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Sopa de letrinhas e aquarela de cores – Quem tem orgulho do quê e um Deus queer pra chamar de seu

Sopa de letrinhas e aquarela de cores – Quem tem orgulho do quê e um Deus queer pra chamar de seu

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A celebração do Dia ou do Mês do Orgulho LGBTQIA+ (não julguem, ainda, o uso da sigla) traz à tona uma série de discussões no campo da diversidade sexual e de gênero. Acabo de me deparar, por exemplo, com uma sigla que se pretende exaustiva para designar expressões da diversidade sexual e de gênero – seguida de uma ampla discussão sobre suas qualidades e, principalmente, seus problemas.

As críticas são muitas (e pertinentes): a fonte é europeia e apresenta categorias identitárias ou comportamentais relacionadas àquele contexto (no qual seguramente há, também, conflitos e divergências). Uma lista a partir de termos mais nativos e pertencentes ao contexto brasileiro poderia incluir categorias que nós mesmas usamos para nos identificar ou (mais ou menos) consensuadas em determinados grupos e movimentos sociais.

A outra crítica se refere, por um lado, a um fechamento e redução das experiências a categorias estanques e limitadoras e, por outro, a impractibilidade do uso de tais siglas, seja pela sua extensão (o número de letras e sinais gráficos) ou pela constante variação. Como na sopa, as letras vão se revezando em aparecer/desaparecer e tendem a não respeitar uma determinada ordem ou quantidade. É certo que no campo político há (ou pressupõe-se que haja) uma maior intencionalidade quanto a essas questões (quais, quantas e como aparecem as letras) do que na imprevisibilidade de uma sopa aleatória e sem uma lógica organizativa. Será?

Outro símbolo que tenho visto circular com mais frequência é uma nova versão da bandeira do orgulho LGBT+ (perdoem o uso dessa versão da sigla, mas por uma questão de zelo citacional ou para fugir momentaneamente do debate sobre a melhor sigla utilizo a versão apresentada na fonte referenciada).

Nessa nova versão, além do acréscimo de cores que representam outras experiências no campo da diversidade sexual e de gênero, acrescenta-se, também, uma perspectiva interseccional. Incorpora-se cores relacionadas à bandeira das pessoas trans e, também, questões de raça e etnia entram nessa nova representação da diversidade que nos constitui.

Aliás, uma das questões discutidas em relação à sigla expandida apresentada acima, para além da questão do colonialismo e do imperialismo do Norte sobre o Sul, é justamente a falta de intersecção com diversos outros marcadores sociais que tanto determinam uma variedade de experiências que cada pessoa identificada com uma determinada letra ou termo pode experimentar, quanto interferem na forma como os sujeitos se auto nomeiam ou são nomeados. Basta pensar na distinção, por exemplo, entre “gay” e “viado”, que carrega em si questões de classe social, raça e etnia, performance de gênero, entre outras que podem surgir num simples exercício de imaginação sobre quais as características atribuídas às pessoas identificadas com esses termos. A lista de marcadores, no entanto, é extensa e complexa como são as experiências humanas: geração, habilidades/deficiências, origem, filiação religiosa, para mencionar algumas.

A expressão “sopa de letrinhas” é bastante popular para falar tanto da realidade das múltiplas siglas inventadas, convencionadas e usadas para referir-se à diversidade sexual e de gênero, quanto da suposta confusão causada por sua instabilidade e flutuação. Seja no campo político ou no campo acadêmico travam-se batalhas intermináveis sobre a versão mais adequada ou a efetiva validade de seu uso. Como outres colegues (o uso do que se chama comumente de “gênero neutro” ou “não-binário” é um outro campo explosivo dessa discussão), não vejo os conflitos, batalhas e discussões necessariamente como um problema. Acredito que elas revelam a pertinência da continuidade do diálogo e evidenciam a vitalidade desse campo de atuação política e pesquisa acadêmica.

Em sua dissertação de Mestrado defendida em junho de 2002, Regina Fachini usou a expressão “Sopa de letrinhas”, sucedida por um ponto de interrogação, no título do trabalho que versava sobre “Movimento homossexual e produção de identidades coletivas nos anos 90: um estudo a partir da cidade de São Paulo” (publicado como livro e, 2005), e assim justificava a escolha do título:

“O uso das diversas siglas […] e a necessidade, por parte do movimento, de pensá-las em relação a outras siglas (sejam elas vindas de iniciativas mercadológicas, como o GLS, ‘gays, lésbicas e simpatizantes’ – ou de políticas de saúde, como o HSH, ‘homens que fazem sexo com homens’) inspiram o título dessa dissertação. A proliferação de siglas e a segmentação de categorias com a finalidade de nomear o sujeito político do movimento foram, no ano de 1999, alvos de tratamento irônico na mídia, que acusava entidades que, então, passagem a utilizar a sigla GLBT de criarem uma ‘sopa de letrinhas” (p. 9).

Como a autora analisa ao longo do seu trabalho a partir da pesquisa realizada com o grupo CORSA (SP), há uma série de fatores que interferem na construção e nas reivindicações de determinadas categorias identitárias e na construção de uma identidade coletiva.

Em um texto mais recente (FACHINI, 2018), a autora identifica três processos vivenciados no Movimento LGBT no Brasil (novamente, utilizo a sigla empregada no título da publicação): Ato I. Centramento: da disputa entre ser ou estar homossexual à orientação sexual (p. 316-318); Ato II. Cidadanização e descentramento: do combate à homofobia ao combate à LGBTfobia – “mainstreaming” (p. 319-322); Ato III. Multiplicação de campos: o combate à LGBTfobia e a ênfase na experiência – “sidestreaming” (p. 316-318). Como em toda categorização ou delimitação de períodos históricos, eles não são necessariamente sucessivos, mas convivem em diferentes configurações em diferentes contextos. A ideia de “sopa de letrinhas” poderia, por exemplo, ser identificada na transição do Ato II para o Ato II, mas permanece viva na atualidade, como se vê a partir da discussão apresentada no início desse texto.

O termo “queer”, usado no movimento político e na discussão teórica sobre diversidade sexual e de gênero a partir da década de 1980 nos Estados Unidos da América, para muitas pessoas emergiu como um desses termos que poderia ser empregado para falar de uma identidade coletiva e foi (ainda é) defendido como termo guarda-chuva para todas as pessoas que não se enquadram nos padrões de sexo, gênero e sexualidade de um sistema cisheterosexista (ou dissidentes sexuais). Considerando que é um termo em inglês, aí somente iniciam os problemas com o uso desse termo no Brasil, embora ele tenha assumido um certo espaço, especialmente nos meios acadêmicos (veja algumas reflexões sobre o termo queer em Musskopf, 2019).

De modo geral, nos conflitos em torno das siglas para falar de diversidade sexual e de gênero afirma-se uma contradição entre as propostas e usos no meio acadêmico e na prática política. Judith Butler (2009), uma das estudiosas e fundadores desse campo de estudos e geralmente invocada nesse debate tenta resolver a questão da seguinte forma:

“Há várias vias de acesso à política, várias histórias que nos levam para a rua, vários tipos de racionalização e de crença. Não temos que nos basear num único modelo de razão, em uma única noção de sujeito prévia à prática. […] Uma coalizão internacional de ativistas e pensadoras feministas [e queer ou LGBTQIA+] que resista a situar-se dentro de categorias distintivas que negam a complexidade atual das vidas em questão – terá que aceitar o leque de crenças epistemológicas e políticas muitas vezes incomensuráveis e as formas e tipo de práxis que nos levam ao ativismo.” (p. 76-77)

Para ela, uma das tarefas atuais é repensar a própria noção de humano quando falamos em direitos humanos:

“A lei de direitos humanos tem todavia que pensar o significado cabal do humano. Poderíamos dizer que a tarefa pendente dos direitos humanos consiste em voltar a conceber o humano, quando se descobre que sua suposta universalidade carece de alcance universal” (p. 122)

Não pretendo, aqui, dar uma resposta ao dilema da “sopa de letrinhas” e da “aquarela de cores” (se é que se trata de dilemas). Se não por outro razão, as leitoras e os leitores desse artigo que tiverem chegado até aqui terão entendido que não se trata de um tema fácil e, para quem não está muito familiarizado ou familiarizada com essas questões, terá aprendido um tanto sobre esse universo e, talvez, possa entender um pouco melhor como e porque ainda tomamos as ruas (ou as redes sociais) para celebrar o orgulho. Seja qual for a letra ou a sigla com a qual nos identificamos, circulamos, de alguma forma, nessas fronteiras e linhas tênues entre existir e não existir – às vezes, literalmente – e afirmar sentir orgulho (outro tema polêmico) de quem somos e como vivemos é uma expressão de luta e resistência.

E aqui é onde entra, pra mim, o fator Deus. Em uma mensagem recentemente gravada para o canal Teologia sin verguenza, refletindo sobre porque eu acredito que Deus é queer, eu fiz referência à passagem bíblica (Gênesis 1.26) que afirma que o ser humano foi criado à imagem e semelhança de Deus. Na minha reflexão, se somos criados e criadas à imagem e semelhança de Deus, todas as nossas experiências de gênero e sexualidade devem caber em nossa concepção sobre Deus. Assim, se houver uma cor imaginável ou uma letra que reflita uma forma de alguém ou algum grupo se identificar eu estou, em princípio, disposto a reconhecer a validade de inclui-la em seja qual for o símbolo que escolhermos para falar de nós. Nessa aquarela de cores e nessa sopa de letrinhas vamos colorindo nossa luta e alimentando nossa fome de justiça para todas as pessoas. E Deus está no meio de nós, sambando na cara do preconceito.

 leia também


Referências

ARZUFFI, Ana Sierra. Todo sobre la nueva bandera LGBT+ y su significado. 3 jun. 2021.

BUTLER, Judith. Vida precária – El poder del duelo y la violencia. Buenos Aires, Paidós, 2009.

FACCHINI, Regina. Múltiplas identidades, diferentes enquadramentos e visibilidades: um olhar para os 40 anos do movimento LGBT. In: GREEN, James et. al. História do Movimento LGBT no Brasil. São Paulo: Alameda 2018.

FACHINI, Regina. “Sopa de letrinhas?” Movimento homossexual e produção de identidades coletivas nos anos 90: um estudo a partir da cidade de São Paulo. Dissertação de Mestrado. Unicamp, 2002.

FACHINI, Regina. “Sopa de letrinhas?” Movimento homossexual e produção de identidades. Garamound, 2005.

MUSSKOPF, André S. Tan queer como sea posible. Concilium, v. 383, nov. 2019, p. 11-20.

Teologia sin verguenza