SEJA ASSINANTE APOIADOR(A)

SEJA ASSINANTE APOIADOR(A)

Apoie a produção de conteúdo gratuito

A mulher muçulmana em foco

A mulher muçulmana em foco
18 de março de 2021 Rita Grassi

Foto de Hasan Almasi no Unsplash

Na semana passada celebramos o Dia Internacional da Mulher, quero falar sobre um filme e uma série, aos quais assisti recentemente. Ambos tratam do tema da mulher no Islã. Como não sou uma especialista no assunto, me dou o direito de falar do lugar de uma estudiosa do fato religioso e de mulher brasileira, imigrante na França.[1]

A série em questão chama-se “8 em Istambul”, dirigida por Berkun Oya, que trata de realidades distintas de mulheres turcas, de diferentes classes sociais e profissões, a partir da perspectiva da protagonista Meryem. Esta jovem mulher muçulmana de jeito doce e perspicaz, vai nos guiando pela história que retrata nuances importantes e delicadas de como é ser uma mulher pertencente a essa tradição dentro da sociedade contemporânea, ocidentalizada, onde a mulher já se encontra emancipada de certos valores, como a obrigatoriedade do casamento para sentir-se plenamente realizada, a submissão ao homem, a discrição quanto aos corpos e a sexualidade.

Outro aspecto importante abordado pela série, é o da desconstrução de determinados preconceitos com relação às mulheres muçulmanas (que portam o véu), através de uma outra personagem feminina, que foi criada para enxergá-las como inferiores. Este aspecto também chama a atenção para uma das principais questões do feminismo islâmico “provar que mesmo usando lenço, elas não se diferenciam de outras mulheres e que são, sim, mulheres propositivas, que sabem o que querem sem abrir mão de sua fé e da sua religiosidade”. (BARBOSA, 2018). Algo que pode ser adaptado ao contexto brasileiro, com relação às mulheres das religiões de matriz africana e, também, às evangélicas. Este processo do dar-se conta do próprio racismo, da incapacidade de enxergar a outra como igual, é enriquecedor para quem assiste e se enxerga ali.

O filme chama-se “Le Ciel Attendra”, algo como “O céu esperará” (não encontrei o título em português), dirigido pela francesa Marie-Castille Mention-Schaar. Fala sobre a abdução de mulheres francesas pelo Estado Islâmico, através da história de duas adolescentes brancas, de classe média, que passam por essa situação. Me chamou muito a atenção por estar baseado em algo que realmente acontece, não só na França, como em outros países da Europa e que tem sido manchete dos jornais nos últimos dias. Dezenas de mulheres francesas (dos 14 aos 35 anos) que foram cooptadas pelos jihadistas do Estado Islâmico (EI) na Síria, encontram-se em campos de prisioneiros (muitas delas com suas crianças). Após terem sido detidas pelos curdos, fazem greve de fome para que sejam repatriadas. O governo francês, por sua vez, está negando a repatriação, pois elas teriam cometido um crime contra a França ao aliarem-se ao EI, autores dos atentados do Charlie Hebdo e do Bataclan, entre outros cometidos no país.

Trata-se de uma questão muito complexa, que exige um aprofundamento que não temos condições de fazer neste curto espaço. No que concerne o filme, é bastante perturbador perceber as táticas de manipulação e encantamento que são utilizadas para que essas mulheres se convertam ao Islã, comecem a vestir uma burca que só deixa os olhos à mostra e abandonem suas casas e suas famílias para casarem-se na Síria com esses combatentes do EI. É interessante, também, a relação das mães com essas meninas, a incredulidade e o sofrimento de não entender como chegaram a tal ponto.

Ambos o filme e a série, retratam de forma muito delicada o universo feminino dentro desses dois contextos. Mostram, também, um lado desconhecido do Islã para a maior parte das pessoas ao apresentar personagens que não representam o radicalismo caricato, que é o que mais se vê na mídia e em tantos outros filmes e séries ocidentais. O que demonstra a importância de se buscar informação sob a perspectiva da mulher muçulmana ainda tão pouco difundido.

Esta é a questão mais premente no debate público aqui na França, tanto que a grande maioria dos filmes produzidos nos últimos tempos tem sido sobre este assunto. No entanto, o discurso político dominante tem sido marcado por uma espécie de fundamentalismo laico que reduz a mulher muçulmana ao véu, ao papel de oprimida, que precisa ser salva pelos valores republicanos sem ouvir as demandas reais destas mulheres. Além de disso, tal discurso esconde uma islamofobia e xenofobia crescentes e alimentados pela extrema-direita francesa, que acusa os representantes da esquerda, que chamam a atenção para a defesa dos direitos dos muçulmanos e muçulmanas, de “islamo-gauchismo” (islamo-esquerdismo).

O feminismo islâmico, por sua vez, segundo Clarissa de Franco, utiliza o véu como símbolo de resistência e de defesa de “sua religião, atacando justamente os olhares e as construções culturais sobre a mesma. Tal resistência cria um processo de defesa identitária importante e visível, no qual ser muçulmana, ser mulher e ser feminista exigem do restante do mundo um reconhecimento sobre os modelos binaristas, preconceituosos e ignorantes sobre o qual se têm estabelecido os olhares acerca do universo das mulheres islâmicas. Enfim, as mulheres mulçumanas não precisam ser salvas pelo Ocidente.” (FRANCO, 2017).

Concordamos com a autora, mas acrescentaríamos que o ocidente precisa ouvir essas mulheres e aí está a importância do diálogo e, mais ainda, da escuta no diálogo. A produção audiovisual em torno do assunto tem um papel importante neste processo e o filme e a série acima mencionados dão um gostinho de quero mais. Fica a dica.

Nota

[1] Para assuntos relativos ao Islã, recomendo os trabalhos da Profa. Dra. Patrícia Prado, da Profa. Dra. Francirosy Campos Batbosa e do Me. Atilla Kus.

Referências

AYAD, Christophe. Pressions sur Emmanuel Macron pour rapatrier en France les femmes et enfants de djihadistes détenus en Syrie. Le Monde, 01 mar. 2021. Disponível em: https://www.lemonde.fr/societe/article/2021/03/01/malgre-les-pressions-emmanuel-macron-refuse-toujours-de-rapatrier-les-femmes-djihadistes-et-leurs-enfants-detenus-par-les-kurdes-en-syrie_6071517_3224.html

BARBOSA, Francirosy Campos. Mulheres muçulmanas superando o colonialismo e o patriarcado. Instituto da Cultura Árabe, 21 nov. 2018. Disponível em: https://icarabe.org/node/3497

FRANCO, Clarissa. Feminismo islâmico: uma consciência emergente de gênero em negociação e resistência à laicização. Instituto da Cultura Árabe, 9 jul. 2017. Disponível em: https://icarabe.org/mulher/artigo-feminismo-islamico-uma-consciencia-emergente-de-genero-em-negociacao-e-resistencia

DÁDHEMAR, Margaux. « Nous voulions être dans une terre où on applique sa religion» : témoignages de femmes djihadistes. Le Figaro, 16 jan. 2020. Disponível em: https://www.lefigaro.fr/international/nous-voulions-etre-dans-une-terre-ou-on-applique-sa-religion-temoignages-de-femmes-djihadistes-20200116

Netflix

TERRIENES, Liliane Charrier. Les revenantes : ces femmes djihadistes rapatriées en Europe

TV5, 5 jan. 2021. Disponível em:  https://information.tv5monde.com/terriennes/les-revenantes-ces-femmes-djihadistes-rapatriees-en-europe-388808

SEJA ASSINANTE APOIADOR(A): Apoie a produção de conteúdo gratuito

APOIE A SENSO