Mãe! E o Jardim das Delícias Terrenas: Uma metáfora do Filme de Aronofsky na arte de Bosch

Mãe! E o Jardim das Delícias Terrenas: Uma metáfora do Filme de Aronofsky na arte de Bosch
31 de agosto de 2018 Albert Drummond

Mãe! E o Jardim das Delícias Terrenas: Uma metáfora do Filme de Aronofsky na arte de Bosch

por Albert Drummond

© BagoGames

© BagoGames

No polêmico filme de Realismo Fantástico Mãe! de Darren Aronofsky lançado em 2017, uma nova perspectiva metafórica da criação bíblica do mundo é contada, onde três grandes momentos descritos na Bíblia são revisitados: o Gênesis; o Pecado e o Apocalipse, bem como já havia sido feito por Hieronymus Bosch em Tríptico do Jardim das Delícias (1480-1490). Porém, enquanto o diretor nos apresenta uma estória de forma metafórica o pintor nos dá a literalidade da criação do Mundo e do Ser Humano, expandindo novas perspectivas e olhares sobre Deus e sobre a criação da vida.

Em Mãe! temos um enredo sufocante que conta a história de um casal que vive numa casa afastada e cercada por um bosque. O homem, também marido é a representação de Deus, um escritor que se isolou para escrever sua próxima obra prima; já a Mulher, esposa, é a Mãe Natureza e seu papel é manter a casa (Mundo) em perfeito estado de limpeza e equilíbrio. Enquanto ele passa seu tempo criando, ela cuida e decora o ambiente, um local inclusive que ela o ajudou a construir e preparar. Tudo flui no mais perfeito tempo até surgir um homem (Adão), que se diz fã do trabalho do escritor, com um forte desejo de conhecê-lo antes de morrer.

A presença do forasteiro mexe com o equilíbrio do local e apesar dos protestos quase silenciosos da Mãe Natureza, Deus decide convidar Adão a ficar, revelando para ele seu “sagrado” escritório, onde exibe para o novo “amigo” uma jóia rara (o Fruto Proibido), tão preciosa que sequer poderia ser tocada por outras mãos que não fossem a dele. O fã, doente e viciado nos prazeres terrenos busca em seu ídolo um consolo para seu fim iminente, enquanto a Natureza questiona as boas intenções daquele que adentrou seu espaço e tentou contaminá-lo com seu vício. Numa noite de bebedeira, ao vomitar e expurgar o próprio mal, uma ferida aparece na costela do visitante que passa a ser cuidado pelo seu anfitrião.

No dia seguinte, uma surpresa; na porta da casa, surge a esposa do homem doente (Eva) que também é convidada por Deus a ficar, contrariando ainda mais a Natureza que se sente cada vez mais desconfortável com os estranhos. Eva representa o arquétipo da mulher desajeitada e curiosa, que, como o marido também é viciada, características que exaltam ainda mais a aura de antipatia já criada pela Mãe Natureza. Num dia qualquer, num breve descuido, a mulher de Adão invade o escritório de Deus e sem querer acaba tocando e destruindo o Fruto Proibido; irado, ele os proíbe e os expulsam de seu ambiente de trabalho, lacrando e vedando seu recanto para que nada nem ninguém o invadisse novamente.

Esta primeira parte também é ilustrada de modo literal na obra de Bosch, constituída de dois painéis que compõem as faces externas de um tríptico, formando uma única composição. Em cima, extraído do salmo 32 da bíblia, temos inscrições que descrevem o inicio de tudo: Ipse dixit et facta sunt (Ele disse e (as coisas) foram feitas); Ipse mandavit et creata sunt (Ele comandou e as coisas foram criadas). Além dos dizeres ainda vemos uma representação do mundo que aparece preso dentro de uma esfera de vidro, isolado nos mistérios ocultos do infinito, como a casa no filme de Aronofsky. Ali a terra flutua um pouco acima do mar, sem humanos, sem vida inteligente, a única coisa que compõem a paisagem são plantas e estruturas diversas que brotam da superfície, logo após o dilúvio. Assim que o quadro é aberto, vemos três representações da história da criação, estando na aba esquerda o Paraíso, antes do pecado original acontecer, quando Eva nasce e Deus a entrega a Adão, na aba central o mundo corrompido e na aba da direita as consequências nefastas de nossa incapacidade de preservação.

No painel central, está retratado a decadência do paraíso depois que as criaturas provaram do Fruto Proibido, aonde Éden se torna o Jardim das Delícias Terrenas e passa a se situar entre o primeiro erro da humanidade e a punição sobre eles. O vício/pecado representado no quadro é a Luxúria, que de uma forma encantadora hipnotiza e escraviza todos os habitantes e ao contrario do painel do Paraíso, neste Deus não está presente. Todos os personagens retratados estão nus e tudo acontece na luz do dia, em bolhas transparentes ou escondidas em frutas gigantes, uma fantasia da realidade onde tudo parece mais belo, as cores mais vivas e as pessoas mais felizes, porém não passa de uma armadilha.

No filme, esta segunda parte do tríptico é representada com a inserção de mais dois personagens que chegam sem avisar. Eles são os filhos do casal viciado (Caim e Abel) e por uma competição pela herança do pai que está doente, o caçula, tomado pela inveja, assassina o irmão mais velho numa disputa violenta. A morte de um dos filhos junto com toda tragédia acometida desperta em Deus compaixão que oferece sua casa para o funeral de Abel. Porém a gentileza se torna obrigação e todo o ambiente milimetricamente construído pela Natureza devota é invadido por pessoas desconhecidas que começam a destruir tudo. Ela cansada de tanto desrespeito pede a Deus que expulse todos dali, numa referência direta ao primeiro “fim do mundo” com a inundação da Arca de Noé.

Sozinhos em casa, num curto período, ela engravida e isso provoca no escritor uma inspiração profunda o fazendo criar seu mais novo poema (as escrituras sagradas). Assim que é lançado, o texto se torna aclamado pela crítica, gerando uma grande comoção, levando até a casa, multidões de seguidores entusiasmados pela boa nova. As pessoas, portanto, começam a invadi-la, roubando pedaços e a destruindo por completo; a Natureza, em meio ao caos dá a luz a uma nova vida (Jesus) que por descuido dela, é levada pelo pai que o apresenta aos seus fãs como sua mais nova criação. No entanto o que acontece é um terror e a criança recém nascida acaba sendo morta pelos adoradores, tendo suas entranhas despedaçadas enquanto toda a gente se engalfinha por um pouco do que ainda sobrou do bebê (sangue e carne de Cristo). Deus, por sua vez é misericordioso com todas aquelas pessoas (humanidade), mas não por amor a elas e sim, por amor a si mesmo, já que é claro, ele precisa se alimentar de amor e adoração.

Eventualmente, o caos é tão grande que eles destroem a casa (mundo) e quase matam a Mãe, que numa reviravolta exemplar, resgata suas últimas forças e consegue provocar uma explosão, aniquilando todo o lugar (apocalipse), bem como é ilustrado no terceiro e última parte do tríptico de Bosch, O Inferno Musical1, que com cores escuras e sombrias retrata todas as conscequências do vício, representando as punições em razão da corrupção do corpo e da perda da inocência primordial, colocando a humanidade no inferno ao qual ela mesma se inseriu em prol de prazeres tão efêmeros. Ali, Bosch pinta o submundo de nossas emoções mais perturbadoras, as causas do descompasso humano e do próprio processo civilizatório que só intensificou o que já tínhamos em nós.

O filme de Aronofsky reinterpreta a obra de Bosch oferecendo um novo olhar as mais importantes passagens bíblicas, a fim é claro de mostrar que o mal presente no mundo é oriundo apenas do descaso de seu criador, que, ao fim da construção, se comporta como um menino mimado que se mostra indiferente aos sentimentos de suas criações e de sua amada Natureza. No fim, como uma criança que perde num jogo de videogame e não aceita a derrota, Deus apenas “reseta” seu mundo e começa de novo, num processo de looping temporal eterno, sempre em busca da perfeição que não existe justamente por Ele não entender que não basta criar, há de se educar. O filme é polêmico porque questiona a posição divina perante a nossa existência, e faz o que quase nunca é feito dentro da história do Cinema e da Arte: o questionamento de Deus. Estaria ele construindo mundos em que seres de diferentes evoluções habitam ou somos apenas fantoche de sua vaidade? Seja como for, tanto a Obra de Bosch quanto a de Aronofsky tentam provocar e questionar um tipo de diálogo que quase nunca vemos no campo da religiosidade: quais são as intenções de Deus?


Referências

1 A pintura ficou conhecida assim porque numerosos instrumentos musicais, presentes principalmente na parte inferior do painel, são usados por demônios como objetos de tortura.


ARONOFSKY, Darren. Mother! Paramount Pictures: Estados Unidos, 115 min. 2017.
BASCHET, Jérôme. A Lógica da Salvação. A Civilização Feudal: Do ano mil à Colonização da América. São Paulo: Globo, 2000. p. 374-385.
BOSCH, Hieronymus. Grandes Mestres. Abril Coleções. São Paulo, 2011.
VAZ. Armindo dos Santos. A imagem de um Deus violento na Bíblia. Universidade Católica Portuguesa. 2002.