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Umbanda: a arte de curar

Umbanda: a arte de curar

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A Umbanda muitas vezes é lida como uma religião genuinamente brasileira, síntese das três raças, que historicamente informa e se forma a partir do mito da democracia racial. Essa institucionalização que surge em meados da década de 1930 com os movimentos de federação umbandista, corrobora com o epistemicídio – conceito criado por Dona Sueli Carneiro – das culturas que mais formam a nossa religiosidade. Retira-se a África da umbanda e são injetados valores outros, ligados ao cristianismo hegemônico e ao espiritismo.

Pois bem, falar sobre a minha experiência como pai de santo que vive a umbanda todos os dias, assim como da minha história, é me deparar com essa umbanda institucional, representante de um Brasil oficial, caduco e podre, que está em choque com os valores que hoje eu reforço para mim e para minha comunidade.

Há treze anos, meu pai carnal começou a trilhar um caminho sacerdotal, com uma pequena comunidade, deu seus primeiros passos e começou a tocar giras. No princípio, na casa de pessoas conhecidas, e depois de alguns anos veio a possibilidade de locação de um espaço para ser terreiro. Cada passo dado por meus familiares era envolto de umbanda da cabeça aos pés. Eu cresci mergulhado na umbanda, identificando sua pluralidade e querendo aprender mais sobre ela.

Nesse mesmo instante de formação do terreiro de meu pai, eu entro no processo de me entender homossexual, e começo a me posicionar no mundo. Aquele março de 2015 ficou marcado profundamente em mim, tanto por ter passado em História na USP como por contar aos meus pais sobre a minha orientação sexual, que, no caso, não foi nenhuma surpresa para eles, no fundo eles já sabiam, surpresa para mim foi a reação deles, completamente violenta em diversos níveis. Na minha cabeça, eu pensava como as coisas podiam ser daquela forma, uma religião que abertamente dizia fazer casamentos homoafetivos ter pessoas que abertamente eram homofóbicas. Com o tempo fui descobrindo outras faces dessa história, e como a umbanda institucional, não somente era abertamente LGBTI+fóbica, como também racista e misógina.

A História oficial da Umbanda, marcada pelo surgimento das suas vertentes, se estrutura por meio da opressão em diversas camadas. A institucionalização foi uma tentativa de afastamento e distinção das práticas e da cultura dos grupos negros, tentativa de jogar sua origem para um continente mítico chamado Lemúria, uma espécie de Atlântis, em que se situavam seres extraterrestres e teorias que versavam sobre uma magia oriental(ista), tudo para não reconhecer a africanidade da umbanda. Contudo, para a compreensão da minha experiência e daquilo que proponho a partir dela com este texto, acho necessário virar a chave de entendimento de todos os leitores pois, umbanda, em sua origem, é uma palavra que está situada na língua kimbundo, falada tradicionalmente na atual região de Angola, e que traz como um dos significados possíveis “a arte de curar”. Umbanda, portanto, é uma religião afro-brasileira, formada a partir de africanos e seus descendentes no processo de diáspora.

Passei um ano de constante sofrimento na casa de meus pais. Homossexualidade havia virado um tabu, caso estivesse passando qualquer programa na televisão que mencionava o tema, meus pais logo tiravam do canal. O terror psicológico de frases como “você está estragando a minha família”, ou “não é sobre a sua felicidade, mas sobre a nossa” eram constantemente usadas, fora os diversos rituais de desobsessão pelos quais passei, como se a minha orientação sexual fosse fruto de uma obsessão para destruir minha família. De fato, a incorporação de valores morais ligados ao cristianismo hegemônico e ao espiritismo faz parte da construção de uma umbanda oficiosa, que mente descaradamente sobre a sua história, e que tenta controlar e cercear nossos corpos e experiências.

Foi em agosto de 2016, durante o início de uma gira que meu pai, já irritado com toda a situação, me expulsa de casa, nas palavras dele foi algo do tipo “fora da minha casa, fora do meu terreiro, fora da nossa vida, você só traz desgosto. Você morreu pra mim”. Saí do terreiro, corri para casa deles, juntei tudo o que eu pude carregar comigo, mas deixei minha roupa branca usada nas giras de umbanda. Para mim, uma religião que me anula não podia fazer parte da minha vida. Em uma única tacada a homofobia havia tirado de mim meus pais e a minha religiosidade.

Depois de alguns meses desse momento, tive uma incorporação espontânea na casa do meu ex-namorado, e o recado do meu guia, o Calunguinha, foi direto e certeiro, era para eu procurar terreiro que ele ia me levar para o lugar certo, e foi assim que conheci a minha mãe de santo, Rosangela Bologna, que me acolheu de braços abertos no Terreiro do Caboclo Pena Verde, ela que também trabalha com o Calunguinha e que me curou de diversas feridas que eu trazia comigo. Foi ali que eu aprendi o significado de umbanda, como a arte de curar, nas curas que ela fez em mim me mostrando que ela, como minha mãe (de santo), me amava do jeitinho que eu era, e me ensinando a me amar como um ato de cura e revolução.

A umbanda tem uma potência sem tamanhos para nós da comunidade LGBTI+, pois nos terreiros temos um local de resistência histórica de africanos e seus descendentes que em épocas de escravidão e em um pós-abolição, que de fato não ocorreu, resistiram às investidas opressoras do estado e da sociedade, que reestruturaram laços afetivo-familiares, que curaram e encantaram pessoas para sobreviver às políticas de morte. Os terreiros na atualidade carregam consigo todas essas potências, e representam para a comunidade LGBTI+ espaços de possibilidade para reconstrução de laços afetivos-familiares e potencialização dos nossos corpos.

A partir de todas essas questões, eu encontro na minha mãe de santo o entendimento de que sim, a umbanda é para mim, a umbanda é para toda a minha comunidade. A arte de curar da umbanda nos cura de todas as feridas coloniais e opressoras provocadas pela sociedade, das tentativas de normatização e demonização dos nossos corpos, gêneros e sexualidades. Umbanda como a arte de curar fala sobre as nossas potências: nos terreiros temos espaços de potencialização de pessoas para que elas ganhem força suficiente para retornar à sociedade e quebrar com o sistema normativo e colonial de opressão. A umbanda nos possibilita crescer no caminho da ancestralização.

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Nossos guias-ancestrais são todos marginais, pessoas que foram marginalizadas pela sociedade e que, segundo o provérbio kongo, “fizeram história”, que lutaram contra um estado opressor, que mesmo diante de políticas de extermínio, encantaram a vida, e na arte do encante, como fala o historiador Luiz Antonio Simas nas suas mais diversas obras, viveram e festejaram a arte do viver, subvertendo a morte, a fome e a exclusão. Nos nossos ancestrais, vemos pessoas como nós, e que a partir de suas histórias de luta e resistência, abriram caminhos para que chegássemos até aqui.

Hoje estou à frente do Terreiro de Umbanda Urubatão da Guia, em São Paulo, e o que mais trago em mim da Umbanda para minha vida é o sentimento de nunca estar sozinho. Ser de terreiro é saber que nossos guias-ancestrais caminham passo a passo com a gente. Os meus caminhos estão ligados aos caminhos do Seo Urubatão, assim como do Seo Tiriri, de Dona Mulambo, do Calunguinha e de tantos outros guias-ancestrais de Umbanda. Na Umbanda reencontrei uma família que me ama da forma como sou, guias-ancestrais que me amam tanto, mas tanto, que fazem questão de baixar nesse corpo viado para falar com todos que precisam de uma palavra de cura.

Todos os dias, a comunidade LGBTI+ subverte as estatísticas de morte colonial criando novas possibilidades de caminhos de existência, e a umbanda que eu e minha comunidade construímos todos os dias é um desses caminhos possíveis de máxima potencialização das vidas LGBTI+, portanto, se os terreiros de umbanda são lugares de cura e encantamento, um espaço que oprime, segrega e adoece pessoas, não é umbanda!

É de saravá que vivemos!