Corpo encantado: um olhar sobre a presença da encantaria fora do terreiro.

Corpo encantado: um olhar sobre a presença da encantaria fora do terreiro.
Dayanne da Silva Santos 9 de maio de 2020

O corpo em campo

Peço licença para falar. Antes de ser intelectual, sou mulher negra praticante do Tambor de Mina.

José Aureliano Lopes

José Aureliano Lopes

O texto que aqui se segue, foi parte da minha dissertação defendida em fevereiro de 2019 na Universidade Federal do Maranhão (UFMA). O que trago aqui é minha tentativa de pensar a encantaria por meio também das experiências e escolhas da/o pesquisadora/o, ou seja, como problematizar por meio das experiências adquiridas em campo e vivenciadas no cotidiano do tear, do rabiscar do questionar a forma na qual se está produzindo conhecimento nas universidades e na forma como eu venho escrevendo e entendendo, junto como o Grupo de Estudos: Desenvolvimento, Modernidade e Meio Ambiente (GEDMMA/UFMA) o campo dos conflitos ambientais e das religiões de matriz africana – religiões afro-brasileiras no Estado do Maranhão.

A minha primeira experiência com a Mina se deu ainda na minha infância no processo de produção da minha identidade, que está em transito contínuo, por meio do medo, o medo das religiões africanas. Este medo é algo que esteve presente comigo desde a infância, principalmente durante a noite, quando eu e minha irmã para dormir precisávamos das rezas da minha avó materna e do sono leve e vigilante da nossa mãe, Marilene Lopes da Silva, é importante escrever/falar o nome das nossas pretas na luta antiracista.

Venho de uma família de pescadores, de católicos e de devotos de São José de Ribamar. Eu cresci e apreendi que somente o catolicismo e o protestantismo carregavam o lado bom da religião. Cresci ouvindo que existia Deus, Jesus e o Demônio e tudo que não era Deus, Jesus ou santos do catolicismo eram do mal (religiões de matriz africana). Como romper com essa visão que foi tão forte e problemática na minha infância, família e escola? Não culpo minha família por isso, nem minha escola por selecionarem o que eu podia ver como “verdade”, pois agora entendo que esse tipo de educação faz parte de um sistema educacional racista, machista, patriarcal, segregacionista, homofóbico e colonialista que alimenta o racismo.

Nesse sentido, o que está em jogo é repensar novas ontologias que digam quem o sujeito é e não o que ele deveria ser, para que possamos ampliar as reivindicações sobre os direitos sociais e políticos. Assim, segundo Butler (2003, p. 57), “o que está em debate são as condições que tornam a vida possível de ser vivida, sustentável”.

Assim, apesar de ser católica, sempre fui envolvida por histórias e visões que me eram estranhas, relatos que eu não sabia explicar, mas que aconteciam na minha família, como por exemplo a de que quando minha mãe disse que sempre tinha alguém que puxava o lençol dela e de seus irmãos à noite quando eram menores e estavam dormindo.

A minha segunda experiência ocorreu no ano de 2015, quando eu estava em Santa Rosa dos Pretos (território quilombola/MA) na Tenda de Mãe Severina, Nossa Senhora dos Navegantes, filmando a festa/aniversário de seu Pedro Légua (encantado). Cheia de medo, e eu nem imaginava em escrever sobre Tambor de Mina, quase nada sabia sobre encantaria, mas, eu estava lá e madruguei. Essa entrada no campo de pesquisa foi bem reveladora o que me fez relatar uma segunda experiência, falando com encantado.

Não sei bem como comecei a me envolver com o Tambor de Mina enquanto religião de matriz africana, uns dizem que desde criança porque nasci quase morta com duas voltas do cordão umbilical no pescoço, mas sei que o quilombo mexe comigo e tem me ensinado muito tenho apreendido sob tudo ouvindo mulheres negras e seus encantadas/os. Essa festa de mina me marcou muito e desde esse dia eu venho acompanhando várias festas/obrigações de entidades diferentes e nessas festas (trânsitos) tanto as pessoas como os encantados me orientam sobre as coisas referentes a Mina (Tambor de Mina) e a vida.

O medo que eu tinha das religiões de matriz africanas foi sendo descolonizado, no momento em que eu pisei firme e com respeito na Tenda de mãe Severina, e a partir do momento em que eu passei a conversar com os encantados fora das festas e da Tenda. Eles agora já me visitavam na minha casa para conversar, tomar um café me aconselhar, pois encantada/o também é madrinha/padrinho, ou seja, se tem respeito elas/es cuidam de ti diariamente.

A minha terceira experiência, nesse observar as coisas, pessoas e encantados da Mina me fez entender que a encantaria é cotidiana, não é só em momentos de festas que ela se apresenta, é na vida.

Em campo eu negligenciava as falas das/os minhas/meus colegas, pois esse não eram filhos da Tenda. Eu estava tão interessada em conversar com a mãe de Santo (Dona Severina) e com suas filhas de santo, principalmente dona Dalva e Maria Luiza (conhecida como Pixita) que acabei por negligenciar outras formas de conhecimentos, ou seja, de entender o Tambor de Mina não só como forma de ser (filho ou filha de santo), mas pelas múltiplas experiências associadas a essa religião de matriz africana que nos permitem formas variadas de entender e questionar a sociedade atual, sua estrutura, por meio de uma perspectiva orientada por eles, nossos guias de luz/encantados.

O conhecimento que estava gritando para mim: “me ouve!” Vinha das experiências dos meus amigos e amigas que de alguma forma estavam envolvidos com o Tambor de Mina, não da mesma forma que um filha/o de santo, mas estavam.

Como costumo ouvi no quilombo, o Tambor de Mina é um mistério, “a Mina é tudo” e ela se apresenta de forma variada para cada pessoa, bem como a mediunidade. As formas de envolvimento estão relacionadas com o sentir/ouvir ou ver os atos/ações de sujeitos e entidades[1] criadores dessa religião, é o que chamo inicialmente de fazer parte sem ser iniciado.

A encantaria (mundo dos encantados) se apresentou para mim de diversas formas e eu demorei muito para entender que a Mina, segundo as pessoas e encantados com os quais dialoguei durante esses anos de pesquisa, é tudo. É tudo no sentido de fazer parte do cotidiano da vida das pessoas (principalmente das mineiras/os), todas as trocas, contatos, conversas, acordos, obrigações entre pessoas e pessoas; pessoas e entidades; entidades e entidades. Segundo Dona Dalva, mulher negra quilombola, “se você cozinha, limpa, cuida, toca um tambor, da uma vela…se você ajuda, ta fazendo parte”.

Uma das questões que me aparecem dentre outras é que a Mina é um dom, porque não é algo que você pede para ter, você nasce com ele. Mais recentemente uma amiga começou seu processo de iniciação, fazer a cabeça no Santo, com uma obrigação para um Orixá.  Ela resolveu se iniciar porque em contextos e lugares diferentes, pessoas mandaram recado ou falaram para ela se cuidar porque eles, “as entidades”, queriam levá-la. Ela se iniciou com certo receio e medo, mas, ao mesmo tempo, com o desejo de se “cuidar” para não encantar em qualquer lugar ou até mesmo pelo medo da morte. Vários foram os sentimentos que a influenciaram, várias foram as experiências umas boas e outras ruins. Agora ela parece estar bem e ela me disse: “eu só sentia, agora eu estou começando a ver (os encantados)”.

O Tambor de Mina também existe por causa da união e do compartilhamento de múltiplas experiências que quando se encontram ajudam nesse processo de construção de uma visão de mundo que orienta as ações e escolhas cotidianas das pessoas. Assim,

A religião relaciona-se com o modo de pensar e agir das pessoas, com o seu modo de conhecer e compreender o mundo e de se comportar diante de outras pessoas. Dada a relação entre religião e valores sociais, a análise do comportamento religioso pode fornecer elementos para melhor compreensão daqueles valores vigentes entre a população que adota uma determinada religião, servindo para identificar até que ponto esses valores refletem ou se opõem aos da classe dominante (FERRETTI, 2009, p.10)

Nesse sentido, o corpo encantado é essa explosão de acontecimentos em nós, que faz eclodir uma escrita que grita justiça social e Bem viver. Segundo José Carlos Gomes dos Anjos em uma conversa de orientação, ele pontuou que:

“para o estabelecimento de um devir outro nós como pesquisadores também somos atravessados por esses projetos de violência que cai sobre esses povos e assim uma série de outros devires nos atravessam na escrita e somos deslocados pela força de pensamento do fazer cotidiano dos nossos interlocutores. É principalmente vendo como eles estão fazendo que conseguimos escrever algo” (anotações do caderno de campo de 10 de maio de 2019).

Notas

[1]Nos referimos aqui a espíritos, caboclos, orixás, voduns e encantados que fazem parte do Tambor de Mina.

Referencias

BUTLER, Judith. Quadros de Guerra: quando a vida é passível de luto? Trad. Sérgio Tadeu de Niemeyer Lamarão; Arnaldo Marques da Cunha. Rio de Janeiro. Civilização brasileira, 2015.

DOS ANJOS, José Carlos Gomes. No território da linha cruzada: a cosmopolítica afro-brasileira. Porto Alegre: Editora da UFRGS/Fundação Cultural Palmares, 2006.

FERRETTI, Sérgio. Querebentã de Zomadônu. São Luís: EDUFMA, 2009. (3ºed).

SANTOS, Dayanne da Silva. NÃO SE PODE ENTRAR EM TERRA DE ENCANTADO SEM PERMISSÃO: um estudo sobre a relação entre pessoas e encantados na luta pelo território quilombola Santa Rosa dos Pretos (Itapecuru-Mirim/MA). São Luís/MA, UFMA, 2019 Dissertação do Programa de Pós-Graduação de Ciências Sociais da UFMA.

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