Religião, Famílias e Diversidade Sexual e de Gênero

Religião, Famílias e Diversidade Sexual e de Gênero
25 de setembro de 2019 Saulo Amorim

Religião, Famílias e Diversidade Sexual e de Gênero

Saulo Amorim

A sexualidade não é somente um aspecto comportamental ou dado biológico. Como parte intrínseca da natureza, ela se desenvolveu no tempo e acompanhou os fluxos da história da humanidade. Os grupamentos humanos mais primitivos perceberam sua energia potencial e dela se utilizaram não somente para a procriação, mas também para integração social, conexão com o transcendente e elemento de ritualística.

Creditos Twitter David Miranda

Ao longo do tempo, a raça humana se reencontrou em suas particularidades, miscigenou e sincretizou sem deixar de ser única. Marcados pela identificação de etnias, culturas e credos, os seres humanos mantiveram-se gregários, protegidos nos menores núcleos familiares e pelas grandes nações. Gênero, identidade social e orientação sexual foram questões observadas e vivenciadas de forma bastante particularizada em cada canto do planeta e momento da história.

Os laços de identificação consolidaram a familiaridade. Da disposição para o desenvolvimento de um projeto de vida, surgiram os pactos de convivência, tácitos ou socialmente reconhecidos, abençoados por sacramentos ou fáticos e profanos. As famílias se estabeleceram com o compromisso de solidariedade e se protraíram com ou sem vínculos genéticos.

Cumprindo o papel de composição dos saberes e de representação da experiência humana, as religiões sedimentaram esses arranjos. As famílias receberam identidade e função à luz da fé. Uma ética sexual foi progressivamente estabelecida para garantir os legados, as dinastias e a honra.

Em muitos aspectos, as práticas sexuais foram categorizadas. Na perspectiva do biologismo da sucessão, algumas foram declaradas supérfluas, equivocadas ou meios de distanciamento do sagrado. A depender da profundidade e do rigor do cerceamento, o prazer sexual era condenado, por interferir nas searas da descendência, do patrimônio e até mesmo da seleção genética da coletividade, prejudiciais aos modelos morais de status quo, ofensivas à honra dos viventes e à memória dos antepassados.

Para além da questão sexual, as religiões sempre exerceram influência ideológica sobre o comportamento e sobre a compreensão das relações humanas no contexto do tecido social, verdadeiro controle político, por meio de dogmas e códigos morais. A imersão das religiões no poder concedido pela política institucional inaugurou um novo momento para algumas sociedades.

Estados nacionais se estabeleceram abertamente teocráticos, outros democráticos e laicos (ao menos em tese). Na laicidade, convencionou-se que todos as crenças seriam chamadas a conviver em harmonia. Por meio dessa condição principiológica e ética, ainda que percentualmente predominante na população, não poderia um grupo pretender sufocar os demais, muito menos incomodar as negativas dos agnósticos e dos ateus. Em uma nação, em que todos realmente têm voz e vez, não há nada que esteja acima, nem abaixo de qualquer pessoa, seja uma ideologia, uma filosofia ou um deus. Se todos se enxergam como iguais, a prática, a vivência e a experiência do próximo são tão sagradas quanto a própria.

As matrizes patriarcais monoteístas foram expoentes no que tange a resistência na reflexão sobre sexualidade e gênero no ocidente. No Brasil, os direcionamentos do fundamentalismo cristão (católico, protestante e pentecostal) cada vez mais se evidenciam no fazer social e nos ambientes de política institucional. Apesar da laicidade conquistada desde a primeira constituição republicana em 1891, a ingerência da moral cristã é permanente na construção das normas e na composição dos Poderes Legislativo e Executivo, com inevitáveis reflexos na evolução dos direitos e na condução das estruturas de governo.

A herança medieval da caçada aos hereges (aqueles lançados às fogueiras públicas por ousarem destoar dos padrões da normatividade) se torna evidente. Legitimados por uma cultura de desvalimento a tudo que é estranho, muitos se sentem no direito de impor uma determinada visão de mundo a toda sociedade. Como se somente uma palavra fosse verdadeira e devesse ser pregada. Como se não houvesse caminho além do que sua fé alcança. Como se o ápice da própria existência, a felicidade, o nirvana ou a salvação, dependessem de uma ação compulsória sobre as liberdades de outrem.

O hodierno discurso do politicamente correto foi introjetado e a inclusão das diferenças surgiu como medida palatável e aparentemente simpática. Todavia, tal inclusão muitas vezes não se dá em realidade. A abstenção dos prazeres, a ocultação dos corpos e a negação das identidades continuam sendo pregadas aos fiéis. O nobre amor ao próximo é olvidado e o discurso de ódio e rejeição é retirado das escrituras, pelas piores interpretações, de forma desonesta, anacrônica e descontextualizada, de acordo com o literalismo e a conveniência dos intérpretes.

Ora, não é concebível amar alguém em parte ou até certo ponto. Ou o próximo é amado na integridade, em toda a sua essência e natureza, ou não o é. O amor e os laços de afeto e pertencimento, assim como as relações e estruturas familiares, não se formam sob condições. Os pais não amam os filhos porque são estudiosos ou procrastinadores. Os avós amam os netos comportados e os arteiros. Os irmãos devem amar uns aos outros, tenham ou não o mesmo fenótipo, tipo sanguíneo e cor de cabelo.

Quem ama o próximo de verdade, ama independente de quem ele é ou do que faz. A natureza humana não é uma questão de escolha. Assim como a sexualidade não define o caráter, o sexo biológico não define o gênero e a orientação sexual como muitos erroneamente pensam. Quantos heterossexuais seriam capazes de precisar o dia e a hora em que optaram por desenvolver afetos por pessoas de gênero oposto? Da mesma forma, não é razoável supor que pessoas homossexuais tenham decidido de forma diversa.

Desde a juventude, as pessoas gays, lésbicas, bissexuais e pansexuais percebem sua orientação sexual, quem lhes desperta interesse e a quem destinam seus afetos. A conformação biológica das pessoas intersexuais é uma questão marcada pelos cromossomas, pela apresentação dos órgãos ou pela produção hormonal. A identidade e a expressão de gênero, porém, são conquistadas na adequação à psique, da maneira como a pessoa se enxerga e deseja ser vista.

Por certo, as famílias detêm um papel de fundamental importância no desenvolvimento dos indivíduos e na formação da sociedade como um todo. Não há dúvidas de que as experiências vividas desde a primeira infância em casa serão determinantes para todas as relações derivadas. Na escola, na praça ou em qualquer outro lugar o arcabouço moral acompanhará todo indivíduo e fará a diferença positiva, se estiver bem estruturado com os valores da benevolência e o respeito às diferenças.

Noutro sentido, quando a liberdade do pensamento e o estímulo à empatia pela reflexão são vistos como nocivos e o “não-falar” e o “não-perguntar” são naturalizados, trincheiras entre os indivíduos, as famílias e a sociedade são formadas. Os mais prejudicados geralmente são os que detém menor autonomia e autodeterminação. Muitos incapazes, crianças e adolescentes que destoam das expectativas de suas famílias ou da sociedade vivenciam a invisibilidade, deixam de ser enxergados e respeitados em suas individualidades, tratados como tábulas rasas de reprodução das expectativas de seus responsáveis irresolvidos.

As discussões sobre gênero, identidade e sexualidade são insistentemente silenciadas em favor de uma suposta convicção hegemônica. Até a ciência e a educação para o desenvolvimento da sexualidade sadia e respeitosa são questionadas. Os limites entre os espaços público e privado, doméstico e coletivo, confessional e laico são, sumariamente, ignorados. Famílias inteiras se rendem à reprodução do fazer irrefletido, do acreditar sem ver. E, assim, uma vez domesticada a intimidade, está dominado o próprio indivíduo.

Os sofrimentos causados pela sexualidade e pela identidade condenadas, a depressão, o bullying, os abandonos e abusos domésticos, a gravidez precoce, os abortos clandestinos e tantas outras fobias, agressões e violências acabam relativizadas em favor da fé, vistas como circunstanciais, aceitáveis em determinado contexto ou tidas como meras consequências de um desvirtuamento moral. Vítimas que poderiam ter sido salvas pela boa informação, são culpabilizadas por supostamente terem dado causa às suas dores ao se afastarem dos preceitos religiosos e familiares.

A dignidade da pessoa humana nos informa que ninguém deve ser menosprezado por ser quem é. A existência das pessoas LGBTI+ não pretende ser uma provocação ou uma ameaça. Suas famílias não visam excluir as composições normalizadas pelos padrões normativos e morais prevalentes. Quando observadas com empatia, nota-se que suas questões são absurdamente comuns, tais como as vivenciadas por quaisquer outras famílias. Os mesmos dilemas, medos e preocupações; as mesmas alegrias, satisfações e realizações.

Famílias LGBTI+ não são somente aquelas formadas pela união de pessoas que se identificam com as siglas. Há uma confusão conceitual que limita as famílias pela conformação parental com presença dos elementos denominados pai ou mãe. As famílias anaparentais [1], por exemplo, formadas somente por irmãos, são um exemplo de inadequação do conceito.

Uma família não se forma somente quando um casal resolve se unir, ter filhos biológicos ou adotá-los. A realidade é muito mais ampla. Nem toda família se consolida com filhos. Existem casais que não desejam filhos e outras famílias, cujos pais e mães, cisgêneros e heteroafetivos, têm filhos gays ou intersexuais. Assim, é possível dizer que não existe uma família LGBTI+. Existem famílias com pessoas LGBTI+, inúmeras, inegavelmente.

 


NOTAS
[1] Este termo foi criado por Sérgio Rezende de Barros e refere-se às famílias sem a presença de pai(s) e/ou mãe(s). “Ana”, do grego, indica “privação”. Cf. <www.srbarros.com.br>.
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