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O que você tem é casta maligna – Da demonização à identidade trans. O que a religião tem a ver com isso?

O que você tem é casta maligna – Da demonização à identidade trans. O que a religião tem a ver com isso?

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O que você tem é casta maligna e só sai com jejum e oração. Essa foi a sentença que ouvi de um pastor evangélico após confidenciar minha predileção afetiva por mulheres. À época, com cerca de 20 anos, após me mudar para uma região afastada da Costa Verde do Rio de Janeiro, decidi ingressar em uma igreja evangélica.

Sapatão, atormentada pela culpa cristã, cheguei a orar com a namorada e pedir perdão a Deus antes de transarmos. Numa outra ocasião, após me ‘batizar nas águas’, entreguei ao púlpito religioso a bengala do preto-velho de meu pai, que ficava atrás da porta.

O carrego colonial1Termo cunhado pelo pedagogo Luiz Rufino, no livro Pedagogia das Encruzilhadas., o epistemicídio2Apresentado pela filósofa Sueli Carneiro, refere-se ao aniquilamento e esquecimento das sabedorias tradicionais. e a demonização das entidades e saberes de matriz afro-brasileira já me fizeram crer que eu deveria retirar toda e qualquer imagem e artefato religioso de casa. Assim, me desfiz até de pedras e cristais que havia recebido de herança familiar, por julgar tratar-se de misticismo.

Periférica, nascida e criada na Umbanda, numa comunidade pluriversa da Zona Norte carioca, na qual a polissemia dos discursos religiosos ganhavam vulto todos os dias, me formei no terreiro, nas missas de domingo da Igreja de São Jorge, nos cultos evangélicos e diante do oratório de Dora, vizinha budista que me ensinou a recitar o mantra nam myoro rengue kyo, cuja pronúncia nunca esqueci.

Desde cedo os ritos me fascinam, mas sempre foi pela macumba que o coração batia mais forte, no compasso dos tambores, ao brado dos caboclos e diante do cachimbo da vovó. Assim, após a fala homofóbica do pastor, entreguei meu uniforme de obreira que havia ficado pronto naquela semana e selaria meu compromisso com a igreja e nunca mais voltei àquele ambiente religioso.

Em conversas informais não é difícil encontrar discursos patologizantes e de ódio como estes. No Brasil, um dos países que mais mata homossexuais, travestis e pessoas trans, de acordo com pesquisa3Levantamento realizado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), secretarias de Atenção Primária em Saúde e de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS) e pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Os pesquisadores coletaram as notificações feitas pelo Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), que faz parte do SUS, e que, portanto, inclui diversos casos de violência que não foram denunciados. baseada em dados do Sistema Único de Saúde (SUS), a cada hora, uma pessoa LGBTQIA+ é agredida no país. A pesquisa inédita mostra ainda que pessoas negras são alvo de metade dos registros de violência. Em contrapartida, somos a nação que mais consome pornografia com pessoas trans4Pesquisa realizada pelo site RedTube, em 2016.. A fetichização que fantasia os corpos trans é a mesma que os impele à repulsa.

Em Moral civilizada e doença sexual moderna (1908), Freud propõe uma relação direta entre a repressão da pulsão sexual, os sintomas neuróticos e o adoecimento psíquico. Para o pai da psicanálise, as exigências culturais impostas à satisfação das pulsões sexuais, com seus interditos e proibições, cria uma tensão constante entre a meta de satisfação sexual e a permissão dada pelos valores civilizatórios de determinadas comunidades.

Assim, o discurso religioso, por exemplo, endossa a pulsão de morte, projetando no corpo do outro o objeto odioso ou perigoso a ser eliminado do convívio coletivo.

Diante da atual necropolítica, desencantamento e aniquilação da diferença, alardeada pelo Governo Federal, não é de se estranhar que discursos homofóbicos e transfóbicos dos representantes governamentais não só legitimam a política de morte, como influenciam diretamente na violência e crimes de ódio sofridos diariamente por essa população. Depressão, ansiedade e um risco maior de suicídio também estão entre as principais questões relacionadas à saúde mental.

Atualmente, vemos o retrocesso em políticas públicas e diversos projetos de lei que visam a negar direitos à população LGBTQIA+, a exemplo da recente tentativa de definir gênero a partir de critérios biológicos e do PL 504, que em seu texto fundamentalista cita ‘influência inadequada’ e ‘práticas danosas’, tentando barrar a representatividade de famílias homoafetivas em peças de publicidade.

Sexualidade e identidade de gênero é outra questão que merece atenção. Também foi pela casa dos 20 anos que assumi para a família meu primeiro relacionamento com uma mulher. O que escutei de meu pai em seguida foi: ‘não vai andar que nem homem, né?’ E se eu fosse? Gostar de mulher me faria homem? E se eu andasse como homem só poderia gostar de mulher? Engoli as perguntas e respostas que eu gostaria de ter dado e não disse que era com o gênero masculino que eu me identificava na maior parte do tempo, desde cedo.

Sabemos que pessoas transgêneras experimentam sua presença no mundo através das relações de identificação (ou não) com imagens culturalmente construídas do masculino e feminino e tencionam ideias naturalizadas do que significa ser homem ou mulher. Não se trata, portanto, de uma questão que envolve experiência sexual e até mesmo a escolha pelo processo de hormonização do corpo. É um caminho complexo e cheio de dúvidas defender uma identidade trans.

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Sempre me foi comum ser recebida por mães de santo trans nas giras. Embora muito presente nos terreiros, ancorados nas bases do binarismo, a representatividade trans ainda é discutível nestes espaços. Marcadores socioculturais como vestimentas, cargos e funções ainda são referenciados pelo sexo biológico.

Inúmeras vezes ouvi que não poderia tocar atabaque, dispensar o uso de saias e até mesmo abraçar minha namorada no terreiro. A transmissão equivocada de uma tradição deixa de lado não só os desafios do tempo presente, mas o fato de que são incontáveis os mitos e itans de orixás cujo gênero é fluido ou não identificado, como Otin, por exemplo.

No mito, o corpo de um rapaz aprisionava uma moça. Oxóssi fez com que Otin olhasse para si sem se envergonhar do que realmente era, despindo-o de seus trajes e suas armas.

Orixá liberta, aceita e ama sem condições. Que avancemos cada vez mais em debates, com a coragem e oportunidade de nos despirmos do preconceito, da vergonha, do ódio e da exclusão, com a liberdade de ser tudo o que desejamos ser.  Acolhimento, escuta e respeito, é disso que precisamos, independentemente de ambiente religioso.

 


Notas

  • 1
    Termo cunhado pelo pedagogo Luiz Rufino, no livro Pedagogia das Encruzilhadas.
  • 2
    Apresentado pela filósofa Sueli Carneiro, refere-se ao aniquilamento e esquecimento das sabedorias tradicionais.
  • 3
    Levantamento realizado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), secretarias de Atenção Primária em Saúde e de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS) e pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Os pesquisadores coletaram as notificações feitas pelo Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), que faz parte do SUS, e que, portanto, inclui diversos casos de violência que não foram denunciados.
  • 4
    Pesquisa realizada pelo site RedTube, em 2016.