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Paris, o berço do Estado laico, um caldeirão de religiões

Paris, o berço do Estado laico, um caldeirão de religiões
Rita Grassi 11 de fevereiro de 2020

Por se tratar de minha primeira coluna por aqui, me vejo no direito e na obrigação de me apresentar e estabelecer o meu “lugar de fala”, como bem recomenda a filósofa Djamila Ribeiro. Sou mulher, branca, sem religião institucional, casada, mãe de duas meninas. Fui atriz, produtora de eventos e, depois de uma longa transição profissional, estou cientista da religião.

Vivi em Paris por duas vezes anteriormente: uma, em 2000, como estudante de francês e outra, em 2005, a trabalho. Agora, estou aqui para fazer meu doutorado em Ciências da Religião na École Pratique des Hautes Études (EPHE), que está sediada na Paris Sciences et Lettres (Ciências e Letras).

Paris mudou muito nos últimos 15 anos. A onda migratória crescente na Europa se faz sentir nos mínimos detalhes aqui. Um aspecto muito positivo está na renovação da geração que estava nos principais postos de trabalho em 2005, majoritariamente branca, francesa e, ouso dizer, mal-humorada e, em muitos casos, xenófoba; para uma geração misturada, miscigenada, sendo uma grande parte de origem africana, árabe e asiática. Pessoas mais sensíveis ao outro, principalmente ao outro imigrante, como seus pais e avós.

Créditos: Patrick Nouhailler

Por outro lado, houve um recrudescimento da afirmação do Estado laico. Os atentados de novembro de 2015 tiveram como consequência uma rigidez maior na aplicação das leis que protegem a laicidade do Estado, tendo como argumento a segurança nacional. Um movimento que, aos olhos de nós brasileiras e brasileiros que estamos assistindo a uma grave crise do Estado laico, pode parecer positivo, mas que tem origem, também, no crescimento da onda islamofóbica na Europa e, também, no mundo. A linha entre a afirmação da laicidade e a islamofobia é bastante tênue e precisamos ter os olhos bem abertos. Minha orientadora, Valentine Zuber (historiadora) disse em uma entrevista que:

A laicidade, que é a condição para a expressão de nossa liberdade, supõe a igualdade de todos no desfrute dos benefícios induzidos pelo liberalismo de princípios. Nenhuma diferença de origem étnica, cultural ou religiosa pode justificar tratamento diferenciado entre indivíduos que vivem juntos na mesma sociedade. Seus diferentes membros devem, portanto, esforçar-se para relativizar sua apreensão em face das diferenças visíveis – de vestuário, cultural ou ritual – a fim de focar apenas na real promoção social dos indivíduos, irmãos em humanidade. É na implementação real do princípio da fraternidade, na consideração do outro e na busca do compromisso inerente ao funcionamento democrático que as crenças conflitantes e as certezas abaladas finalmente poderão dialogar.

Em uma visita a uma escola pública, a diretora (branca e francesa), ao me ver impressionada com a qualidade das instalações, fez questão de afirmar: “Aqui na França a educação é púbica, gratuita e LAICA!”. Talvez ela estivesse um pouco desconfiada por eu ter dito que estudava ciências da religião, mas isso não vem ao caso. O fato é que, minutos depois, a professora me avisou que, no dia seguinte, haveria uma festa entre os alunos para comemorar a Festa de Reis e que as crianças vestiriam umas coroas coloridas por elas. Então, me perguntei (não perguntei para a diretora, porque queria garantir a vaga da minha filha): Não se trata de uma festa cristã? Que laicidade é essa que não permite que meninas muçulmanas portem o véu nas escolas públicas, mas que celebra uma festa cristã nas mesmas escolas? Que faz as crianças vestirem o símbolo máximo da monarquia, fundada e mantida pelo cristianismo durante séculos? E, até hoje, no caso do Reino Unido. Ao relatar este caso para o cientista político Philippe Portier, na ocasião do seu seminário sobre a História das Laicidades na Europa, o mesmo me respondeu sorrindo: “C’est la laïcité française!”

Na esquina da minha rua tem uma mesquita e o enorme, e maravilhoso, Instituto do Mundo Árabe, numa cidade repleta de igrejas, sinagogas, templos budistas e o que mais você quiser encontrar. O mais difícil de encontrar aqui, em Paris, é um centro espírita kardecista (embora Kardec fosse francês e seu corpo esteja enterrado aqui no cemitério Père Lachaise), mas isso é assunto para outra coluna. Bom seria, se a França e a cidade de Paris assumissem essa característica plural e a incorporasse, da mesma forma que incorporou os imigrantes de 15 anos atrás em seus postos de trabalho e em sua seleção de futebol, criando diálogos, instruindo suas crianças e não transformando a laicidade em um muro separatista e excludente. A laicidade existe, também, para garantir a liberdade de expressão religiosa promulgada pela Declaração Universal de Direitos Humanos. Segundo Comte-Sponville, “a religião é um direito. A irreligião também. Precisamos, então, proteger uma e outra (talvez uma da outra, se necessário for), impedindo-as ambas de se impor através da força. Isso é o que chamamos de laicidade, e a herança mais preciosa do Iluminismo”. E, acrescenta que “a liberdade de espírito é, talvez, o único bem mais precioso do que a paz. Pois, a paz sem ela é nada mais do que servidão”.

 

REFERÊNCIAS:

COMPTE-SPONVILLE, André. L’esprit de l’atheism: introduction à une spiritualité sans Dieu. Aris: Albin Michel, 2006.

ZUBER, Valentine. Condition de l’expression de notre liberté, la laïcité exige l’égalité. Humanité. Fev., 2018. Disponível em: https://www.gsrl-cnrs.fr/wp-content/uploads/2018/02/valentine-zuber-humanite-fevrier-2018.pdf

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