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Xamanismo e Pajelança nas práticas ritualísticas indígenas

Xamanismo e Pajelança nas práticas ritualísticas indígenas

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Ao escrever estas linhas ensaísticas acerca do xamanismo, sinto-me inicialmente compelido a dizer que falo de um lugar plural, heterodoxo, um lugar em movimento, que talvez seja melhor dizer que falo de um entre-lugar, no qual estou me (re)fazendo constantemente na arte de ser e de viver. Neste sentido, falo desse entre-lugar de minha experiência xamânica indígena, que vem se constituindo dinamicamente no cotidiano. Minha prática xamânica bebe de diversas fontes: das tradições indígenas de diferentes etnias, da pajelança dos(as) anciãos(ãs) indígenas de meu povo Potiguara, das rezadeiras e rezadores da religiosidade popular, dos raizeiros e raizeiras, de práticas terapêuticas indianas e orientais e dos saberes e sentires do povo, que faz as culturas populares como um grande tecido costurado com os retalhos da memória, da história, da mitologia e das poéticas multicolores da oralidade.

Em virtude da aproximação de práticas míticas, simbólicas e ritualísticas entre as práticas do pajé e do xamã, interpreto seus papeis espirituais no seio da comunidade como sinônimos. E como não há sinônimos perfeitos, nem no campo da sinonímia lexical, isto é, na substituição de um termo por outro semelhante, tenho a liberdade de realizar uma hermenêutica simbólica dos usos culturais dos termos, tanto naquilo que é dito pelos sujeitos da cultura quanto pelo que não é dito. Assim, menciono os signos xamã e pajé, xamanismo e pajelança como sinônimos.

O xamanismo não é afirmado explicitamente no discurso cotidiano dos parentes indígenas Potiguara, tanto por aqueles que praticam a pajelança quanto por aqueles que buscam ou vivenciam os rituais dos(as) pajés. No entanto, pode-se evidenciar elementos simbólicos do xamanismo nas práticas ritualísticas dos(as) pajés Potiguara, sem a pretensão de homogeneizar os fenômenos xamânicos, mas considerando a diversidade simbólica e ritualística no cotidiano do fazer cultural desses(as) pajés.

O xamanismo é uma vivência simbólica plural e multifacetada, na qual se entrecruzam ou se entrelaçam tradições culturais e espiritualistas diversas. Assim, existem práticas xamânicas de tradições orientais, de tradições indígenas etc. Davi Kopenawa é um belo exemplo de vivência do xamanismo indígena, na sua cultura do povo Yanomami, ecoando a profecia do cuidado planetário, tanto para a preservação das florestas e da biodiversidade com a qual seu povo convive na Amazônia, quanto da biodiversidade de nossa casa comum – a Mãe Terra. Eis as palavras de nosso parente xamã Yanomami:

A floresta está viva. Só vai morrer se os brancos insistirem em destruí-la. Se conseguirem, os rios vão desaparecer debaixo da terra, o chão vai se desfazer, as árvores vão murchar e as pedras vão rachar no calor. A terra ressecada ficará vazia e silenciosa. Os espíritos xapiri, que descem das montanhas para brincar na floresta em seus espelhos, fugirão para muito longe. Seus pais, os xamãs, não poderão mais chamá-los e fazê-los dançar para nos proteger. Não serão capazes de espantar as fumaças de epidemia que nos devoram. Não conseguirão mais conter os seres maléficos, que transformarão a floresta num caos. Então morreremos, um atrás do outro, tanto os brancos quanto nós. Todos os xamãs vão acabar morrendo. Quando não houver mais nenhum deles vivo para sustentar o céu, ele vai desabar (KOPENAWA)

O que é, afinal, um xamã? É um curandeiro, um poeta, um artista, um amante da Mãe Terra, da Natureza, dos animais, das plantas. O xamã é alguém que sabe manipular as energias da Natureza, para curar, para cuidar, para restaurar a comunhão do ser humano com todas as formas de vida que compõem a biodiversidade de nossa grande Aldeia Planetária – Pacha Mama (nossa Mãe Terra).

Dialogo com a seguinte definição elaborada por Mircea Eliade (2002):

[…] o xamã é, ele também, um mago e um medicine-man: a ele se atribui a competência de curar, como aos médicos, assim como a de operar milagres extraordinários, como ocorre com todos os magos, primitivos e modernos. Mas, além disso, ele é psicopompo e pode ainda ser sacerdote, místico e poeta.

Permito-me falar da singularidade de meu lugar existencial de espiritualidade, que bebe da espiritualidade ancestral de meu povo e de outros povos indígenas. Desse modo, falo de xamanismo a partir de minhas próprias vivências, tornando este texto uma escrita de mim, no diálogo com a coletividade de meu povo. Identifico-me, pois, como um poeta xamã, um “monge ativista” ecumênico xamã, uma identidade plural que bebe de muitas fontes, que verte por múltiplas correntezas, que trilha por veredas de matas diversas…

Como me descobri um xamã? Venho me descobrindo e redescobrindo a cada dia… Descubro-me cotidianamente, às vezes me encobrindo… às vezes me redescobrindo… movimento dialético, complexo de um viver que busca o compartilhamento e integração constante com todas as formas de vida do planeta.

Como digo em dois de meus poemas: “Sou um poeta xamã do Bem Viver!”; “Meu xamanismo é liberdade, é poeticidade”. Neste sentido, fui chamado pelo Universo, junto com outros(as) parentes que se identificam com a espiritualidade, a reativar o xamanismo ancestral neste chão das aldeias Potiguaras, partindo do espaço sagrado da Oca do Bem Viver, espaço terapêutico e xamânico que criei e no qual realizo atendimentos terapêuticos e rituais xamânicos, dentre estes rituais a Celebração Xamânica da Lua Cheia, na qual dançamos o toré, tomamos a Jurema Sagrada, bebida ancestral de nosso povo, além de dançarmos ciranda, coco de roda e outras danças que a criatividade espiritualística nos inspirar. Também durante esta celebração, vivenciamos outras experiências de mergulho na cultura ancestral indígena, como a prática de contar histórias em volta da fogueira, assar peixe, macaxeira e batata na fogueira, rememorando ritualisticamente a preparação das comidas pelos nossos ancestrais indígenas. Esta celebração xamânica é realizada uma vez por mês e/ou com as variações temporais que a intuição nos proporciona criar e recriar os momentos ritualísticos.

Conforme Eliade (2002):

O xamã “consegue comunicar-se com os mortos, os ‘demônios’ e com os ‘espíritos da Natureza’ […] encontram-se, isoladamente certos elementos xamânicos em diversas formas de magia e de religião arcaica […] Os xamãs são ‘eleitos’ e, como tais, têm acesso a uma zona do sagrado inacessível aos outros membros da comunidade.

O xamã recebe mensagens das forças da Natureza. Os animais, as plantas, os quatro elementos da Natureza lhe comunicam suas mensagens, que são acessadas pela força da intuição, o sexto sentido, o qual é simbolizado no terceiro olho que está acima dos olhos físicos, na fronte.

Neste sentido, o xamã trabalha ritualisticamente com a força dos quatro elementos da Natureza, os quais se constituem, no xamanismo indígena, como elementos simbólicos, utilizados como uma chave para a realização de rituais diversos.

O elemento fogo, o qual constitui-se como a primeira tecnologia do ser humano, nas mais diversas culturas ancestrais, é utilizado com frequência em rituais indígenas de pajelança Potiguara (seja na forma de uma fogueira, na forma de um defumador com ervas aromáticas em um fogareiro ou na forma da fumaça de um cachimbo). Dançamos toré em volta de uma fogueira sagrada, saudando todas as forças da Natureza, saudando a força de nossa ancestralidade indígena, saudando a Tupã, os encantados e encantadas (caboclos e caboclas). Em torno do fogo sagrado, unimos a luz das chamas à luz de nosso olhar em celebração com a luz das estrelas e da lua; e afirmamos ritualisticamente: “Somos parte da luz divina do Universo…”.

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O elemento terra é fundamental em nossa cultura indígena. A terra é nossa mãe. Nós indígenas a chamamos de Mãe Terra (Pacha Mama). É da Mãe Terra que nos vem os alimentos e os remédios das plantas. Em nosso xamanismo indígena, celebramos a Mãe Terra e nossa conexão com ela. Os cachorros são animais de poder no xamanismo que nos ajudam a conectarmos com a Mãe Terra. Eles expressam nossa ligação simbólica e simbiótica com a Mãe Terra. Quando eles se deitam confiantes e entregues no chão sagrado da Mãe Terra, estão nos ensinando a imitá-los nessa experiência de comunhão, de nos sentidos amparados no regaço de Pacha Mama.

O elemento água está nas águas de nossos rios, de nossas cacimbas, de nosso mar sagrado. As águas que constituem nosso corpo são as mesmas águas presentes na biodiversidade do planeta. Em nossa tradição indígena Potiguara, muitos anciãos(ãs) chamam a mãe do rio de Yara, ou cabocla Yara; e se referem à mãe do mar como a Mãe das Águas ou a Sereia do Mar. São duas divindades que se complementam, guardadoras das forças cósmicas (rio e mar), que saudamos em nossas celebrações xamânicas, em nossas pajelanças com os parentes indígenas. O elemento ar está ligado às matas, de onde nos vem o fluido universal, que adentra nossa respiração. É o espírito da mata, o sopro de vida…

Por mais que se busque democratizar o acesso aos conhecimentos, por meio da difusão científica, na forma de artigos, de ensaios e outras produções acadêmicas, até para dar visibilidade às culturas tradicionais de resistência, é imprescindível lembrar o ensinamento dos(as) mais velhos(as) de nossa ancestralidade de que nem tudo pode ser dito a todas as pessoas ou revelado em todos os momentos. O segredo constitui o universo do sagrado, como nos ensinam as rezadeiras e rezadores, como nos ensinam nossos(as) pajés anciãos(ãs). Neste sentido, aprendo muito de minhas vivências xamânicas e de pajelanças com a Pajé De Fátima, nossa pajé anciã da Aldeia São Francisco, que menciona com grande sabedoria para nós um ensinamento acerca da espiritualidade indígena: “Tupã, o tempo e o silêncio”. Por isso, é preciso que a academia, que muitas vezes é invasiva às nossas tradições culturais ancestrais, aprenda a respeitar nosso tempo de silêncio, nossos segredos sagrados culturais indígenas.

Assim como expressa a banda de reggae Gaia Piá, no trabalho musical Caminho de volta: “Reflorestando todo este planeta”, é este nosso grito poético-profético xamânico indígena: Reflorestar o planeta! Reflorestar de múltiplas formas, seja plantando mudas, seja deixando as mudas nativas pequeninas crescerem na liberdade de nossa co-existência cósmica. Nossos rituais de pajelança e xamanismo são, portanto, para cuidar da totalidade da vida, lutando contra o capitalismo predador e instaurando formas cada vez mais recíprocas e comunitárias de convivência e cuidado entre a biodiversidade planetária, dentro desse sistema filosófico das culturas indígenas chamado BEM VIVER.


Referências

KOPENAWA, Davi; ALBERT, Bruce. A queda do céu: palavras de um xamã yanomami. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

ELIADE, Mircea. O Xamanismo e as Técnicas Arcaicas do Êxtase. Tradução: Betriz Perrone-Moisés; Ivone Castilho Benedetti. São Paulo: Martins Fontes, 2002.

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