e comunicação com os òrìṣà (ou com os antepassados), e com seus reinos de origem na África. O barracão é a sala onde se realizam as festas, em que os òrìṣà se fazem presentes entre os humanos através da incorporação, entrando em comunicação direta com a comunidade e transmitindo-lhe um pouco de sua essência divina. No barracão há um centro sagrado onde é fixado o àṣẹ do òrìṣà do fundador do terreiro (em alguns casos, do òrìṣà dono daquela terra), e que constitui o centro de irradiação de todo o terreiro. No ohunko realiza-se a iniciação; apresenta-se como um quarto fechado, escuro, sem janelas, a representar o ventre materno, no qual acontece a gestação do neófito que está por nascer, a fase liminar deste rito de passagem. A cozinha é vital dentro do candomblé, sendo o lugar onde são preparados os alimentos para os òrìṣà e os seres humanos. É um espaço feminino, em que se manifesta o poder de transformação (que faz parte da natureza feminina e se expressa na gestação da criança) dos alimentos para os òrìṣà e se reúne e transmuda a comunidade, oferecendo a comida no sentido ritualístico e tradicional.

Conclusões

Neste trabalho buscou-se entender como o espaço sagrado é concebido, construído, vivenciado e mantido vivo no candomblé a partir da concepção da natureza e da análise do terreiro.

À geografia sagrada do terreiro corresponde também uma geografia social, marcada por pontos ocupados nas diferentes ocasiões, linhas traçadas ao longo das relações e dos percursos, volumes que delimitam espaços e contatos possíveis, procurados ou evitados. As relações humanas e entre humanos e ancestrais se estabelecem num envolvimento forte com o espaço.

O terreiro de candomblé é o principal espaço de reterritorialização da memória dos afro-descendentes. Ali são transmitidos e mantidos, vivos, valores; conhecimentos; práticas e formas de viver. Através do rito, é estabelecida uma conexão com o passado e a África-mãe, invocando os ancestrais a comerem e dançarem juntos aos humanos e, através do mito, são lembradas antigas gestas e transmitidos ensinamentos sagrados e uma forma peculiar de estar no mundo.


Notas
[1]Òrìṣà (orixá) na nação ketu, vodun na jeje e na efon, inquice na angola.
[2] Senhor do òrun, o deus supremo, chamado também Olódùmarè (Senhor da criação).
[3] Nymphaea lotus, conhecida com o nome popular de vitória regia.
Referências 
BASTIDE, R. Le candombé de Bahia (Rite Nagô). Paris: Terre Humaine, Plon, 2001.
INGOLD, T. 2012. Trazendo as coisas de volta à vida: emaranhados criativos num mundo de materiais. Horizontes Antropológicos, ano 18, n.37, 2012, pp. 25-44.
ROSENDAHL, Z. Espaço e religião: uma abordagem geográfica. Rio de Janeiro: Ed. UERJ, 2002.
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