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Nova Iorque: a terra da liberdade religiosa (?)

Nova Iorque: a terra da liberdade religiosa (?)

Depois de um longo período de mudança, esta coluna tem agora um novo endereço. Sim, os Estados Unidos da América, “the land of the free and the home of the brave” (a terra da liberdade e lar dos corajosos). Mais precisamente, Nova Iorque, “concrete jungle where dreams are made of there’s nothing you can’t do” (a selva de concreto onde os sonhos são feitos de que não há nada que você não possa fazer). A terra das oportunidades. Mas, será que essa tal liberdade também se aplica à religião?

É ainda um pouco cedo para responder a essa pergunta, se é que algum dia conseguiremos respondê-la. O que podemos afirmar é que a religião se faz bem mais presente no espaço público do que na França, o que, de uma certa forma, demonstra uma maior tolerância religiosa. Sem nos esquecermos, é claro, que estamos em um dos lugares mais vigiados do mundo, com uma presença policial ostensiva, representada pelas incessantes sirenes que sonorizam a cidade ao longo do dia e, até mesmo, da noite. (Durma com um barulho desses!)

O fato é que a França de hoje, conforme demonstramos brevemente em textos anteriores, rejeita a religião em nome de uma laicidade que se tornou um forte valor da república, assim como a liberdade, a igualdade e a fraternidade. Na prática, no entanto, esta laicidade pode ser vista como uma laicidade “à la française”, que em muitos momentos parece se sobrepor aos outros três valores e que, com toda certeza, gera um clima de intolerância religiosa e, até mesmo, de aversão à religião como um todo.

Já os Estados Unidos não tentam de forma alguma esconder a religiosidade inerente à sua construção enquanto Estado-nação, a partir do colonialismo cristão-protestante. E isso está bem claro em diferentes estâncias, como no juramento à bandeira e no próprio discurso dos Presidentes da República norte-americanos e de outras representantes do país.

Em Nova Iorque, há uma presença religiosa bastante plural, que vai do Gospel nas igrejas do Harlem, passando pelas danças e batuques das tradições de origem afro, pelos véus das mulheres muçulmanas (que aqui também usam a burca que só mostra os olhos, proibida na França), pelas inúmeras práticas de yoga e meditação de origem hindu-budista, pelas imensas igrejas católicas e protestantes e outras múltiplas práticas religiosas cristãs e não-cristãs, new age etc. Mas, o que mais me chama a atenção, é a presença do judaísmo no espaço público. Chegamos aqui na semana do Rosh Hashanahan, o ano novo judaico, e talvez isso tenha me causado uma primeira impressão ainda mais forte. O fato é que eles e elas ocuparam as praças para celebrar seus rituais, vestem os quipás, chapéus, ternos, perucas e saias compridas, dependendo da sua linhagem nesta tradição, tocam a corneta, cantam, penduram as luzes nas janelas…

Outra coisa que me chamou bastante a atenção foi ter recebido uma carta da escola francesa (!) das minhas filhas, que fala sobre o Ano-Novo judaico e que a data seria, também, celebrada na escola ao longo da semana. E, por fim, a escola nos lembrou das festas de outras tradições que irão acontecer neste semestre, além de ter pedido às famílias para enviarem as datas importantes de sua cultura e tradição para que ninguém fosse excluído. Isto é um marco importante, tendo em vista que esta escola, de certa maneira, representa o estado francês, mas está adaptada à realidade vivida aqui na América do Norte.

Mês passado também houve muitas manifestações em torno dos 20 anos dos atentados do 11 de setembro de 2021. Será que a intolerância e o preconceito religiosos provocados por este triste evento estariam superados? Isto será (talvez) assunto para uma próxima coluna. Estamos de volta!

 

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Referências

Empire State of Mind (Alexander William Shuckburgh / Alicia J Augello-Cook / Shawn C Carter / Angela Hunte / Bert Keyes / Sylvia Robinson / Janette Sewell)

The Star-Spangled Banner (John Stafford Smith / Francis Scott Key)