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LGBTIQ+: como o budismo reage a esse assunto?

LGBTIQ+: como o budismo reage a esse assunto?

A questão central do Budismo é o sofrimento, sua origem e sua extinção, assim explana o Buda Shakyamuni em sua doutrina. O Budismo não determina como você deve ser, mas ele o questiona como vive em meio às paixões mundanas (ou os três venenos mentais: ignorância, ganância e raiva) apontando ensinamentos como lei de causa e efeito (karma), interdependência, impermanência e caminho do meio, a fim de compreender a realidade como ela é, conhecendo a si e o outro, sem precisar se culpar, se punir ou acreditar em destinos. O termo iluminação se refere a elucidação sobre a realidade do eu e da vida num todo. Inicialmente, o Budismo nos desconstrói para nos reconstruir como um autêntico ser humano, vivendo permeado pela compaixão e sabedoria e promovendo uma sociedade de paz.

No Budismo, entende-se que a sexualidade é uma expressão da vida. Uma forma de compreender o desejo sexual se expressa por meio dos Cinco Agregados ou (skandhas: sensação, percepção, forma, formação mental e consciência), um conceito importante acerca da condição humana, o qual cria a identidade de um eu, porém compreendido como ilusório, transitório e insubstancial. Como no Budismo não há uma visão criacionista, nem é uma religião de fertilidade, o desejo sexual não é posto em questão e ele pode se expressar de várias formas. A conduta sexual não é considerada pecado ou algo imoral, mas pode ser considerada como algo impróprio dependendo de como as pessoas se comportam, ou seja, se a ação resultar em sofrimento devido a questões como apego, raiva ou algum desequilíbrio a respeito da relação.

Assim, o desejo homoafetivo torna-se idêntico ao heteroafetivo, sem o juízo de valor moral. Logo, doutrinariamente não há nada que impeça alguém atingir a Iluminação por desejar diferentemente do padrão heteronormativo. Em suma, tanto faz você ser hétero ou LGBTQIA+, estamos todos no Samsara (mundo dos sofrimentos e ciclo de nascimentos e mortes) e o objetivo último do caminho budista é o Nirvana, isto é, a extinção deste ciclo.

Precisamos lembrar que o Budismo não é o mesmo em todos os países e épocas. Alguns países mantêm códigos rígidos entre monges e monjas, e outros como o Japão, de onde vem a minha tradição, os clérigos podem se casar e trabalhar. O Budismo em si é muito estratificado e aqui me valho do termo utilizado por Bernard Faure1Bernard Faure é um autor franco-americano e estudioso de religiões asiáticas, que se concentra no Chan / Zen e no budismo esotérico japonês. Seu trabalho baseia-se em teoria cultural, antropologia e estudos de gênero.– Budismos – por ser uma religião de expressão plural.

É sabido que o Brasil é o país em maior número de mortes no mundo de pessoas LGBTQIA+, cujos valores morais na cultura heteronormativa determinam o que vem a ser a sexualidade como correta e as demais expressões como pecadoras, imorais ou abomináveis. Portanto, é urgente repensar este comportamento social, como se os valores a respeito da vida fossem estipulados apenas por um viés religioso. Nesse sentido, compreender a sexualidade pela ótica budista traz a abertura do debate sobre a leitura do tema Vida, onde há diversas interpretações.

Um dos principais inspiradores da pauta budista na diversidade, em minha opinião, é o monge japonês e exímio maquiador Kodo Nishimura, descendente de uma família de monges, que viu a oportunidade de acolher e promover a vida das pessoas LGBTQIA+ através do seu trabalho religioso e laico. Por sua inspiração e demanda de novas respostas religiosas sobre a sexualidade, a Rainbow Sangha visa a acolher todos que buscam um caminho para a realização espiritual.

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Desde a saída do armário religioso nos últimos anos, tenho trilhado um caminho maravilhoso, leve e livre, contribuindo para muitas pessoas LGBTQIA+ por meio da minha história, proporcionando acolhimento, representatividade, diálogo e inclusão. O diálogo interreligioso LGBTQIA+ tem se espalhado em várias denominações pelo mundo, colocando todas sob o mesmo guarda-chuva colorido. Precisamos “celebrar e viver a diversidade, não a adversidade”, lema da nossa Rainbow Sangha.

Eu sou Rev. Jean Tetsuji, Ministro do Dharma da ordem Otani, escola Jodo Shin. Atuo no Templo Higashi Honganji de São Paulo, cofundador da Rainbow Sangha Comunidade Budista LGBT+, integrante das Lideranças Interreligiosas Koinonia e do Fórum Interreligioso da Secretaria de Justiça e Cidadania de SP nas pautas de Combate à Intolerância e de Liberdade Religiosa e pós-graduando em Religião e Cultura pela UNIFAI.


Notas

  • 1
    Bernard Faure é um autor franco-americano e estudioso de religiões asiáticas, que se concentra no Chan / Zen e no budismo esotérico japonês. Seu trabalho baseia-se em teoria cultural, antropologia e estudos de gênero.