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Os véus da Islamofobia

Os véus da Islamofobia

O roteiro é quase sempre o mesmo quando viraliza uma informação jornalística de cunho político sobre conflitos no Oriente Médio: as pessoas disseminam discurso de ódio contra os muçulmanos (islamofobia), na maioria dos casos reproduzindo discursos intolerantes das próprias fontes midiáticas. Recentemente isso ocorreu com o avanço do Talibã no Afeganistão, onde eclodiram nas redes sociais concepções rasas, preconceituosas e distorcidas da realidade religiosa dos islâmicos1O termo “muçulmano” e “islâmico” são sinônimos e dizem respeito ao Islã enquanto fenômeno religioso. O termo “islamista” é utilizado para se referir a grupos radicais, que utilizam da religião como ferramenta de terrorismo., com destaque para o direito das mulheres e o uso do véu.

Criticar a violência exercida por grupos terroristas pode e deve ser feita, mas o ideal é que isso aconteça de forma consciente, isenta de preconceitos e intolerância religiosa. O primeiro passo para tal é buscar conhecimento e, nesse processo, as informações devem ser criticamente selecionadas, de modo a zelar pelas crenças e costumes de um determinado povo, cultivando o respeito para com os mesmos. Nesse domínio das informações seguras se situa, por exemplo, a cientista e o cientista da religião, pesquisadoras e pesquisadores que certamente se comprometem com o combate da intolerância religiosa.

Tendo em vista esse cenário, gostaria de destacar alguns pontos que acho cruciais quando vamos falar de Islã e, inserido nisso, algumas questões sobre o véu e as mulheres muçulmanas. O primeiro deles é entender a diferença entre a religião Islã e a política exercida em nome dela. É muito comum que, decorrente de uma visão parcial da mídia ao abordar o Islã, reduzindo a religião a grupos radicais e terroristas, a gente acabe reproduzindo a ideia de que ambos fatores estão intrinsecamente associados. Porém, não é bem isso. Para exemplificar essa diferença, gostaria de citar uma frase de um teólogo muçulmano do século 14: “Se alguma decisão passar da misericórdia para a crueldade, não é o Islã; se passar da sabedoria à insensatez, não é o Islã; se passar do benefício ao mal, não é o Islã; e por fim se passar da justiça à injustiça? Não é o Islamismo. ” (Ibn Qayyim al-Jawziyya, ano 1350 da era comum).

Esse trecho é importante para que compreendamos que os princípios religiosos muçulmanos são contrários aos de grupos/partidos políticos radicais que, na verdade, fazem uso de um discurso religioso de cunho radical e fundamentalista como ferramenta de exercício do poder totalitário, utilizando de violência extrema contra qualquer indivíduo que pense diferente, inclusive alguns deles contra os próprios muçulmanos, como é o caso do Estado Islâmico e recentemente do Talibã. Esse tipo de expressão terrorista não é reconhecido dentro das tradições religiosas muçulmanas como pertencente ao Islã.

Pensando ainda nessa redução da tradição muçulmana a grupos terroristas, é importante observar que essa postura além de ser combatida por muçulmanos, é também contraditória no ponto de vista quantitativo uma vez que, sendo o Islã a religião que mais cresce no mundo, com cerca de 1,7 bilhões de fiéis, os grupos terroristas que se intitulam muçulmanos corresponde cerca de 1% dos mesmos.

O segundo ponto é uma reflexão para que busquemos desconstruir a concepção de que a “solução” para os conflitos políticos desses territórios seja “ocidentalizar” os muçulmanos, entendendo que somos um modelo de liberdade e igualdade a ser seguido, um exemplo de qualidade de vida, como se nossos direitos humanos fossem todos garantidos. O retorno do Talibã por exemplo, não significa o fim do imperialismo, mas devemos tomar cuidado com a noção de liberdade concebida por nós ao encarar a cultura islâmica. Essa concepção empobrece nossa visão acerca da diversidade cultural humana, pois pressupõe que exista formas de crenças e costumes superiores e inferiores, e que o que diverge de nossos paradigmas de mundo devam ser suprimidos e/ou modificados. Ao invés de querer modificar os costumes dos muçulmanos, devemos assumir uma postura de valorização e respeito para com a alteridade. Quando existe uma verdadeira abertura para a compreensão de uma visão diferente da nossa, desconstruímos uma ótica de superioridade e de fato damos voz à essas pessoas.

Sobre os recentes conflitos políticos no Afeganistão, dentre os tantos retrocessos de um governo ditatorial, os direitos das mulheres bem como o das minorias de modo geral, são os primeiros elos a serem rompidos (qualquer semelhança com o Brasil deve ser notada). No entanto, muitos brasileiros acabaram reduzindo esse problema, todo o fim dos direitos básicos e inalienáveis das mulheres, ao uso do véu – o que além de desviar o foco da questão, reproduziu mais uma vez o preconceito e desconhecimento do Islã.

Embora existam concepções, inclusive dentro de alguns movimentos feministas islâmicos de que o véu tenha uma conotação negativa, o uso do véu dentro da tradição religiosa do Islã possui um significado bem diferente desse: ele não é (ou não deveria ser) um elemento opressor, mas sim um elemento simbólico fruto de uma escolha individual e exclusiva da mulher. O véu não é obrigatório de acordo com o Corão (livro sagrado islâmico), a mulher pode escolher ou não usar o véu, e não deve ser julgada por isso, tendo em vista que suas motivações são pessoais e dizem respeito somente a ela e à Deus. Entende-se que o mais importante não é usar ou não o véu, mas antes que se cultive uma postura interna que esteja alinhada com os valores da religião, como por exemplo à caridade e o aperfeiçoamento moral.

Existe mais de um tipo de véu no Islã: o hijab, o xador, o niqab e a burca. Os diferentes tipos de véu irão variar de acordo com a cultura e os costumes de um determinado local. O hijab é a vestimenta mais comum utilizada pela maioria das muçulmanas, e cobre a cabeça e o pescoço. Embora o Corão não considere o uso do véu obrigatório, países como Arábia Saudita determinam seu uso.

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xador cobre o corpo todo com a exceção do rosto e é mais utilizado no Irã, não sendo obrigatório no mesmo. O niqab e a burca são coberturas menos usuais, o niqab cobre a cabeça, pescoço e boca e é frequentemente usado nos países da península Arábica em maior ou menor proporção, seu uso é de influência wahhabista, uma expressão fundamentalista do Islã. Já a burca, vestimenta que cobre todo o corpo, inclusive os olhos com uma rede para que possam enxergar, é a vestimenta menos utilizada no mundo islâmico (a burca não é especificamente mencionada no Corão), sendo determinada somente no Afeganistão.

Portanto, o problema não é em usar ou não o véu, pois ele não é primordialmente um sinal de opressão, mas sim quando os direitos de ir e vir, à liberdade, à educação e etc. são ameaçados e retirados, e a religião e seus símbolos (neles, inclui-se o véu) ser usado como ferramenta de opressão por grupos políticos radicais. Ao invés de dizer que está errado o uso do mesmo, vamos nos abrir para dar voz e de fato ouvir o que essas mulheres tem a nos dizer, respeitando sua cultura e religião, e apoiando suas lutas por direitos.

Antes de reproduzir notícias parciais sobre o Islã, te convido ao exercício de tirar os véus do preconceito e da islamofobia, e se abrir para o respeito e conhecimento para com o diferente, afinal, é na riqueza da diversidade que a raça humana encontra sua primazia.


Notas

  • 1
    O termo “muçulmano” e “islâmico” são sinônimos e dizem respeito ao Islã enquanto fenômeno religioso. O termo “islamista” é utilizado para se referir a grupos radicais, que utilizam da religião como ferramenta de terrorismo.