Do que a boca fala o coração transborda num Brasil de maldades

Do que a boca fala o coração transborda num Brasil de maldades
Flávio Lages Rodrigues 6 de dezembro de 2019

Foto: Rebeca Paz

Vivemos atualmente um período ou um tempo de muitas “falas”, “discursos”, “ideologias”, que não permitem nenhuma margem de dúvida ou mesmo o mínimo de incerteza. Infelizmente, o que vemos são muitas pessoas que se apresentam como   especialistas em inúmeras áreas do conhecimento, e propagam uma onda de “certezas”, não abrindo a possibilidade para qualquer dúvida e dessa forma, essas pessoas se tornam “formadores” de opinião, com suas “normas”, “fundamentos” e por que não dizer com seus “dogmas”. Observamos discursos de autoritarismo e obediência cega, que propagam discursos de ódio e intolerância, nas mais diversas áreas como a social, política, econômica, cultural e também a religiosa. Como mostrado pelo apóstolo Paulo, sobre discursos que não edificam as pessoas e tão pouco, geram qualquer coisa que seja boa. “Cuja boca está cheia de maldição e amargura.” (Romanos 3, 14).

Na busca cada vez crescente por poder, muitas pessoas se perdem, ou seja, perdem o sentido da vida, e se tornam cada vez mais embrutecidas, insensíveis e se desligam uma das outras, no convívio social e em sua ligação com a natureza e com toda a criação. Sem uma ligação com o próximo, em nossos relacionamentos pessoais e interpessoais e com a criação, por mais que nós tentemos discursar sobre Deus ou sobre as Suas obras, não conseguiremos fazê-lo sem o outro. Como mostrado pelo Teólogo alemão Jürgen Molttman em sua obra “O Espírito da vida”.

Manifestamente um homem não pode encontrar-se ou fixar-se em si mesmo sem se dividir ou se dissolver. Pode parecer paradoxal, mas é verdadeiro: Só aquele que sai de si é que consegue chegar a si. Só nos outros é que encontramos o que nos é próprio. É impossível ao homem dizer: “Eu sou o que sou”, pois ele não é Deus. Dizemos: “Eu sou, porque tu és; tu és, porque eu sou”, pois como seres humanos dependemos dos outros seres humanos, e como criaturas dependemos das outras criaturas. (MOLTMANN, 1998, p. 36).

Nesse aspecto, o cultivo ou mesmo a Cultura do Encontro, que se estabelecerá como ponte, em uma construção diária, no amor e no respeito por todos os seres humanos e não apenas pela humanidade, mas por toda a criação.

1 Abertura para outras formas de pensamento na atualidade

Atualmente, vivemos um tempo em que muitas pessoas falam que são tempos difíceis, mas o que vemos não é que se trata de um tempo difícil, pois o tempo em si não traz nenhum fator que possamos normatizá-lo, ou mesmo chegar ao extremo de santificá-lo ou demonizá-lo. O que vemos é a produção no contexto atual, de falas e discursos de ódio e intolerância, que destroem as pessoas, e são os componentes que ganham força, para produzir todo tipo de extremos e polarizações. Dessa forma, não é o tempo que tem o poder de destruição, mas a palavra. “O homem bom tira coisas boas do bom tesouro que está em seu coração, e o homem mau tira coisas más do mal que está em seu coração, porque a sua boca fala do que está cheio o coração”. (Lucas 6, 45).

Vivemos um momento que para muitos se traduz como modernidade, para outros estamos na contemporaneidade e ainda temos os que acham que vivemos o período da pós-modernidade. Atentaremos em nossa reflexão para nortear a discussão com o pensamento pós-moderno[1], no qual nada pode ser apresentado como fechado, acabado, ou ainda absoluto. Sendo assim epistemologicamente, devemos construir nossas próprias convicções, como mostrado pelo epistemólogo catalão Marià Corbí em sua obra “Religión sin religión”, no qual apresenta uma sociedade que cada vez mais “dinâmica, tecnológica e de conhecimento”.

Ainda de acordo com Corbí, nessas sociedades há um afastamento da imposição e coerção próprias das sociedades pré-industriais. Nessas sociedades, o mundo se estruturava, através das narrações mitológicas e metáforas centrais, que se estabeleciam a partir da ação laboral principal, fundamentada na tradição dos antepassados, ou seja, dos povos que viviam da caça, coleta, agricultura de subsistência e de irrigação e também da pecuária. Essa fundamentação nas narrações mitológicas, como base para a vida, não ocorria apenas com o trabalho e os benefícios, que eram produzidos através dele, mas permeava toda a cultura, como os costumes, leis, alimentação, organização social e também a religião. Assim, essas narrações mitológicas, encarnavam toda a vida normativa desses povos.

Se as sociedades pré-industriais se fundamentavam pela imposição e coerção, as sociedades dinâmicas, tecnológicas e de conhecimento se estabelecem não mais pela coerção ou imposição, mas pela cooperação, no qual não cabe mais nenhum tipo de imposição. Nem mesmo é possível a imposição para a partilha do conhecimento que é produzido pelos grupos dessas sociedades dinâmicas, no qual a liberdade se estabelece como base para o estabelecimento desse tipo de sociedade.

1.1 Pluralidade de pensamento pode não se traduzir em liberdade de vida no Brasil

Podemos ver que no tempo atual, como falamos anteriormente, não cabe certos tipos de julgamentos, seja por atos, ações, ideologias ou qualquer prática, que se apresente de forma acabada, fechada e absoluta. Isso não quer dizer que as pessoas ou grupos não tentem impor suas verdades, como padrão a ser seguido por outras pessoas. Infelizmente, em muitos desses casos, isso é feito como forma de dominação e cerceamento à liberdade, o que não contribui para a formação do senso crítico e para a construção de um pensamento autônomo e libertário das pessoas.

Esses grupos espalham inúmeras Fake News, que circulam de forma cada vez mais crescente, o que piora com o uso das redes sociais, como um lugar que se transforma em uma terra sem lei, no qual tudo vale nessa disputa por poder e para destruir o próximo, seja emocionalmente, moralmente, fisicamente ou espiritualmente. Esses grupos com essas leituras fechadas, pregam o ódio e a intolerância, a tudo que se apresente de forma contrária ou diferente do modo de pensar proposto por eles. Há uma repulsa à diversidade e pluralidade nas suas mais variadas manifestações culturais, políticas, econômicas, sociais, culturais e principalmente religiosas. Como observamos no Brasil nas eleições para presidente em 2018.

O sociólogo francês Michel Maffesoli em sua obra “O tempo das tribos”, mostra essa tensão cultural que ocorre dentro da própria cultura. A cultura, para Maffesoli, é um conceito dual. E ainda, de acordo com ele, existem duas culturas, uma dentro da outra.  Ele apontou para os “proprietários da sociedade” sendo os que têm o poder de dizer o que fazer e são o “poder instituído”, nas diversas formas, ou seja, política, cultural, religiosa, social e econômica.

O “poder instituído” na sua visão é o que toma as decisões longe da vida cotidiana e, assim, da realidade da maioria da população. Nesse aspecto, essas pessoas que usam o poder que as redes sociais proporcionam, não diferem em nada dos que têm o poder econômico, ambos estão longe da realidade do chão da vida, onde as coisas realmente acontecem. O perigo desse grupo está justamente na utilização das redes sociais, como uma sobreposição à realidade e o que temos visto é que embora, até pouco tempo atrás esses grupos não existissem, eles têm ganhado força e têm crescido muito. O que piora ainda mais, com o compartilhamento dessas Fake News, que são produzidas e difundidas por pessoas que acreditam nessas “informações” e acabam difundido e compartilhando ainda mais tais mensagens.

Por outro lado, Maffesoli também mostra a vida selvagem, anômica e desordenada, como a “potência instituinte”. Esta última proporciona o tribalismo, pela sua fragmentação em redes de socialização e pelo inconformismo ao que é ditado pelo “poder instituído” como padrão cultural para a grande massa de pessoas. Aqui podemos observar nos mais variados grupos que se socializam nessas tribos, a diversidade e pluralidade proporcionada pela cultura dos iguais, com os mesmos gostos, sentimentos de pertencimento, e o ombro a ombro que é produzido nas bases da vida, no olho no olho e no chão da vida, próprios dessa força da “potência instituinte”.

1.2 Liberdade de pensamento requer responsabilidade

Portanto, o que vemos no Brasil atualmente, não é tão simples a ponto de pensar ou achar que o problema está apenas no fato das pessoas estarem lendo e acreditando em coisas absurdas que são produzidas como Fake News nas redes sociais. Essas “notícias” ou leituras são muito obtusas, são espalhadas de forma indiscriminadas, são verdadeiras cortinas de fumaça, mas que infelizmente muitas pessoas acreditam e podemos vê-las em histórias de que vacinas não são eficazes e assim não são necessárias, de que a terra é plana, que o nazismo é de esquerda, que o MEC distribuiu o kit gay nas escolas públicas brasileiras, que iríamos achar para comprar mamadeiras de piroca em cada farmácia da esquina, que comer ovo faz mal para a saúde, que realmente pode existir uma escola sem partido, que o PT fecharia igrejas evangélicas, entre outros absurdos que são disseminados constantemente nas redes sociais.

Lembramos que essas Fake News podem vir de qualquer lado, na política ela pode ocorrer tanto na direita, quanto na esquerda. Na economia ela pode gerar especulações que atendam ao mercado, as organizações e grandes grupos capitalizados, ou mesmo pode acirrar conflitos sociais com a aporofobia. Também pode ocorrer na cultura com conflitos internos que são gerados pelo discurso xenofóbico a determinados grupos, tribos, raças e etnias. Isso pode ser agravado ainda mais como no caso do Brasil que é formado por grande diversidade e pluralidade de culturas e raças de povos de outros continentes. Ao nosso ver, o mais danoso é quando essas Fake News, brotam da religião e em especial no contexto cristão/católico/protestante, sendo este último o meu lugar de fala. Observo nas redes sociais inúmeras notícias, reportagens, informações, discussões e falas de pessoas que são declaradamente cristãs, mas que não tem o menor pudor em produzir ou reproduzir a propagação de mentiras, apenas pelo prazer de destruir o próximo. Algo que começa pela divergência ou pelo ponto de vista diferente, que passa por visões ideológicas distintas e acaba se tornando a centelha para ataques pessoais, brigas, confrontos, guerras e toda forma de desumanização. Qualquer que seja o discurso de ódio, ele gera danos irreparáveis com conflitos, mortes, dor e muito sofrimento para toda a sociedade.

O contexto brasileiro atual, tem sido ainda mais fértil para polarizações depois das eleições de 2018. As pessoas têm sido até mesmo incentivadas por falas e ações de políticos eleitos na última eleição, que atacam as pessoas moralmente, emocionalmente, virtualmente, espiritualmente e fisicamente. Isso tem se espalhado por toda a sociedade, com a violência contra mulheres, negros, pobres, índios e outros grupos que ficam reféns de todo tipo de violência e violação de seus direitos, no qual há uma crescente banalização da vida humana.  Ao nosso ver, o contexto atual fomenta “que a boca fale do que o coração está cheio” (Lucas 6, 45), pois as pessoas têm colocado para fora, tudo que estava guardado no coração e que até o ano de 2017, não tinham a coragem ou meios para fazê-lo. Inclusive, nas redes sociais, na política, na cultura e principalmente na religião, no qual o ódio e a intolerância, para esses grupos também se justifica com o poder político/religioso ou religioso/político. Mesmo sabendo que essas pouquíssimas igrejas, que se aliam ao poder político não representam o universo Protestante, Evangélico, Pentecostal e Neopentecostal. Muitas pessoas no Brasil, imaginam que essas igrejas que estão nessa via de mão dupla com o poder político, realmente possam estar representando todo o universo dos chamados “crentes” na tomada de decisões para todos os cidadãos do país, o que na realidade não ocorre.

Referências

BÍBLIA Sagrada Revista e Corrigida. São Paulo: SBB, 2013.
CORBÍ, Marià. Religión sin religión. Madrid: PPC, 1996. Disponível em http://cetr.net/es/religion_sin_religion_2/ Acesso em 19 out. 2019.
MAFFESOLI, Michel. O tempo das tribos: o declínio do individualismo nas sociedades de massa. 4. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2010.
MOLTAMANN, Jürgen. O espírito da vida: uma pneumatologia integral. Petrópolis: Vozes, 1998.[1] Para Maffesoli (2010, p. 03), o tribalismo pós-moderno se amplia e recria novos modos de vida cada vez mais vivos e orgânicos. “O quotidiano e seus rituais, as emoções e paixões coletivas, simbolizadas pelo hedonismo de Dionísio, a importância do corpo em espetáculo e do gozo contemplativo, a revivescência do nomadismo contemporâneo, eis aqui o que acompanha o tribalismo pós-moderno.”