Diálogos inter-religiosos e ecumênicos pela cidadania religiosa LGBTI+

Diálogos inter-religiosos e ecumênicos pela cidadania religiosa LGBTI+
Jeferson Batista 19 de março de 2020

“A nossa comunhão poderá um dia afetar a comunhão maior”, com essas palavras um ativista católico gay defende, em um evento religioso, a necessidade de forjar alianças entre diferentes movimentos, coletivos e igrejas que encabeçam a luta pela cidadania religiosa LGBTI+ e pela ampliação de espaços seguros de fé para essa população.

Portanto, “nossa comunhão” são os movimentos religiosos contra-hegemônicos pautados no respeito pela diversidade sexual e de gênero e a “comunhão maior”, por sua vez, são as igrejas hegemônicas, muitas vezes, doutrinal e socialmente opositoras aos direitos das pessoas que expressam sexualidades e identidades de gêneros não normativas.

1º Congresso Igrejas e Comunidade LGBTI+

Em expansão, o ativismo religioso LGBTI+ é diverso e nos últimos anos tem promovido eventos que materializam diálogos inter-religiosos e ecumênicos entre clérigos e leigos.

O 1º Congresso Igrejas e Comunidade LGBTI+, realizado em São Paulo em junho de 2019; a mesa-redonda Fé e Resistência: religião e ativismo social na perspectiva dos direitos humanos, realizada em novembro de 2019 em Belo Horizonte, durante o I Encontro Regional Sudeste da Rede Nacional de Grupos Católicos LGBT; o simpósio Teologia Inclusiva: um debate inter-religioso sobre espaços LGBTI nas comunidades de fé, promovido pelo grupo Diversidade Cristã em Brasília; e o culto anual em honra à Nossa Senhora Aparecida, realizado pela Igreja das Cidades Metropolitana de São Paulo e pelo católico Grupo de Ação Pastoral da Diversidade, são alguns exemplos dos eventos que estão desenhando o mapa do diálogo inter-religioso e do ecumenismo pela diversidade sexual e de gênero.

Em tais eventos, fica evidente que o diálogo multirreligioso é uma estratégia político-pastoral pela cidadania religiosa das minorias sexuais e de gênero. Mas não só. A oração comunitária LGBTI+ expressa o desejo de estabelecer relação com o Sagrado.

Apresento, ainda que breve e provisoriamente, três características do emergente diálogo inter-religioso/ecumênico pela diversidade sexual e de gênero:

Incidência pública: promoção de eventos em diferentes espaços e ocupação das tribunas jornalísticas e das redes sociais na internet para dar visibilidade aos discursos e práticas que não colocam de lados antagônicos a identidade LGBTI+ e a identidade religiosa. Nesse campo, existe tentativa de dialogar com movimentos sociais e acadêmicos em busca de combater visões que cristalizam as relações entre pessoas não heterossexuais e as religiões cristãs. Como afirmou uma interlocutora durante entrevista, é preciso apostar em um “campo ecumênico progressista” para se aproximar de setores progressistas laicos. Ou seja, o ecumenismo poderá ser uma estratégia para “descongelar” a imagem do cristão conservador entre não religiosos.

Interseccionalidade: apropriação do termo muito bem definido pelas feministas negras para dizer que existe uma tentativa dos religiosos LGBTI+ em estabelecer diálogos com outras movimentações religiosas que tratam da questão das mulheres, das pessoas negras e das pessoas pobres nas comunidades de fé, reconhecer também que dentro da comunidade LGBTI+ existem grupos que são mais ou menos aceitos ou tolerados nas igrejas.

Fé e subjetividade: o diálogo inter-religioso e ecumênico não se sustenta apenas pelo pilar da tática política, tem a ver com a fé, com subjetividades. As atividades ecumênicas aqui em discussão são também uma oração, uma prece. Com mostra Marcel Mauss em seu clássico texto A Prece, a oração é um fenômeno coletivo e social, com elementos consagrados pela tradição cristã (referências a textos bíblicos, testemunhos, partilhas) e um fenômeno individual, pois permitiu que cada um pudesse ter um espaço personalizado para rezar e se expressar, contar sobre sua trajetória, sem roteiros.

Acompanhar os atores sociais envolvidos nestas iniciativas religiosas pró-LGBTI+ é um importante movimento social e acadêmico para compreender as constantes transformações religiosas que afetam a sociedade.