As gay, as bi, as trans e as sapatão estão tudo na Igreja: Religião e superação da violência de gênero

As gay, as bi, as trans e as sapatão estão tudo na Igreja: Religião e superação da violência de gênero
20 de abril de 2018 Ana Ester

As gay, as bi, as trans e as sapatão estão tudo na Igreja: Religião e superação da violência de gênero

Por Ana Ester

© Franco Folini

© Franco Folini

Gritos de guerra. Cresci envolvida por eles. Na época das Olimpíadas no colégio, tínhamos vários na ponta da língua. “Passou, passou um avião e nele estava escrito que fulano é campeão”. Tirávamos do fundo do peito o fôlego para a torcida, para a competitividade. E não era à toa que meninos e meninas sempre se enfrentavam. Eu sempre torci pelas meninas, afinal não dava para ser diferente. Não era aceitável que meninas torcessem por meninos. Mas, na minha época, ainda que eu o fizesse, eu não seria chamada de sapatão. Uma menina sapatão? Não, isso era coisa de se descobrir depois da puberdade, já jovem, coisa de hormônios. Sabe? Eu não sei.

Ano passado fui a uma Festa Junina, dessas em que mudam o nome para Festa Country só para não se aproximar da catolicidade da natureza do evento. Lá, entre pescarias e maçãs do amor, vi-ouvi-senti algo que me marcou profundamente. Um pai, com os seus quarenta e poucos anos, gritando para uma menina: “Sodomita!”. Grito de guerra. Aquele grito me lembrou de minha infância, na qual fomos ensinados e ensinadas a encher os pulmões para torcer contra, e raras vezes a favor de alguém.

Sodomita! Muito provavelmente, e assim espero, aquela menina não entendeu o que aquele pai, com já alguns fios brancos na cabeça, quis dizer. Eu não vi o contexto que levou o pai àquele grito. Mas sei bem o que sodomita quer para ele dizer. Durante anos, a homossexualidade foi considerada o pecado de Sodoma e Gomorra, que as levaram à total destruição. Segundo Miner e Connoley, em seu livro “Deus nos fez livres”, existem algumas passagens bíblicas consideradas condenatórias aos homossexuais. São os chamados “Textos de Terror”. Dentre eles, a narrativa de Sodoma e Gomorra, em Gênesis 19.

A passagem narra a história do sobrinho de Abraão, Ló, que havia se mudando para Sodoma. Deus avisou a Abraão que a cidade seria destruída em breve, por causa de sua iniquidade. Dois anjos foram enviados para averiguarem a situação. Ló os convidou para se abrigarem em sua casa. Na mesma noite, quando os habitantes da cidade descobriram que Ló havia acolhido dois estranhos, reuniram-se todos diante de sua casa, exigindo que Ló os entregasse para que pudessem “conhecê-los”. A palavra conhecer, neste versículo (Gn 19, 5), é usada com o sentido de “ter relação sexual”. Ló chegou a oferecer suas filhas no lugar dos visitantes. Então, os anjos cegaram todos os que estavam do lado de fora e sugeriram que Ló deixasse sua casa com sua família. No dia seguinte, o fogo desceu do céu e arrasou toda a cidade e seus habitantes.

Desde a Idade Média, muitos teólogos cristãos usam essa passagem como reforço contra a prática homossexual. O sistema que suporta esse tipo de interpretação bíblica e leva a gritos discriminatórios, como o daquele pai, é o patriarcado. Etimologicamente, patriarcado tem origem no latim pater familias, ou seja, o poder do pai sobre seus filhos e filhas e sobre os demais membros do clã ou da casa. Segundo Schottroff, Schroer e Wacker, no livro “Exegese Feminista”, é um termo jurídico, que afirma o domínio do homem sobre sua casa, apontando para dependência jurídica, política e econômica de mulheres, crianças e pessoas não livres. Em outras palavras, patriarcado, em princípio, não está associado somente com as relações entre homens e mulheres, mas com relações de subordinação que se estabelecem por questões de gênero, raça, etnia ou condição social.

Apesar do conceito de patriarcado apontar para as relações de subordinação que se estabelecem por questões de gênero, raça, etnia ou condição social, o gênero, como categoria de análise, acabou se limitando à compreensão do termo em um sentido mais relacionado a mulheres e homens. Para Schüssler-Fiorenza, em seu livro “Caminhos da sabedoria”, esse conceito é desenvolvido como instrumento para identificar e desafiar as estruturas sociais e ideológicas que permitiram aos homens dominar e explorar as mulheres ao longo de toda a história.

Entretanto, estudos mais críticos com relação às Sagradas Escrituras questionam esse patriarcado, colaborando com a percepção do lugar social das mulheres e das interfaces que as atravessam, e suspeitando, assim, do naturalizado e do universalizado. Nesse sentido, o grito Sodomita já não se restringe mais a um grupo de práticas e vivências sexo-divergentes, mas sim a pessoas que não preservaram a hospitalidade como mandamento de seu Deus. Essa leitura é fruto do método histórico-crítico, o qual permitiu que suspeitas fossem feitas ao texto. Seria crível que todos os homens e meninos da cidade fossem homossexuais? Afinal, a passagem diz que “desde jovens até os velhos, todo o povo sem exceção” se reuniu à porta de Ló. Se eles fossem homossexuais, por que Ló, então, ofereceu suas filhas? Afinal, se o desejo daqueles homens fosse homossexual, oferecer-lhes sexo heterossexual não teria sentido algum.

O método histórico-crítico de exegese das Escrituras permite que a Bíblia interprete a própria Bíblia. Assim, Ezequiel 16, 49-50 seria uma boa chave interpretativa para o caso de Sodoma e Gomorra: “Eis que consistia a iniquidade de Sodoma, tua irmã: na voracidade com que comia o pão, na despreocupação tranquila com que ela e as suas filhas usufruíam os seus bens, enquanto não davam nenhum amparo ao pobre e ao indigente. Eram altivas e cometeram abominação na minha presença. Por isto eu as eliminei, como viste”. Registros arqueológicos revelam que a prática homossexual era comum no Oriente Médio, na Antiguidade, como recurso de humilhação. Assim, a prática não era motivada por desejo sexual, mas sim por brutalidade e ódio ao inimigo.

É ao menos irônico pensar, então, naquele homem chamando aquela menina de Sodomita. Discursos cheios de ódio são gritos de guerra, aqueles mesmos que inocentemente fomos aprendendo no ambiente escolar. Gritamos nossos preconceitos, nossa LGBTfobia, nosso racismo, nossa misoginia, nosso horror ao pobre.

E ainda assim, nós, LGBTs, vamos construindo espaços de resistência, criando igrejas e lançando mão de métodos interpretativos dos textos sagrados que libertem nossos corpos e nossa vivência homoafetiva. Vamos gritando a mudança: “As gay, as bi, as trans e as sapatão tão tudo reunida pra fazer revolução!” e, pouco a pouco, transformamos aqueles gritos de guerra em gritos de paz.