Breves apontamentos sobre a experiência do Sagrado no Teatro

Breves apontamentos sobre a experiência do Sagrado no Teatro
27 de agosto de 2018 Saulo Vinícius Almeida

Breves apontamentos sobre a experiência do Sagrado no Teatro

por Saulo Vinícius Almeida

© Circuito Fora do Eixo

© Circuito Fora do Eixo

O teatro é uma arte que possui, em sua essência, relação direta com o numinoso. Ele se constitui e tem sua gênese no encontro da realidade profana com o sagrado. Sua origem é localizada em rituais de culto e louvor a deuses e demônios da natureza, nos quais, por meio de danças miméticas e máscaras era transferida aos participantes a força dos entes sobrenaturais por elas representados. O homem durante essa prática era apartado do mundo cotidiano, tendo o seu corpo, a partir do êxtase, arrebatado por essas forças. A transição desse rito para uma forma artística artificialmente organizada se dá, segundo Albin Lesky (2010), quando, na Grécia Antiga, Arion de Metimna realizou uma interferência nas práticas rituais organizando um coro, fazendo-o cantar um ditirambo e designando o que então seria cantado.

Essa interferência possibilitou o surgimento do que hoje denominamos como Tragédia Grega e Drama Satírico. Nestas formas teatrais, os deuses já não se tornavam presentificados pela corporificação, mas sim pela narrativa e pela relação que esta estabelecia com o público. Os mitos utilizados pelos poetas na tessitura dramática eram extremamente comuns às comunidades a que pertenciam, sendo para essas comunidades uma história sagrada e de máxima realidade. Nessa sociedade em que, segundo Jean-Pierre Vernant (2009) não havia oposição entre religioso e social, sobrenatural e natural, a cena possuía a função de um espelho, o qual devolvia a sociedade sua própria imagem, “permitindo-lhe apreender-se em sua dependência em relação ao sagrado, definir-se ante os Imortais, compreender-se naquilo que assegura a uma comunidade de seres perecíveis sua coesão, sua duração, sua permanência através do fluxo das gerações sucessivas” (VERNANT, 2009, p.16-17).

Contemporaneamente, temos sociedades nas quais os seus grupos estão cada vez menos definidos por uma religião. A pluralidade cultural, moral, ética e educacional dos indivíduos que as compõem impossibilita a existência de uma mitologia ou de um ethos não expresso, visto que cada indivíduo possui uma maneira particular de perceber e se relacionar com externo a si (CAMPBELL, 2011). O professor e pesquisador Alexandre Nunes (2015), aponta o paradoxo que atravessa nossos tempos, em que há o crescimento da laicização, mas também o aumento do debate em torno do sagrado, da religião e sua relação com a arte.

No cerne do trabalho teatral – principalmente nas práticas que rejeitam a noção de teatro como imitação da vida e o compreendem como uma realidade viva- há o meio de se captar os fluxos invisíveis que regem nossa vida, mas em uma época laica essa busca por muitas vezes se dá sem um suporte norteador. Vários encenadores nas últimas décadas desenvolveram pesquisas e teorias buscando compreender quais os mecanismos seriam efetivos para gerar a experiência transcendente com o sagrado.  Pode-se citar as práticas cênicas que têm na ancestralidade e nas energias dos orixás, assim como nas experiências de diálogo entre performance e xamanismo, uma via de construção da experiência numinosa.

Historicamente, temos o contundente trabalho do encenador polonês Jerzy Grotowski que desenvolveu pesquisas acercado ator santo e o que ele denomina como Arte como Veículo. Está última, não teria a função de se comunicar com o público, mas a partir de cantos de culturas arcaicas, levar o performer a um percurso de refinamento de suas energias, o qual ele denomina metaforicamente de Escada de Jacó, onde passaria de zonas de energias densas até energias mais luminosas para então ascender a outro estado, o qual Grotowski preferiu não denominar com o intuito de não encerrar as possibilidades de compreensão e busca.

No Brasil, algumas pesquisas atuais dialogam com a proposição de teóricos como Carl Gustav Jung e Mircea Eliade que propõem que o inconsciente se estrutura conforme uma mitologia privada. Eliade (2016), chega a afirmar que para o homem moderno o contato com a sacralidade cósmica se executa pelo inconsciente. Dentro dessa corrente de pensamento e práxis cênica, proponho o que denomino como Cena Mitopoética. Nessa proposta cênica, que busca o dialogo do mito com uma sociedade laica, o performer a partir de estados alterados de consciência ou com a consciência expandida, trabalha tendo como mote um mito que compreenda estar presente em sua vida, com o intuito de realizar um mergulho simbólico e sensório em si. Esse adentrar-se e externar-se por vias simbólicas e arquetípicas estruturam uma via que vai da pessoalidade aos conteúdos de tonalidade impessoal e universal do inconsciente coletivo com o intuito de comunicar e ampliar sua experiência para o coletivo presente no ato.

Essa prática acaba por desvelar as mitologias que guiam de forma não consciente o ator e o coloca em contato, a partir de sua carne, com experiências de cunho numinoso. O fator de interesse nessa abordagem do mito e do sagrado na cena teatral se deve ao fato dela possibilitar que atores não religiosos, e também alunos em formação teatral, travem experiências que expandam sua perspectiva de realidade e de transcendência, assim como possibilitar que esse tipo de prática seja utilizada em âmbito acadêmico sem os riscos de se cair em situações de confronto de crenças ou apropriação cultural. E, finalmente, em consonância com os pensamentos do teatrólogo francês Antonin Artaud, tornar a prática teatral não um produto estético, mas um espaço onde o homem possa mostrar o seu espírito.


Referências

CAMPBELL, Joseph; MOYERS, Bill. O poder do mito. São Paulo: Palas Athena, 2011.
ELIADE, Mircea. Mito e Realidade. São Paulo: Perspectiva, 2016.
LESKY, Albin. A Tragédia Grega. São Paulo: Perspectiva, 2010.
NUNES, Alexandre S. O sagrado contemporâneo do teatro. Urdimento, Florianópolis, v.2, n.25, p.7–22, Dezembro 2015.
VERNANT, Jean-Pierre. Mito e Religião na Grécia Antiga. São Paulo: Martins Fontes, 2009.