A encruzilhada é o lugar do encontro

A encruzilhada é o lugar do encontro
Thiago Teixeira 21 de janeiro de 2020

A liberdade é um dos temas que mais inquieta filósofas e filósofos. A sua realidade parece ser algo tangível, mas, ao mesmo tempo, difícil de explicar. Essa dificuldade nos coloca em situações difíceis e em confusões que custam caro para os que, de algum modo, são tocados pelo desejo autocentrado das pessoas que manipulam o mundo a seu favor. Por vezes, as ações livres são confundidas como as formas de dar vasão aos interesses mais hostis e singulares dos sujeitos e dos seus grupos, de suas bolhas. Assim, o discurso sobre a liberdade camufla ondas de destruição que chegam até nós. Esse borrão nas intenções e nas ações faz com que a violência ocupe o lugar das nossas consciências, ações e percepções.

Nessa confusão, isto é, da violência enquanto liberdade, percebemos que as “técnicas de colonização”, segundo Mbembe em seu texto Necropolítica,  se ampliam. Assim, o sujeito que percebe a si como legítimo suplanta a existência do outro, pois requisita para esse outro um estado permanente de morte.

O sujeito que enxerga a si mesmo como legítimo, livre e vivo intensifica a suas forças contra o outro e, mais, anuncia a sua ação “livre” — confusa, pois se trata de violência — orientada ao extermínio do que é diferente. As técnicas anunciadas por Mbembe retratam o desejo incessante dos que se consideram vida para manter os campos simbólicos, epistêmicos e transcendentes, sob o seu controle. A construção do outro como inimigo absoluto mantém essa lógica de devastação, isto é, se eu percebo que o que me escapa é constantemente anunciado como o diferente, a “solução final” é aniquilá-lo.

Horst Schwalm por Pixabay

Esses sujeitos que manipulam a realidade a seu favor, consideram que ter  liberdade é imputar ao outro, o seu desejo. Segundo o Byung-Chul Han, em seu texto O que é o poder? essa métrica da ação serve ao “poder de continuidade”, isto é, o efeito que surge quando um sujeito cria no outro a extensão do seu desejo. Esse sujeito receptor pode, em muitos casos, acreditar que ao reproduzir os interesses do poderoso se beneficia, mas, é possível considerar que essa reprodução será, para ele mesmo, uma conduta de autoflagelo, de aniquilação.

Nessa lógica, isto é, do agente de poder que constantemente relativiza o outro, nós somos livres, à medida que impomos ao outro a nossa vontade e ele se curva aos nossos interesses centralizados numa legitimidade construída, a partir dos dispositivos de manutenção o poder que se materializam nas nossas relações mais cotidianas: discurso, mídia, religião, normas etc.

Nesse contexto, a liberdade se confunde — de modo significativo —, como a violência. O ato de borrar a ação livre, tornando-a uma expressão de monopólio do discurso, do afeto, da crença e da possibilidade de existir, faz com que cada vez mais ingressemos num tempo do “desmoronamento da alteridade”, segundo Mbembe.

Enquanto um dos alicerces da discussão ética, ou seja, como fio condutor da alteração dos valores e das perspectivas sobre nós mesmos, dos sentidos que nos impulsionam e da nossa relação com os outros, a liberdade não se modula no desejo desenfreado por si, ou pela realização plena do nossos interesses mais singulares. Ao contrário, uma ação livre, nas discussões Éticas, está permeada pela responsabilidade.

Nas discussões sobre o diálogo inter-religioso devemos nos ater, entre outros fatores, a dois pressupostos que apresentamos no Livro Inflexões éticas, publicado pela Editora Senso: o diálogo e o cuidado. Romper com os monólogos significa se abrir ao que nos escapa, não rumo à perda de si mesmo, mas como manifestação do encontro, uma vez que dialogar pressupõe novos “pactos de humanidade” e o alargamento das nossas percepções, pois o outro anuncia quem ele é. O cuidado, como disposição política, faz com que nos percebamos responsáveis uns pelos outros, mesmo que partamos de lugares, de percepções e de crenças diferentes.

O diálogo aparece nas religiões de matrizes africanas como uma de suas  forças estruturantes, visto que toda a sua economia passa pelo aprendizado e pela hierarquia. É preciso, nesse contexto, se abrir ao outro e, ao mesmo tempo, perceber que, naquela dinâmica, ambos são sujeitos. Assim, o axé, “força que produz conhecimento” segundo Odé Kileuy e Vera de Oxeguiã, faz com que os sujeitos se percebem parte ativa de uma comunidade. Nesse dia 21, dia de promover o respeito, a tolerância e o diálogo inter-religioso, nós saudamos a Exú. Divindade vilipendiada pela ignorância e pelo desejo incessante de ler o outro a partir de si, mas que como um bom mensageiro do equilíbrio, nos traz o axé e nos convida ao movimento rumo à novos elos, mais ciosos do cuidado e não da destruição. Nesses termos, a encruzilhada aparece como uma solução, pois ali nos olhamos, não nos perdemos ou nos diluímos. Na encruzilhada nós nos encontramos!