A Ira de Deus em The Handmaid’s Tale

A Ira de Deus em The Handmaid’s Tale
9 de Abril de 2018 Albert Drummond Lopes

A Ira de Deus em The Handmaid’s Tale

Por Albert Drummond Lopes

© The Handmaid's Tale

Considerada a melhor série de 2017, adaptada do livro O Conto da Aia de Margaret Atwood, The Handmaid’s Tale é o retrato de um mundo não muito distante que questiona nosso Mal camuflado de Bem. No enredo, um desastre ambiental torna a maioria das mulheres estéreis, a decepção econômica junto com o desejo de mudança facilitam com que o imaginário da população, insatisfeita, seja reestruturado por um grupo fundamentalista cristão autodenominado “Os Filhos de Jacó”, responsáveis por um golpe que destitui o Congresso. A Constituição é substituída por uma leitura deturpada da Bíblia e o radicalismo religioso é utilizado como arma para a manutenção dos “valores tradicionais da família”. A sociedade, que já estava cansada de tanta corrupção, valida o golpe e justifica as atrocidades que se seguem em nome de Deus, resgatando uma ética moral baseada na tríade da culpa, da punição e da salvação. O país passa a se chamar República de Gilead e a sociedade se divide em castas; médicos, padres e homossexuais são perseguidos e enforcados em praça pública; mulheres são fragmentadas e passam a viver para servir o patriarcado. O governo não se sustenta e depende da violência e da religião para validar a segregação e manutenção dos privilégios da elite. No enredo, a principal referência bíblica, reafirma a posição em qual a mulher deixa de ser individual e passa a ser De alguém (seus nomes se tornam referências aos homens que as comandam (a protagonista Offred é “Do Fred” em inglês). Divididas em castas, a distopia nos apresenta arquétipos femininos como: as Esposas, reduzidas aos cuidados da família; as Marthas, à limpeza e a cozinha; as Aias, mulheres ainda férteis que se tornam procriadoras oficiais do Estado (referência direta a Bila, personagem bíblico que é dada a Raquel como serva: “Vendo Raquel que não dava filhos a Jacó, teve inveja de sua irmã, e disse a Jacó: Dá-me filhos, se não morro. E ela disse: Eis aqui minha serva Bila; coabita com ela, para que dê à luz sobre meus joelhos, e eu assim receba filhos por ela”. Gênesis 30.1-3; as Tias, são as mulheres de autoridade, permitidas ao sadismo e responsáveis por educarem e corrigirem as Aias, e por fim, as Jezebels, prostitutas licenciadas, símbolo da hipocrisia que acomete a nova ideologia. Em maior ou menor grau, todas as facetas femininas são desumanizadas e objetificadas, transformadas em utensílios pelos homens no poder. Nada do que vemos na série, nos parece distante, pelo contrário, percebemos que os direitos daquela sociedade foram tirados aos poucos, dando tempo para que uma nova mentalidade se instalasse. O sentimento generalizado de humilhação nacional também foi um facilitador do golpe fazendo com que a população se deixasse seduzir pelas promessas da ditadura. A política ruim que causaram crises deixou um rastro de frustração, suficiente para que desesperadas, as pessoas apoiassem loucos que nunca atrairiam uma multidão em circunstâncias normais. O pesadelo lírico criado por Atwood, em 1985, parece mais contemporâneo do que deveria e consegue refletir hábitos históricos que não cansamos de repetir. Na Rússia, violência contra as mulheres deixa de ser crime se cometida por alguém da família; na Chechênia, homens gays são enviados à campos de concentração a fim de serem aniquilados; nos EUA, Trump cancela fundos de planejamento familiar e tira de forma progressiva a autonomia das mulheres; aqui, Temer declara que o governo “precisa ter marido” para ser controlado, em referência à crise fiscal, enquanto Bolsonaro, um conservador histérico se torna ídolo nacional e é cogitado a governar o Brasil. Como coadjuvante, religiões validam os discursos e o vício da Ira, que uma vez foi pecado, agora se torna virtude. Em The Handamaid’s Tale o que se prevê hoje no mundo como tendência se torna profecia. Revelador e necessário, a série da plataforma de Streaming Hulu vem colocar o dedo em nossas feridas e alertar sobre caminhos nem tão desconhecidos assim. Vale uma boa reflexão.


Referências
ATWOOD, Margaret. O Conto da Aia. Ed: Rocco. 1ºed 2017.
CAMPELO, Eliane. “A Visão Distópica de Atwood na Literatura e no Cinema”, Interfaces Brasil / Canadá, N.º 3, Vol. 1, Belo Horizonte, p. 197-210, 2003.
MILLER, Bruce. The Handmaid’s Tale. Hulu. 1º temp, 10 episódios. Adaptação do livro O Conto da Aia, de Margaret Atwood, 1985. Lançamento 26 abril 2017.
POWELL, Jim. Como os ditadores vêm ao poder em uma democracia. Forbes, 5 de fev de 2013.