O uso do espaço sagrado para a formação continuada de professores na secretaria municipal de educação de Curitiba

O uso do espaço sagrado para a formação continuada de professores na secretaria municipal de educação de Curitiba
Taciane Jaluska 15 de maio de 2020

A partir da introdução do componente curricular Ensino Religioso no Ensino Fundamental, tendo como conteúdo a leitura do fenômeno religioso manifestado na sociedade surgiu o interesse, de professores desta disciplina, de explorar os espaços religiosos nos diferentes municípios brasileiros.

Esta pesquisa parte de uma análise do trabalho realizado pela equipe pedagógica da Secretaria Municipal de Educação nos Espaços Sagrados como complemento da disciplina de Ensino Religioso, enfatizando o segmento do turismo educacional como instrumento e estratégia para a construção do conhecimento no Ensino Religioso do Brasil.  Esta é uma pesquisa qualitativa de caráter fenomenológico exploratória, a partir do método de estudo de caso descritivo e tem por objetivo principal compreender a importância do fenômeno do turismo educacional no ensino religioso mediante estudo do meio em espaços sagrados.

TURISMO EDUCACIONAL

As viagens de cunho educacional começaram a ser desenvolvidas no final do século XVII por meio da propagação do Grand Tour entre as famílias mais abastadas da Europa. Os “grand tourists”, assim chamados os praticantes da atividade, eram estudantes, principalmente ingleses, que haviam concluído seus estudos formais e necessitavam de uma longa viagem para a fixação do aprendizado e de um maior enriquecimento cultural. Assim, saíam de seus países acompanhados por um tutor e viajavam por diversos países da Europa e, em alguns casos, da África também, adquirindo conhecimentos de arte, dança, música, literatura, ciências e política.

Com o declínio da aristocracia e a ascensão da burguesia, a motivação de viagem passa a ser o privilégio da descoberta. Das viagens de Marco Pólo até as grandes navegações, a curiosidade insaciável do homem fez com que o medo da viagem se tornasse superável em busca das descobertas que o mundo novo traria à tona. Assim, as explorações além-mar, que no início eram muito perigosas, permitiram que a tecnologia se desenvolvesse ao ponto de tornar os transportes continentais tão seguros que permitissem a todos viajar e entrar em contato com outras culturas.

João Pécurto

No final do século XIX, um pedagogo francês chamado Célestin Freinet, notando o desinteresse dos seus alunos nas aulas dentro de sala, resolveu mudar seu método de ensino e levá-los a lugares abertos, próximos a natureza, para verificar qual seria a resposta dos alunos à mudança no aprendizado, surgindo assim, o conceito de aula-passeio. Com sua atitude, Freinet desconstrói o método de ensino tradicional centrado na figura do professor como transmissor de conhecimentos e no ensino enciclopédico como único meio de aprendizado. Assim, propõem uma educação mais ativa e participativa, onde o aluno e seu meio ambiente tornam-se protagonistas na ação educativa e o professor torna-se mediador deste aprendizado.

A visão tradicional de que o professor deveria ser apenas responsável por transmitir conhecimentos didáticos perdeu a força perante os novos desafios de um mundo globalizado, que exige a formação de um sujeito dinâmico consciente do que acontece ao seu redor e no mundo. De acordo com Camargo (2004, p. 87) “agora este professor deve ir além de ‘despejar a carga’ de conteúdos tradicionais, deve mostrar a conexão entre eles. O professor deve abrir o mundo diante dos olhos de seus alunos, com a agilidade própria desta nova juventude”. O relacionamento, entre escola e comunidade, pode ser intensificado, segundo os Parâmetros Curriculares Nacionais (BRASIL, 1998, p.23) “quando há integração dos diversos espaços educacionais que existem na sociedade, tendo como objetivo criar ambientes culturais diversificados que contribuam para o conhecimento e para a aprendizagem do convívio social.”

Portanto, o turismo educacional busca a promoção do entendimento, conscientização e valorização da identidade local partindo de propostas amplas e diversificadas. Além disso, estimula o desenvolvimento do relacionamento interpessoal, tendo como principais características, desenvolver no indivíduo não só os aspectos cognitivos, mas também emocionais, afetivos, sociais e culturais. Assim, é importante desenvolver estratégias para o turismo educacional, pois torna-se o fio condutor desta união.

CONTEXTO DA ATIVIDADE

Os professores que ministram as aulas do Ensino Religioso na Rede Municipal de Educação de Curitiba organizam sua ação docente a partir dos seguintes documentos: Diretrizes Curriculares para a Educação Municipal de Curitiba; Caderno Pedagógico de Critérios de Avaliação da Aprendizagem Escolar; e Caderno Pedagógico de Ensino Religioso. Para aprofundar o conhecimento desses profissionais, a Secretaria Municipal da Educação disponibiliza, em parceria com a equipe pedagógica da Associação Inter-Religiosa de Educação (ASSINTEC), cursos de formação continuada voltados aos conteúdos do Ensino Religioso.

Todo ano são oferecidos cursos de introdução ao Ensino Religioso, cursos de aprofundamento e encontros que requerem reflexão sobre arte e espiritualidade, bem como encontros para planejamento. Esses cursos proporcionam encontro entre professores e representantes religiosos das diversas tradições estudadas. Desse modo, favorece o conhecimento efetivo sobre religiões, tirando, ao mesmo tempo, dúvidas e facilitando a superação de preconceitos advindos de informações incorretas sobre determinadas religiões.

Assim, foi desenvolvido o curso “Formação em Ação – Visita Técnica em Lugares Sagrados”, por meio de palestras ministradas pelos responsáveis seguido por visitas monitoradas dentro dos próprios espaços sagrados. A primeira etapa do curso foi realizada no Centro de Capacitação da SME/Curitiba e no auditório do Edifício Delta, com as seguintes palestras: Hinduísmo e suas ramificações; Indígena; Islamismo; Judaísmo; Religiões de Matriz Africana. Na segunda etapa do curso, foram realizadas visitas nos seguintes Espaços Sagrados: Sociedade Internacional da Consciência Krshna (Hare Krishna); Sociedade beneficente Muçulmana do Paraná (Mesquita); Terreiro de Umbanda e Candomblé ILÊ ASÈ IBÁ OMI OSÚN; Centro de Estudos Budistas Paramita (Budismo Tibetano); Igreja Messiânica Mundial do Brasil. Os principais conteúdos abordados foram: o que são Espaços Sagrados, a origem e função dos Espaços Sagrados, a simbologia da arquitetura religiosa e os lugares de peregrinação.

Hernandes (2012) destaca a importância do estudo sobre espaços sagrados pelo significado e simbolismos que ele representa para determinada cultura ou tradição religiosa, tornando-se espaços em que as pessoas encontram-se consigo mesmo, com seu próximo e com o Transcendente. Além disso, o estudo é importante, pois os Espaços Sagrados elucidam as práticas ritualísticas e são carregados de conhecimentos elementares que permeiam outros conteúdos da área de Ensino Religioso, como espiritualidades, os símbolos religiosos e os textos sagrados. Portanto, a grande relevância desse curso é de fornecer subsídios para o professor e este poder disseminá-lo em sala de aula, fazendo uma aproximação dos estudantes com a comunidade promovendo um Ensino Religioso com base na pluralidade e no respeito.

Assim, mais que oferecer apenas informações de cunho religioso, em uma visita tendo como objeto de estudo o espaço sagrado é possível oferecer uma gama de possibilidades multidisciplinares para a formação continuada do professor, pois o espaço sagrado reúne uma estrutura complexa de crenças, de imagens, de símbolos e significações religiosas e, por meio destas, é possível compreender várias formas de tradições culturais, linguísticas, historiográficas, iconográficas e musicais. A visita transforma-se em um instrumento para a complementação pedagógica em diferentes disciplinas, uma vez que o participante tem a possibilidade de estabelecer relações entre a organização espacial e a construção do espaço geográfico, a história e as políticas de conservação do patrimônio material e imaterial, as artes, a cultura religiosa e o lazer.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Verifica-se que, depois de um longo período de invisibilidade, o turismo educacional torna-se o centro das discussões pelo seu importante papel em aproximar a escola da comunidade e a escola passa a repensar seus métodos educativos visando um ensino mais crítico e próximo da realidade do aluno. Assim, os professores devem pensar em diversos temas que podem ser abordados em aulas-passeio, quais locais onde o aluno possa assimilar melhor os conteúdos trabalhados e, a relação destes espaços com os assuntos que serão trabalhados em sala de aula.

A importância desse curso está na informação fornecida as professores dos benefícios pedagógicos que o turismo educacional pode proporcionar aos alunos, motivando-os a promover um Ensino Religioso com base na pluralidade e no respeito. Dessa maneira, o professor obtém uma mudança significativa no modo de educar, saindo de sua própria zona de conforto, transformando-se em elemento facilitador da construção do conhecimento e não apenas um mero transmissor de informações ao passo que os alunos deixam a inércia da sala de aula e passam a problematizar mediante o cenário novo apresentado.

A atividade de estudos do meio em Espaços Sagrados ainda é pequena, encontra-se em processo de reconhecimento e está calcada nos preceitos da ‘educação libertadora’, base para a formação integral do ser humano. É bem possível, que, nos próximos anos, as discussões sobre esta atividade aumentem e torne-se possível discutir a criação de novas políticas educacionais, que ressaltem a importância de englobar o tema já mesmo na formação docente. Afinal, somente uma instituição que transmita, por meio da teoria e da prática, toda a diversidade cultural e as mais diversas concepções de mundo, pode ser considerada uma instituição autônoma, uma vez que autonomia não significa isolamento, mas sim abertura, possibilidade do estabelecimento de um diálogo intercultural, sendo o turismo pedagógico, um instrumento para o acesso às informações in loco, utilizando-se dos mais variados locais de educação não formal disponíveis na sociedade.


Referências
BRASIL – SECRETARIA DE EDUCAÇÃO FUNDAMENTAL. Parâmetros curriculares nacionais : terceiro e quarto ciclos do ensino fundamental: introdução aos parâmetros curriculares nacionais / Secretaria de Educação Fundamental. – Brasília : MEC/SEF, 1998.
CAMARGO, Patrícia de. Turismo na escola. In: TURISMO CONTEMPORÂNEO: ensaios. Rio de Janeiro: Papel Virtual, 2004.
HERNANDES, Elisabeth Cristina Carassai. Espaços sagrados: Formação continuada dos professores da rede estadual do Paraná e municipal de ensino de Curitiba.  Caderno Est. Pes. Tur. Curitiba, v.1, p. 144-155, jan./dez. 2012.
JALUSKA, Taciane. Projeto Espaço Sagrado: uma proposta de turismo educacional e uma estratégia para conhecer e educar.  Dissertação de Mestrado. Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Programa de Pós Graduação em Teologia. Curitiba, 2013.
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