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Afinal, meditar para quê?

Afinal, meditar para quê?

As práticas de meditação são técnicas milenares que nasceram nas tradições religiosas hindus da Índia, por volta do ano de 1.500 antes da era cristã. Porém, somente nas últimas décadas ela tem sido objeto de estudo da ciência. Além da perspectiva religiosa, a neurociência tem buscado entender melhor questões como: O que acontece em nosso cérebro quando meditamos? Quais são os benefícios dessa prática?

Para sugerirmos algumas respostas para tais indagações, antes é necessário compreender em que consiste a meditação. É impossível falarmos de meditação como algo único, isso se deve ao fato de que não existem uma única forma de meditar, mas sim várias. O Hinduísmo, pioneiro da prática, utiliza as modalidades de meditação como forma de evoluir espiritualmente, pois as técnicas almejam atingir, segundo a tradição, um nível de consciência superior que permitiria o fiel se “conectar” com o Sagrado.

Mais tarde, o Budismo, que nasce no ceio hindu, também irá utilizar a meditação como um veículo espiritual essencial para a purificação do ego e libertação do sofrimento, sendo este um dos caminhos mais promissores para atingir o nirvana, estado de iluminação plena. O próprio fundador da tradição, Sidarta Gautama, conhecido como Buda (o iluminado), atingiu o nirvana após mais de 40 dias meditando embaixo de uma árvore, como narra a tradição.

De forma geral, as práticas de meditação, embora tenham inicialmente um cunho espiritual, também são formas de equilibrar o corpo físico e a mente. Não é necessário (embora muitas das vezes seja recomendada pelas tradições que a praticam) pertencer ou mesmo acreditar em uma tradição religiosa específica para meditar.

O jeito mais simples da prática é encontrar uma posição confortável, fechar os olhos e respirar de forma consciente, ampla e profunda, buscando o esvaziamento da mente juntamente com ampla concentração na respiração.

Os pensamentos devem ser observados de forma neutra pois mesmo se percebidos pela consciência, esta não deve se apegar a eles, deixando-os fluir. Para exemplificar de modo metafórico essa postura, imagine-se sentado (a) às margens de um rio, seus pensamentos e sua mente são como a correnteza, muitas das vezes turva e agitada. Para meditar, você deve, portanto, se sentar à margem do rio de sua mente, e observar de modo desapegado a correnteza de seus pensamentos, até que os mesmos se tranquilizem e desapareçam, deixando o rio límpido e calmo.

No início pode parecer difícil, mas com o tempo se torna mais fácil e os resultados serão significativos com base não somente nas tradições que praticam a meditação há milhares de anos (o que já é bastante convincente), mas também sob a ótica científica. Vejamos:

No final do século passado os primeiros monges budistas foram submetidos a tomógrafos/eletroencefalograma1Conhecido também como EEG, é uma maneira de monitorar os impulsos elétricos do cérebro, como também as ligações sinápticas entre os neurônios. na pesquisa de Richard Davison enquanto meditavam. O resultado foi surpreendente para a comunidade científica, pois foi constatado que a meditação poderia modificar a estrutura cerebral. Descobriu-se que as áreas do cérebro ligadas à compaixão, resiliência e felicidade dos monges eram consideravelmente mais desenvolvidas, e as áreas do cérebro responsáveis pelo estresse, ansiedade e depressão eram bem menos desenvolvidas nesse grupo quando comparada as de pessoas que nunca meditaram na vida. Mas como isso é possível?

Isso se deve ao fato de que existe algo em nossos cérebros que se chama plasticidade neuronal que, de acordo com Ulrich Kraft, é a capacidade de o cérebro modificar suas configurações nos níveis físico-químicos, biológicos e também psicológicos. Sendo assim, essa plasticidade neuronal é verificada por Davison, ao perceber que a meditação “treina” o cérebro, dando ao mesmo, novas formas de lidar com os pensamentos e acontecimentos, fazendo com que as informações cognitivas e afetivas sigam por outros caminhos, sendo “processadas” de forma mais equilibrada, serena e positiva, perante as adversidades da vida (como por exemplo o contexto de crise sanitária que vivemos).

Sendo assim, a meditação pode ser o início de um processo de autoconhecimento engrandecedor, que promove resultados duradouros, bem como uma ótica mais serena perante a vida, além de ser um exercício extremamente democrático, que pode ser utilizado por qualquer indivíduo, em qualquer tempo e espaço, independendo do seu credo ou não credo religioso.


Referências

HANSON, Rick. O Cérebro e a Felicidade. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2015.

HANSON, Rick. O Cérebro de Buda. São Paulo: Alaúde, 2013.

 leia também

DAVISON, Richard J. O Estilo Emocional do Cérebro. Rio de Janeiro: Sextante, 2013.

KRAFT, Ulrich. Iluminação Neuronal. Revista Mente e Cérebro, 2005.

LAZAR, S W. Meditation experience is associated with increased cortical thickness. NIH Public Access, USA, 2005, v.16, p. 1893-1897, nov. 2005.

LAZAR, S W. Effects of a yoga-based intervention for young adults on quality of life and perceived stress: The potential mediating roles of mindfulness and self-compassion. USA: Journal of Positive Psychology, USA, 2012, n. 3, v.7, p. 165-175, mai. 2012. 2012.

LAZAR, S. W. Mindfulness practice leads to increases in regional brain gray matter density. Psychiatry Research Neuroimaging, USA, 2011, v.191, p. 36-43, jan. 2011.

Notas

  • 1
    Conhecido também como EEG, é uma maneira de monitorar os impulsos elétricos do cérebro, como também as ligações sinápticas entre os neurônios.