To Queer or Not To Queer – É possível uma teologia QUEER/LGBTI+?

To Queer or Not To Queer – É possível uma teologia QUEER/LGBTI+?
25 de setembro de 2019 André S. Musskopf

To Queer or Not To Queer – É possível uma teologia QUEER/LGBTI+?

André Sidnei Musskopf

A relação entre questões de gênero e sexualidade e religião e teologia tem sido um tema persistente de debate e contestação recentemente. Ultrapassando as barreiras do silêncio e da invisibilidade que inviabilizavam o próprio debate, encerrando qualquer iniciativa com o carimbo de “é pecado”, vivências religiosas em grupos e igrejas conhecidas como “inclusivas” ou reflexões teológicas em diversos níveis e âmbitos têm forçado o debate, mesmo por parte de quem quer evitá-lo de todas as formas. A marca do carimbo e a tentativa de seguir usando-o indiscriminadamente persiste, mas seu poder de silenciamento já não é tão definitivo ou eficaz.

Esparta Palma

A cruzada recente em relação a tudo que se refere a gênero e sexualidade é uma tentativa de impor o silenciamento às mudanças ocorridas em relação à compreensão dessas questões e suas consequências práticas na vida de indivíduos, de grupos e das estruturas sociais como um todo. A íntima relação dessa cruzada com temas e instituições religiosas é um de seus elementos potencializadores por seu poder e influência em diversos contextos. Perspectivas religiosas e teológicas que lidam explicitamente com essas questões, e as pessoas e grupos que as vivenciam e articulam, têm sido as mais brutalmente atacadas. Estudos feministas e de diversidade sexual e de gênero, bem como teologias feministas e teologias gays, lésbicas e queer são parte desse alvo preferencial.

Precisamente por isso se torna tão fundamental dar visibilidade, discutir, conhecer e se perguntar por essas experiências e teologias, sua viabilidade e suas potenciais contribuições. No campo teológico, mas também no âmbito da prática eclesiástica, desde o século XIX têm emergido e se desenvolvido, particularmente no âmbito cristão, experiências que questionam perspectivas unívocas no que se refere a gênero e sexualidade e que propõe outras formas de compreender e articular essas questões a partir da vivência da fé e de sua articulação em instituições religiosas e construções teológicas. Embora seja um movimento particular e contextual, alinha-se com movimentos e perspectivas que existiram ao longo da história, mas que foram silenciadas e apagadas ou, muitas vezes, sobreviveram na tradição como elementos heréticos e heterodoxos.

As teorias e teologias feministas se articularam no questionamento de uma ordem social e religiosa patriarcal, reivindicando a cidadania política e religiosa das mulheres. Em seu caminhar, a categoria de gênero tornou-se um instrumental de análise dos padrões de identidade e relação que sustentam a desigualdade, a opressão e a violência, construindo alternativas e imaginando novas possibilidades no marco da equidade, igualdade e justiça de gênero. Os estudos e as teologias gays e lésbicas, particularmente a partir da década de 1970 e no contexto dos movimentos e teologias de libertação, questionaram os padrões heteronormativos que definem uma forma específica de heterossexualidade ou uma ideologia heterossexual como norma para todas as pessoas, e colocaram a sexualidade em discussão partindo das experiências e vivências diversas com relação à dimensão da experiência humana.

Todos esses movimentos, reflexões e práticas tanto foram interpelados quanto conduziram a novas articulações a partir da década de 1990 ao redor da categoria teórica e política queer – um termo da língua inglesa que não tem um significado fixo e estável, referindo-se à multiplicidade de identidades e práticas dissidentes dos padrões heteronormativos e heteropatriarcais, não necessariamente catalogáveis nas categorias tradicionais, inclusive nas siglas utilizadas por muitos grupos e movimentos como LGBTI (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais, Transgênero, Intersexuais) [1]. No campo da religião e da teologia, essas novas formulações também representaram um desafio, inclusive para as teologias gays e lésbicas que vinham sendo formuladas com algum resultado em relação à aceitação e inclusão de pessoas homossexuais em determinados círculos religiosos e igrejas [2].

O principal questionamento dos estudos e das teologias queer em relação aos estudos e teologias gays e lésbicas é a normatização e naturalização de identidades, agora numa nova relação binária entre heterossexualidade e homossexualidade, excluindo as questões mais complexas em relação a sexo, gênero e sexualidade. Além disso, coloca essas questões como fundantes para a análise das relações sociais (em termos simbólicos, conceituais, institucionais e subjetivos) e questiona perspectivas opressoras tendo em vista a transformação social. O reconhecimento de determinadas identidades e práticas, em geral dentro de um mesmo marco moral prescritivo, ou a assimilação de pessoas gays e lésbicas dentro de um determinado padrão de comportamento e relacionamento, torna-se libertador para algumas pessoas, mas permanece excludente e limitado em relação a outras, bem como a questões mais profundas das experiências das pessoas e grupos sociais.

Em um artigo publicado na Religious Studies Review no ano 2000, ao discutir os desafios colocados pela Teoria Queer para as teologias gays e lésbicas, Laurel Schneider postulou a seguinte questão:

Teóricos e teóricas queer em religião têm a tarefa de complicar as posições guerreantes sem perder de vista os obstáculos que permanecem para quem ajudariam. (…) Teologia queer precisa ambos do limite crítico que a teoria queer oferece e a inclusão profética que liberacionistas exigem. No final, inclusão total pode significar que nem a homossexualidade nem a norma heterossexual ficará intacta. De fato, é possível que não haja Cristianismo para queers, embora possa haver um Jesus queer (SCHNEIDER, 2000, p. 11).

Esse desafio tem sido encarado por estudiosas, estudiosos e por pessoas e comunidades de fé de diversas maneiras e com diversos resultados nas últimas décadas [3]. Se, por um lado, muitas pessoas se perguntam ainda pela possibilidade de articulação entre a experiência de pessoas que se identificam como gays e lésbicas e a fé cristã, em muitos casos afirmando a sua incompatibilidade, por outro lado também segue a pergunta pela possibilidade de um giro ainda mais radical para os padrões tradicionais que buscaria não apenas reconhecer a viabilidade e validade da identificação e prática de fé de pessoas gays e lésbicas (e bissexuais e trans e intersexuais…) no âmbito do cristianismo, mas repensar os fundamentos da própria tradição herdada, incluindo uma revisão dos textos sagrados e das práticas religiosas sedimentadas e seu lugar na configuração das práticas contemporâneas. As respostas são diversas.

Mesmo assim, ainda que lutando contra as diversas formas de invisibilidade e silenciamento, reflexões e práticas religiosas e teológicas que se associam e se entendem vinculadas a uma perspectiva queer têm sido vivenciadas e produzidas em diferentes contextos. Usando a tipologia de Laurel Schneider, sempre se poderia perguntar até que ponto essas práticas e teologias são “realmente” queer ou até que ponto a sua “queeridade” é comprometida por elementos cristãos (considerados) essencialmente normatizadores. Mas a própria pergunta, em certo sentido, não faria sentido numa perspectiva queer, uma vez que assumir essa perspectiva pressupõe não estabelecer parâmetros normativos sobre o que é ou poderia ser considerado queer “de fato”. Ainda assim, pela própria proposta política e teórica, é possível colocar em discussão questões e perspectivas que se alinham com uma perspectiva queer e quais seguem uma linha mais assimilacionista e conformadora com normas e padrões.

Talvez, um dos elementos mais importantes para se pensar tanto numa avaliação sobre o caráter queer de uma prática religiosa ou de uma reflexão teológica quanto de sua vinculação com uma perspectiva cristã seja justamente a questão da normatização (ortodoxia) e da reivindicação de absoluticidade das proposições religiosas e teológicas. As teologias queer se inserem nas correntes teóricas e políticas que abandonam a perspectiva de verdade última para assumir uma perspectiva dialógica, provisória e sempre aberta a revisões e contestações. Seu ponto de partida e de chegada são as experiências individuais e coletivas vivenciadas em situações e contextos complexos, para as quais qualquer tentativa de resposta única e definitiva se mostra inviável. Essas experiências, numa chave libertadora, são o lugar epistemológico e o critério ético para qualquer reflexão e ação.

A reivindicação de única religião correta e verdadeira do cristianismo num contexto de pluralidade religiosa foi e é um dos principais problemas a ser enfrentado por quem acredita na possibilidade de relações justas e convivência pacífica em sociedade. Em suas versões fundamentalistas, aliadas e promotoras de regimes políticos e econômicos totalitários, igrejas, grupos e teologias se tornam prática violenta contra outras religiões e crenças e mesmo contra determinadas correntes e grupos dentro do próprio cristianismo. Nesse sentido, as teologias queer, juntamente com outras teologias da libertação, representam uma crítica da própria religião que se abstrai da realidade concreta e se esconde em dogmas e doutrinas opressoras às quais a realidade e a vida deve se moldar. Por isso, as teologias queer não apenas são possíveis e viáveis, mas profundamente necessárias.

Como na citação de Laurel Schneider, no entanto, tais teologias permanecerão estranhas a um determinado tipo de teologia dogmática e normativa. Nesse sentido, talvez não sejam reconhecidas como teologias por seu caráter heterodoxo, provisório e cambiável. Tendo como eixo articulador a diversidade sexual e de gênero enquanto práticas “indecentes” (Marcella Althaus-Reid), ou seja, fora da ordem de decência definida em termos heteropatriarcais, classistas e racistas, as teologias queer debruçam-se sobre a materialidade da vida marcada por questões políticas, econômicas, culturais, geográficas e dos mais diversos marcadores de identidade que classificam, hierarquizam e marginalizam aquilo que expressa algum tipo de dissidência sexual.

A principal contribuição e o principal desafio das teologias queer residem, precisamente, na sua reivindicação de uma honestidade epistemológica que não busque escapar da realidade em projeções metafísicas ideais, mas abrace a realidade vivida em sua máxima “crueza”. Para tanto, lidam com os desafios concretos e imediatos experimentados nos corpos de dissidentes sexuais que sofrem as consequências de sua dissidência na forma de preconceito, discriminação e violência que se materializam na expulsão de seus territórios, na ausência de condições dignas de vida e na violação de seus direitos fundamentais. Nesse desafio de chamar Deus de meu bem e envolver-se na experiência erótica de relações múltiplas, talvez não seja mesmo possível falar em teologia (em seu sentido normatizador e absolutista) e o nome que escolhermos para esse movimento será aquele que nos ajudar a viver melhor, como experiência real de ressurreição em meio às forças de morte.

 


NOTAS
[1] A grande variação na forma em que essa e outras siglas são utilizadas revela precisamente a constante negociação em termos de identidades em questões de sexo, gênero e sexualidade e a reivindicação por visibilidade e reconhecimento de diversos sujeitos e grupos sociais no espaço público.
[2] Realizo uma análise detalhada de todo esse processo no livro Via(da)gens teológicas – Itinerários para uma teologia queer no Brasil.
[3] Veja, por exemplo, publicação do Primer Simpósio de Teología Queer: LIMA, Silvia Regina; BOEHLER, Genilma; BEDURKE, Lars Bedurke. Teorias queer y teologías: estar en otro lugar. San José, Costa Rica: Editorial DEI, 2013.

REFERÊNCIAS
ALTHAUS-REID, Marcella. Indecent theology. London: Routledge, 2001.
LIMA, Silvia Regina; BOEHLER, Genilma; BEDURKE, Lars Bedurke. Teorias queer y teologías: estar en otro lugar. San José, Costa Rica: Editorial DEI, 2013.
MUSSKOPF, André Sidnei. Via(da)gens teológicas – Itinerários para uma teologia queer no Brasil. São Paulo: Fonte Editorial, 2012.
SCHNEIDER, Laurel C. Homosexuality, Queer Theory, and Christianity. Religious Studies Review, Vol. 26, no 1, 2000. p. 3-11.
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