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Dezmandamentos: “Não roubarás”

Dezmandamentos: “Não roubarás”

Nono texto da série “Dezmandamentos”. Essa é uma série de conteúdo teológico e pastoral voltada para a leitura dos Dez Mandamentos a partir das experiências de dissidentes sexuais e de gênero. Para ler o oitavo texto, clique aqui.

Êxodo 20:15 “Não roubarás.”

Acredito que ninguém deva estar esperando que eu comece esse texto fazendo uma diferenciação a partir do direito criminal sobre furto e roubo, né? De qualquer forma, eu optei pelo uso do verbo roubar (cf. Bíblia de Jerusalém) justamente para reforçar o caráter violento do roubo. Querendo ou não, esse tema chega a mim de forma violenta, porque praticamente me rouba o direito de me manter calada e me obriga a revirar os roubos que ocorreram em mim.

Fiquei com muito receio de ficar repetitiva nos temas abordados, mas olhando para os textos que já foram escritos, me percebo nessa espiral que, ao caminhar pelo desvio, volta e meia se percebe nas mesmas encruzilhadas. Essa tentativa de me re/escrever a partir do texto bíblico me coloca em lugares que já visitei por muitas vezes. Cada vez que visito esses lugares, enfio a mão no bolso e me certifico que tenho um bilhete de volta, porque o medo de fazer desses lugares morada me dá calafrios.

Me lembro uma vez que Sandro, meu amigo, pastor, e conselheiro estava lá em casa e fez uma meditação guiada comigo. Em um momento da meditação, ele me fez visitar um lugar que deveria ser um lugar de segurança, de aconchego, de paz. Em uma experiência única, me percebi na casa que meus avós maternos moraram, lá em Montes Claros, MG. A casa era, na verdade, uma chácara de nome João-Congo. Eu não estava dentro da casa, estava bem longe, do lado de fora, quase perto da cerca que delimitava o terreno, onde tinham dezenas de mangueiras. Debaixo dos meus pés, folhas de mangueira e mangas que caíram do pé de maduras. O cheiro de manga podre era quase insuportável. O som que me cercava era do zumbido das moscas se deliciando nas mangas.

O que eu estava fazendo justamente ali? Eu sempre morri de medo daquele lugar. Era mais que medo, era pavor. Não de pessoas vivas, confesso. Mas, de fantasmas, espíritos, assombrações, e do “capeta”. Como o capeta me atormentou! Os meus primos sempre usavam a ideia do capeta para me infernizarem (contém ironia). Para escrever esse texto, acabei conversando com minha prima. Nos lembramos que só podíamos jogar maê (amarelinha) até às 18h, porque depois disso o capeta aparecia – e, atenção, ele aparecia na janela e com o rabo enrolado! Além disso, a gente não podia comer no escuro, porque “quem come no escuro, come com o capeta”. No escritório do meu avô, os livros nos assombravam. Me lembro de um exemplar de O Exorcista, e outro cheio de imagens do inferno, que suspeito serem ilustrações de alguma edição do Inferno de Dante Alighieri. Ah, e os homens que já tinham morrido na casa? Inclusive um deles havia morrido no meio de uma relação sexual. Talvez tenha sido ali, entre histórias e estórias que eu comecei a criar uma ideia do mal. Foi nesse lugar de pavor que eu fui parar durante a meditação guiada que me fez procurar por um lugar de segurança, de aconchego e de paz. Talvez o tempo faça isso com os lugares, e com a gente.

Durante anos fui atormentada pela ideia do capeta, do demônio, do maligno. Várias foram as situações nas quais a ideia do demônio teve um papel central nas minhas histórias. O mesmo pavor que sentia quando sozinha no João-Congo, foi o pavor que experimentei em uma sala cheia de pessoas em um retiro de uma igreja evangélica. Diante de mim, uma fila de mulheres. Algumas pessoas tocavam e cantavam músicas de louvor e adoração. À frente, a liderança da igreja orando pelas pessoas. A minha vez ia se aproximando. Eu era umas das últimas na fila. Minha mão suava. Algumas pessoas “manifestavam espíritos ruins”. A liderança “expulsava os demônios”. Eu sabia que tinha demônios em mim. A lista de “brechas” que lemos antes durante o retiro mostrava que eu deveria ter demônio saindo pelo meu nariz! E não somente pelas brechas que abri com os meus “pecados”, mas também pelas várias vezes eu chamei o demônio para “encarnar” em mim, na tentativa de que “uma força maior” conseguisse, finalmente, dar cabo da minha vida.

O medo que senti na fila era muito parecido com o medo que sentia no João-Congo. Era um medo que me dava vontade de correr, de fugir. Quando chegou a minha vez e uma das mulheres colocou a minha mão na minha cabeça, eu corri. Sem ter para onde fugir, logo me jogaram no chão. Quase 20 anos depois do ocorrido eu ainda não sei dar nome ao que aconteceu. Mas, me lembro bem do que ocorreu ali. Das coisas que foram ditas, gritadas, do meu medo e da minha raiva. Eu estava endemoninhada? Eu fui conduzida a ter aquela experiência? O que foi real ali? Eu não sei. Essa é uma experiência que me envergonho em compartilhar, justamente por ainda não ter conseguido dar sentido a ela. No meio do horror daquela noite, me lembro da pastora tocando violão e cantando. Enquanto eu perdia as forças para tentar sair dali, ela cantava. As músicas me acalmaram. Foi aquela ministração a responsável por eu começar a frequentar aquela igreja.

Eu não quero ser injusta. Eu não posso roubar do meu passado as boas experiências que eu vivi no período em que frequentei aquela igreja. Eu não posso roubar desse texto a tensão que eu experimentando ao escrevê-lo, como se de alguma forma, eu quisesse me reconciliar com o que eu vivi ali. Será que eu estou forçando a barra, tentando achar algo de bom em uma experiência de muita dor, só porque lá no fundo eu tenho esperança de que esse ensaio chegue até a pastora e eu não queira magoá-la?

Escrevi esse texto em dois dias. Entre um e o outro, sonhei com a pastora. Eu estava na porta de uma casa de uma cidade do interior. Ela passava a pé com um tanto de amigas ao redor. Eu a reconheci, ela veio e conversou não sei o quê comigo. Pedi que ela anotasse meu telefone para que a gente conversasse depois. Ela não conseguiu anotar meu número em seu celular, por mais que tentássemos. Ela foi embora, sem meu número. Eu sabia que não a veria novamente.

Dentre tantas coisas que essa maldita teologia fundamentalista me roubou, talvez isso seja uma das coisas que mais doa em mim: perdi minha pastora e amiga. Eu me reconciliei com Deus, eu me reconciliei com minha sexualidade, eu me reconciliei comigo mesma, mas nunca me reconciliarei com ela. A amizade, o carinho, a intimidade que tínhamos, tudo isso foi roubado de nós por um apreço a um deus da morte, um espírito de discórdia, e um jesus da separação. Quantas pessoas foram roubadas de nós? Quantos afetos?

Quantos amores?

Trago na memória um cheiro de manga,

Ora verde, ora madura, ora podre.

Como a manga verde com sal.

Da madura bebo o suco.

Com a podre faço compostagem

E com ela alimento a dor da lembrança.

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Post scriptum

Esse texto me roubou de mim. Roubou meu controle sobre minhas ideias.

Comecei me preparando para falar, novamente, sobre ciúmes. Por isso, escrevi que “tinha medo de estar sendo repetitiva”. Ia usar um trecho de uma música de Ana Carolina… “eu quero te roubar pra mim”.

De repente, o texto me levou à minha infância, como se algo ali tivesse que ser compartilhado. Senti tanta angústia, que chorei – e tomei um desvio. Quando me localizei novamente, lá estava eu perdida e achada em meu sonho, que conduziu a reflexão até o final.

Sim, esse texto me roubou de mim. E me devolveu mais viva, mais atenta às intuições de um método queer de escrita que não pode ser aprisionado.

Há um papel curativo na visitação de nossas memórias –

isso não pode ser roubado de nós!