Jurema Sagrada em Alagoas. O juremeiro Alex Gomes e a Fazendinha de Zé da Pinga.

Jurema Sagrada em Alagoas. O juremeiro Alex Gomes e a Fazendinha de Zé da Pinga.
28 de junho de 2019 Parmênides Justino Pereira

Jurema Sagrada em Alagoas. O juremeiro Alex Gomes e a Fazendinha de Zé da Pinga.

Parmênides Justino Pereira

Foto de Laila Santana

A Jurema Sagrada em Alagoas é uma religião bastante praticada, em todos os recantos do Estado. Neste texto vamos nos deter um pouco na questão da visibilidade, e neste sentido, dedicamos atenção ao Juremeiro Alex Gomes, de Arapiraca. Nas terras alagoenses, ele é um dos poucos que cultua a Jurema Sagrada num espaço separado do barracão de candomblé, a Fazendinha de Zé da Pinga, considerada o maior espaço de culto da Jurema depois do Acais, na cidade de Allandra, na Paraíba.  Ele se ressente não ter explorado oralmente o que chamou de raízes da Jurema em Alagoas na fala de seu padrinho Liobino, juremeiro de 92 anos da cidade do Igaci “porque o pouco que ele se lembra, porque eu fui, o jumento aqui conviveu a vida todinha com ele (…) e ele o danado do velho com 92 anos tá guardando”.  Um de seus objetivos seria exatamente tentar produzir uma genealogia da Jurema alagoana, pois tem as fontes, ou seja conhece pessoas que sabem descrever as pessoas que praticavam Jurema antes e depois do “quebra de xangô”.[1]  Na pista do que levantamos anteriormente, sobre o protagonismo da Jurema no período do quebra, Alex Gomes se inclui como herdeiro desse legado. “O meu avô de santo foi pra delegacia com prato na cabeça, com panela na cabeça, olha conta os mais velhos, que o delegado de polícia que fez isso com ele morreu numa situação terrível”. Outro sonho dele é ir no Ceará escarafunchar a história do mestre Zé da Pinga, que segundo ele viveu numa cidade chamada Redenção, num lugar onde viviam os escravos da senzala, bem antes da abolição. Mestre Zé da Pinga, em vida, era filho de uma negra com o dono da fazenda em que vivia, um jovem que vivia em Fortaleza e só ia lá duas vezes no ano, se apaixonou pela negra e desse amor nasceu Zé da Pinga.

A história de Alex Gomes com a Jurema começa na infância. Antes mesmo dos oito anos já aconteciam fatos relacionados à espiritualidade. Aos oito anos foi que começaram os “ataques” – como diziam antigamente -, as visões. Foi num desses “ataques” que sua mãe tentou esconder, mas havia uma tia em casa que conheceu o fenômeno e disse que não tinha outro jeito, porque era de família, tinha que levar para um rezador. Então foi levado para um rezador no meio do mato, já afastado da zona urbana da cidade de Igaci, pois nesta época não havia juremeiro ou pai de santo como hoje.

Foi assim que sua tia conheceu e uma comadre Carmosina, que o levou ao encontro do seu irmão, juremeiro Liobino.  Este já sabia do que se tratava, mandou forrar uma mesa, o botaram num canto sem sequer saber do que se tratava, pensava que era uma brincadeira. Quando mestre Liobino abriu a sessão veio a resposta, tomou-lhe os pulsos, fez o chamamento, “abriu os partais”, caiu no chão e sua avó tomou-lhe o espírito. Foi a sua primeira incorporação e a entidade foi conversando com sua avó, dizendo o que tinha de ser dito. A partir desse dia Alex Gomes fugia de casa todas as terças-feiras para ir à casa de Liobino com o argumento de que ia brincar com os amigos.  Para evitar a espiritualidade, foi levado para a igreja Batista, mas não se deu bem, foi para a Assembleia de Deus, onde continuava a sentir dores mas parou de cegar, todavia acabou sendo possuído dentro da igreja mesmo, com a passagem de um bloco de frevo, acabou saindo da igreja e acompanhando o bloco, possuído.  Ao som dos trompetes e trombones Alex Gomes seguiu o bloco conversando com espíritos, falava com pessoas como se estivessem vivas e só depois descobriu que as mesmas haviam morrido há cerca de dois, três anos.  Ele conta que só viu a banda se aproximar da porta da igreja, após isso só lembra que acordou com vozes das pessoas o acordando, com o solado dos pés em carne viva.

Um episódio curioso e que ele lembra com fidedignidade foi de um homem que morreu devendo na bodega de seu Antônio Caetano, que o abordou na roça de milho e deu dicas com detalhes de onde morava, no Morro do Paraguai, contando-lhe onde havia um dinheiro escondido e que ele deveria ir revelar à viúva o esconderijo do dinheiro para pagar a dívida, pois o espírito não sossegava enquanto não fosse resolvida a dívida. Ele não confiou e se negou a tal feito, até que o homem o ficou perturbando a noite, puxando seu lençol. De fato o dinheiro estava enterrado no pé da mangueira em uma panela junto ao pé de cravo e um pé de girau, embora tenha sido um alvoroço, pois a viúva e os órfãos não acreditavam, queriam bater nele, só se resolvendo quando finalmente cavaram e acharam o dinheiro, então fizeram um pacto para não alastrar a história, enquanto Alex Gomes ficou com medo de ir na roça e ver novamente o espírito.

Na Jurema ele tem como exemplo seu padrinho Liobino, homem de profundo conhecimento na Jurema, mas que sempre foi simples. “Mas ele nunca fez casa dele até hoje é uma casa simples”. Conta que Liobino teve muitos afilhados, hoje todos espalhados pelo brasil, alguns abandonaram a religião, mas o velho mesmo não abandona, aos 92 anos está com AVC.  Segundo Alex Gomes, seu padrinho Liobino tem grande possibilidade de encantamento, após a morte, sempre ressaltando a “pureza” da Jurema. Liobino, hoje com 92 anos, seria um dos maiores exemplos dessa geração antiga de juremeiros que não tinham nenhum tipo de relação com a umbanda e o candomblé. A madrinha de Liobino foi Dona Mocinha, uma antiga juremeira que morava no bairro do Bom Parto, em Maceió.  Iniciou-se na vida espiritual entre 23 e 25 anos, seu orgulho, segundo Alex Gomes, é ter sido a vida toda “juremeiro puro”, ou seja, nunca teve envolvimento com o candomblé, nem com a Umbanda.  Nunca sacrificou nenhum animal, porque na jurema dele não havia sacrifícios.  Alex Gomes conta que um tio de Liobino, que teria desenvolvido a finada Mocinha, Zé Cardoso, foi juremado pelo Mestre Manoel Cadete, quando este conhecido mestre da Jurema ainda era vivo.  E por se tratar do juremeiro mais velho de Alagoas, Liobino é considerado por ele o mais importante remanescente da Jurema, mas que, infelizmente, devido a um AVC, perdeu a voz, não sabe escrever, e levará com ele parte dessa história.

Nesta primeira fase da vida espiritual Alex Gomes conviveu com muitas entidades, dentre as quais ressalta Pedro Genésio, Pedro Palmeira, Vó Calu, Cobra Coral, os mais lembrados, mas só recebeu Zé da Pinga aos dezesseis anos. Foi uma fase de muito sofrimento e muito preconceito. Na escola sua espiritualidade se tornou pública aos dezessete anos.  Sofreu mangações, foi expulso da banda de música e quase expulso da escola. Chegou a ser apedrejado, e num episódio de bulling foi desafiado com uma “bimba de boi”, por um garoto, que insistia em chamar pelos seus “cães”. Foi quando recebeu uma possessão e o espírito tomou a bimba de boi e bateu no garoto, mas bateu muito, a ponto de as pessoas acharem que iria morrer.  O garoto ficou sem fala por muito tempo, ocasionando em ameaça de morte por parte de sua família.

Aos quatorze anos descobriu que tinha um irmão de santo na própria cidade do Igaci, o Hidelbrando, igualmente filho da yalorixá Judite. Foi lá que viveu um dos episódios mais importantes dessa trajetória de espiritualidade. O Zé Pilintra que incorporava no irmão Hidelbrando gostava de fazer teste para ver se as pessoas estavam incorporadas de fato, ou apenas fingindo. Então espalhava urtiga no meio do salão e pedia pros espíritos se jogarem em cima. Evidentemente, quem não tivesse incorporado de fato, sentiria os efeitos nocivos da planta.  No dia seguinte causava febre e dores de cabeça, “pinicava o corpo todo” como se fosse sarampo, calafrios, até que tal ritual foi proibido pela Federação espírita, que suspendeu e proibiu essa prática. Mas segundo Alex Gomes, festas de junho eram repletas de gente se jogando e comendo urtiga. Ocorreu que, por maldade, o irmão Hidelbrando e seu Zé Pilintra ordenaram o jogar-se na urtiga, todavia Alex Gomes não estava manifestado, uma vez que seu irmão provocara a incorporação do Exu Marabô e da Cigana Salamandra em outras cabeças. No início ele até gostou, por ficar livre de espírito, mas só depois percebeu que teria que se jogar na urtiga sem está manifestado.  Então mal fechou a boca clamando pelo “inferno”, quando começou a sentir um formigamento nas pernas e ao olhar para as pernas não viu mais nada, perdeu a consciência e, quando voltou a si, estava sem camisa, calça arregaçada, as pessoas ao seu redor rindo e aplaudindo pelo feito. Que feito? Um tal espírito chamado Zé Jurubeba roubou a cena.

Não era um espírito doutrinado, era “um espírito obsessor, brabo, vagando pelo meio do mundo”, que ao ouvir o suplício daquele jovem médium, veio em seu socorro, para evitar que, de fato, o mesmo fosse possuído por forças do “inferno”.  Relata que sua vida passou a ser uma tortura, recebia possessões a todo instante, sua mãe já não suportava a situação.  Era levado para os bares, onde bebia – sem comer -, fumava muito, e pior, não pagava, vivia correndo das tretas, os donos dos bares cobravam a conta na delegacia, na porta da casa. Quando não tinha mais nenhuma bodega que o aceitasse, o espírito orientava alguns bêbados de rua a jogar e ganhar no jogo do bicho. Então se “acostava” e ia beber cachaça. Foi tempo em que levou tiro, facada.

Foi na Jurema de Liobino que o problema se resolveu. Alex Gomes já estava envergonhado por ter se afastado da Jurema e não frequentava a casa do “velho”, porque estava se dedicando mais ao candomblé, mas este foi a sua procura. Na mesa de Jurema foram chamados os mestres, o mestre Pilintra de Liobino, e o tal espírito Zé Jurubeba. Este se sentiu bem na sessão, pediu para não ser tirado “da vida do menino”, com a condição de levá-lo para o caminho do bem e melhorar a vida dele.

Após essa sessão as coisas mudaram, engordou, deixou de beber, de perturbar, sua mãe ficou mais tranquila, foram seis meses sem receber o tal Zé Jurubeba. Quando este deu sinal que estava chegando – diferente de antes que já o tomava – agonia, sopro no ouvido, correu para a casa do velho Liobino, porém antes de abrir a mesa o espírito o tomou, já foi saudando a Jurema, saudando Jesus Cristo, saudando seu Reino, totalmente diferente, calmo, doutrinado.   Na sessão seguinte ele cantou seu ponto, conversou com Liobino, revelou sua procedência, pediu que revelasse a seu discípulo e mais ninguém. Para confirmar sua doutrinação e seu novo pseudônimo “Zé da Pinga”, ele cantou uma zuela: “mandado do Zé Pilintra, Zé da Pinga eu vou lá, se tiver o que beber, eu volto e venho te buscar, bebo na Jurema vou tombar no Ajucá, tombar num é cair, é jeito que o corpo dar”.

Dentre curas e demais benfeitorias e caridades realizadas por Zé da Pinga na Jurema de Alex Gomes, um que tem elevado sua fama na região é o trabalho social que desenvolve na comunidade conhecida como Cabaré Velho, onde funcionava o antigo cabaré da cidade. O sucesso do trabalho é tão reconhecido que o lugar hoje foi popularmente rebatizado como “Favela do Alex”.  Sem fonte de renda definida, a casa de caridade funciona meio que na base do improviso.

Outro grande feito de Alex Gomes, por meio das graças e proteção de Zé da Pinga, foi a construção de um santuário só para a Jurema, a Fazendinha de São José.  São oito tarefas de terras, considerado o maior santuário de Jurema depois do sítio do Acais, na Paraíba. No centro fica o barracão, onde ocorre os rituais, as giras, a bodega de Zé da Pinga. Ao lado ficam quartos e banheiros destinados aos visitantes. Do outro lado fica uma capela dedicada a São José. Nos arredores ficam as casas dedicadas a cada grupo de entidades, uma casa para cada um separadamente, a casa dos boiadeiros, dos mestres das mestras, dos pretos velhos, Malunguinho, caboclos.

No mês de novembro é realizada a festa de Zé da Pinga. Ele não aceita sacrifício de animais há cerca de quatro anos apenas frutas, comidas nordestinas, como o cuscuz, abobora, sarapatel, buchada, caranguejada, etc. Na festa do ano passado, na noite da sexta-feira os grupos se confraternizaram com um lindo sarau, ao som do acordeom do mestre Diviol, afilhado do terreiro de Jurema Casa das Matas do Reis Malunguinho, do sacerdote Alexandre L’Omi L’Odò, em Pernambuco. No sábado pela manhã aconteceu a louvação a São José, na capela construída ao lado do barracão.

Durante a noite aconteceu a abertura da gira da Jurema. Foram cantados zuelas para os principais mestres, em tom de grande animação e integração dos convidados e afilhados da casa. Em seguida Zé da Pinga chegou e tomou conta da festa, regada a muito fumo, cânticos, incorporações, bebidas só para as entidades.  Um dos momentos mais marcantes da festa, foi a chegada de Zé dos Anjos, o Zé Pelintra, incorporado em uma convidada que é considera a juremeira mais velha de Caruaru, onde Zé da Pinga pediu silencio e reverência à chegada desse mestre.  No dia seguinte a festa foi dos filhos e convidados, que beberam, cantaram e dançaram num churrasco muito animado e integrativo, que contou com as visitas ilustres de Pai Manoel Xoroquê e do antropólogo do Ministério Público Federal, Ivan Soares.


[1] Episódio ocorrido em 1912, onde partidários contrários ao governador Euclides Malta saíram quebrando os terreiros de Maceió, espancando os babalorixas e yalorixas, culminando com a morte da conhecida mãe de santo Tia Marcelina, e com o êxodo dos pais de santo para os Estados vizinhos.