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Dezmandamentos: “Não dirás falso testemunho contra o teu próximo”

Dezmandamentos: “Não dirás falso testemunho contra o teu próximo”

Décimo texto da série “Dezmandamentos”. Essa é uma série de conteúdo teológico e pastoral voltada para a leitura dos Dez Mandamentos a partir das experiências de dissidentes sexuais e de gênero. Para ler o nono texto, clique aqui.

Êxodo 20:16 “Não dirás falso testemunho contra o teu próximo.”

Entre as pessoas que sofrem bullying e aquelas que praticam bullying eu já fui as duas. Confesso que ao tentar comparar as duas situações, a segunda me causa mais dor. Talvez porque seja uma dor que vem acompanhada de uma vergonha enorme. Eu pratiquei bullying na escola, naquela época que a gente faz de tudo para pertencer a algum grupo – e, geralmente, acaba escolhendo o grupo errado para pertencer. Me lembro, pelo menos, de dois casos. Em ambos as vítimas, duas meninas de aproximadamente 13 anos, acabaram saindo do colégio muito provavelmente por causa da violência que sofriam.

Essas meninas sempre ficavam sem dupla na hora da prova, eram as últimas a serem escolhidas para o time da aula de educação física, tinham apelidos como “Djow” (“de outro mundo”) ou qualquer outro que fosse comum naquele tempo. Elas andavam com a cabeça baixa no corredor e comiam sozinhas no recreio. Talvez essa seja uma das piores coisas do bullying: o sequestro da sociabilização de um/a jovem.

Quando entrei para o ensino médio, eu já não era da “turma do bullying” – não porque o bullying não mais existisse, mas porque ele havia ganhado outras formas de operar. Eu fazia parte agora da turma mais descolada, que fumava na hora do recreio e “viajava” ouvindo Stairway to Heaven do Led Zeppelin. Foi naquela época que eu comecei a descobrir outros desejos em mim que não se enquadravam em nenhuma turma que eu conhecia. Eu estava lidando com o desconhecido – sem palavras para nomeá-lo e sem pudor para freá-lo. Eu sentia e ponto. Não me lembro de sofrer pelo o que eu sentia. Mesmo sem saber viver aqueles desejos que surgiam em mim e não via nada de errado neles.

Foi então, no primeiro ano da faculdade, que uma missionária evangélica, vinda direto dos Estados Unidos para o Brasil, leu um livrinho comigo que mudou tudo o que eu sentia em relação a mim mesma: “As quatro leis espirituais”. Esse folheto ensinava as quatro leis do plano de Deus para as pessoas:

1ª Lei – “Deus ama você e tem um plano maravilhoso para a sua vida”.

2ª Lei – “O homem é pecador e está separado de Deus; por isso não pode conhecer nem experimentar o amor e o plano de Deus para a sua vida”.

3ª Lei – “Jesus Cristo é a única solução de Deus para o homem pecador. Por meio dele você pode conhecer e experimentar o amor e o plano de Deus para a sua vida”.

4ª Lei – “Precisamos receber a Jesus Cristo como Salvador e Senhor, por meio de um convite pessoal. Só então poderemos conhecer e experimentar o amor e plano de Deus para a nossa vida”.

Simples assim. Me lembro dela explicar que as “Boas Novas” da salvação vinham acompanhadas de “más notícias”: eu era pecadora. O bullying da juventude e o desejo afetivo-sexual do início da vida adulta entraram todos em um mesmo pacote de pecados cujo “salário era morte” (cf. Romanos 6:23). E a lista de pecados era sem fim, porque, finalmente, eu estava assumindo todos os meus erros e a pessoa horrível que eu era.

A “verdade” das “más notícias” que acompanha as “Boas Novas” me atormenta há 24 anos. Essa verdade mentirosa que me contaram criou uma relação adoecida em como eu me vejo e me percebo no mundo. Por isso, aqueles falsos testemunhos que eu usava no bullying, passei a usar contra mim.

Eu,

a farsa,

a farsante,

a mentira,

a mentirosa,

o pecado,

a pecadora,

a pecaminosa.

 VEJA TAMBÉM

A monstra.

Aqui opera uma “teologia monstruosa” – não da “condição de monstro” de Paul B. Preciado (se bem que poderia ser!) que prefere “sua condição de monstro a ser homem ou mulher” 1Gratidão à Sara York pela tradução de “Eu sou o monstro que vos fala”, de Paul B. Preciado (https://www.revistaapalavrasolta.com/post/eu-sou-o-monstro-que-vos-fala). – mas uma teologia monstruosa que nos lança em masmorras solitárias que anunciam a escuridão da condenação. E importa ressaltar, que eu não uso o conceito de monstro ingenuamente, pois sei que esse é um adjetivo tipicamente usado contra pessoas com deficiência. Não quero minimizar a potência de uma teoria crip 2Teoria crip é um conceito usados nos estudos da deficiência usado de maneira radicalmente contestatória aos regramentos que instituem o que é a norma e o natural. Ver: https://www.scielo.br/j/ref/a/xN3zgQD7sqggSwxrZFV7qQk/?lang=pt. e seu uso da categoria de monstro. Entretanto, é assim que me chamo em meus momentos de maior angústia: “Ana Ester, você é um monstro”.

A teologia monstruosa é uma teologia de adoecimento, que opera criando abismos entre o que somos e o que deveríamos querer ser. Ela inviabiliza a dinâmica complexa da vida, negando uma das nossas condições mais humanas: nossas contradições. Nunca estamos bem com nós mesmas, porque não temos um “coração igual ao Teu (Jesus)”3Menção à canção “Coração igual ao Teu”, de Diante do Trono.. Somos reduzidas ao “não faço o bem que eu quero, mas o mal que não quero, esse faço” (cf. Romanos 7:19-20). Permeadas por esse mal, acabamos nos tornando inimigas de nós mesmas e repetimos diante do espelho os falsos testemunhos que disseram contra nós nos púlpitos.

O bullying que sofri e que pratiquei, as coisas horríveis que ouvi das pessoas que mais amava, as violências pelas quais passei, nada disso tem mais impacto em minha relação comigo mesma do que as mentiras sacralizadas como verdades. Mentiras vendidas como verdades. É sobre isso: sobre o “mercado da salvação” que opera com quatro leis espirituais/econômicas que exigem o depósito de nossas identidades em nome de uma identidade santificada e homogeneizada, ou seja, cisgênera, heterossexual, machista, patriarcal, e que tem o “coração disposto a obedecer”4Menção à canção “Coração igual ao Teu”, de Diante do Trono..

Diante dessa imposição ao “mercado de almas”, me lembro da ideia de “recusa à conversão” de Marcella Althaus-Reid:

Uma recusa à conversão

Uma característica desse ato de descrença é que o sujeito rebelde se recusa a formar uma nova (imposta) identidade. Ela não se converte, mas permanece teimosamente firme naquilo que ela é ou se tornou, independentemente de qualquer reivindicação teológica colonial sobre sua alma. Portanto, as pessoas queer podem cometer um pecado capital (ou capitalista?) ao se recusarem a entrar no mercado da salvação, permanecendo em um estado de descrença nas reivindicações heterossexuais sobre sua identidade, ou recusando a converter-se ao evangelho das corporações. A conversão tem sido um empreendimento colonial e neocolonial, no qual a globalização ainda participa. A conversão religiosa, quando impõe um absoluto, não dá espaço para opções. Tal opção, conforme Segundo (Juan Luis Segundo), é o espaço do inferno.5ALTHAUS-REID, Marcella. Deus queer. Tradução: Fábio Martelozzo Mendes. Rio de Janeiro, RJ: Metanoia; Novos Diálogos, 2019, p. 227.

A conversão ao projeto libertador de Jesus Cristo não deve implicar em uma conversão ao “mercado da salvação” que controla as formas com as quais nos relacionamos com outras pessoas e com nós mesmas. Desmandar o nono mandamento implica em revelar os falsos testemunhos que a igreja, a tradição, a teologia, e os líderes religiosos disseram sobre nós. E mais do que isso, implica em um exercício honesto em revelar quais são as mentiras que nós passamos a testemunhar contra nós mesmas.


Notas

 

  • 1
    Gratidão à Sara York pela tradução de “Eu sou o monstro que vos fala”, de Paul B. Preciado (https://www.revistaapalavrasolta.com/post/eu-sou-o-monstro-que-vos-fala).
  • 2
    Teoria crip é um conceito usados nos estudos da deficiência usado de maneira radicalmente contestatória aos regramentos que instituem o que é a norma e o natural. Ver: https://www.scielo.br/j/ref/a/xN3zgQD7sqggSwxrZFV7qQk/?lang=pt.
  • 3
    Menção à canção “Coração igual ao Teu”, de Diante do Trono.
  • 4
    Menção à canção “Coração igual ao Teu”, de Diante do Trono.
  • 5
    ALTHAUS-REID, Marcella. Deus queer. Tradução: Fábio Martelozzo Mendes. Rio de Janeiro, RJ: Metanoia; Novos Diálogos, 2019, p. 227.
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