Sexualidade, religião e as restrições do Amor

Sexualidade, religião e as restrições do Amor
9 de novembro de 2017 Ailton Dias

Sexualidade, religião e as restrições do Amor

Por Ailton Dias de Melo

© Cathal Mac an Bheatha

Desde o século XVIII, o sexo foi colocado em discurso em nossa sociedade, produzindo-se uma verdade sobre ele que é também tida como uma verdade sobre os sujeitos. Segundo o filósofo francês Michel Foucault (2014), desde essa época o sexo foi reduzido a uma função exclusivamente reprodutora e a vivência da sexualidade entre um “casal” formado por um homem e uma mulher passou a ser um “modelo”. Toda sexualidade vivida fora desse padrão tornou-se “amor mal” e por isso deve ser reduzido ao silêncio e se configura como o proibido e pecaminoso. Segundo Knudsen (2007), com o início do desenvolvimento da teoria da construção social, por meio do pensamento de Foucault e de outros autores na década de 70, a concepção da sexualidade incluiu uma forte crítica à biologia, numa distinção entre sexo e gênero, que seguiu em oposição às teorias essencialistas e ao naturalismo do comportamento sexual. Michel Foucault que em três volumes de uma obra intitulada História da Sexualidade e em outras partes de sua obra trata de questionar a sociedade moderna afirma ao longo de suas reflexões que, desde o século XVIII a sociedade se maltrata pela sua própria hipocrisia. A distinção do sócio-cultural do essencialismo e do naturalismo ampliou o abismo entre o sagrado e o profano. O que não é “natural”, próprio da “essência humana” é impuro, aponta para desobediência logo para o pecado.

Neste movimento, a sexualidade tornou-se objeto de atenção das instituições de controle, que passaram a produzir um discurso que não é unicamente o da moral, mas também o da racionalidade. Nossa história ocidental construiu, assim, um discurso “técnico-científico” sobre a sexualidade que se constitui atrelado às relações de poder. Segundo Foucault (2014), o poder incitou uma proliferação de discursos através da igreja, da escola, da família, do consultório médico. Com isso, essas instituições, ao contrário do que se pensa, não visavam apenas proibir ou a reduzir a prática sexual; na verdade visavam ao controle do indivíduo e da população. Na obra O corpo educado – pedagogias da sexualidade, Louro (2000) aponta como o poder estabelecido sobre o sexo dominou nossa cultura e deu para relação binária de norma reprodutiva e heterossexual um status de naturalidade.

[…] muitos consideram que a sexualidade é algo que todos nós, mulheres e homens, possuímos “naturalmente”. Aceitando essa idéia, fica sem sentido argumentar a respeito de sua dimensão social e política ou a respeito de seu caráter construído. A sexualidade seria algo “dado” pela natureza, inerente ao ser humano. Tal concepção usualmente se ancora no corpo e na suposição de que todos vivemos nossos corpos, universalmente, da mesma forma. No entanto, podemos entender que a sexualidade envolve rituais, linguagens, fantasias, representações, símbolos, convenções… Processos profundamente culturais e plurais. Nessa perspectiva, nada há de exclusivamente “natural” nesse terreno, a começar pela própria concepção de corpo, ou mesmo de natureza (LOURO, 2000, p. 6).

A sociedade ocidental se organizou, portanto, sobre padrões normativos rígidos, com premissas de “naturalidade” fazendo com que os indivíduos que, por algum motivo escapam das expectativas e se constituem de modo diferente do previsto, esbarrem na manutenção do poder, tendo que enfrentar grandes desafios para ser e viver como acredita que deve e deseja. Isso se dá de modo especial porque os padrões foram normatizados pelas Scientia Sexualis (FOUCAULT, 2014). Existe, portanto um discurso chancelado pelo poder da “ciência”.

Nesse cenário, as instituições sociais, sobretudo educacionais, e as instituições religiosas assumiram para si o discurso da ciência a fim de obterem para suas teses de verdade uma chancela científica.   Essas instituições se consolidaram nas diversas configurações de grupos humanos para colaborarem com a manutenção da disciplina. Foucault (2007) acena para os sentidos das disciplinas, sob os quais se reorganizaram as instituições na modernidade, baseadas em técnicas de poder que incidem sobre os corpos visando ao seu domínio detalhado para produzir subjetividades específicas. Segundo o pensador francês,

[…] esses métodos que permitem o controle minucioso das operações do corpo, que realizam a sujeição constante de suas forças e lhes impõem uma relação de docilidade-utilidade, são o que podemos chamar de ‘disciplinas’ (FOUCAULT, 2007, p. 180).

Segundo Oliveira (2007), as instituições sociais agrupam um conjunto de regras e procedimentos padronizados, reconhecidos, aceitos e sancionados pela sociedade. São modos de pensar, sentir e agir sempre preestabelecidos e destinados à normatização.

Os processos de normatização disciplinadores, baseados na masculinidade e consequentemente na heterossexualidade, passaram a produzir corpos dóceis e destinados a uma conformidade padronizada e binária. Assim, os investimentos do poder disciplinar e do biopoder concorreram para a produção do sistema linear de relações entre sexo-corpo-gênero. A partir da medicalização das práticas sexuais e da invenção do sujeito homossexual, é intensificado um empreendimento biopolítico de controle sobre o corpo e a sexualidade.

No campo mais específico das religiões, nosso foco aqui, os dispositivos de controle (re) elaborados na modernidade reforçam a ideia de que as pessoas que de alguma formam transgridem, por exemplo, a heteronormatividade não devem ser totalmente excluídas das comunidades. No entanto a aceitação/pertença é condicionada à suspeição das práticas tidas como de “amor-mal”, consideradas “anti-naturais” imorais, perversas, transgressoras, pecaminosas e etc. Exemplo disso são máximas como as que afirma ser necessário amar o/a homossexual sem, no entanto, admitir sua homossexualidade, em suma é preciso amar o/a pecador/a e não seu pecado. Esse controle aplica àquelas/es que desejam integrar instituições como o catolicismo um celibato compulsório já que relações eróticas/sexuais são permitidas apenas depois do casamento. No entanto, o casamento homossexual não é permitido. Como negar diante disso a distinção de pessoas? Como se sustenta aí a afirmação de amor incondicional e de acolhida fraterna do mandamento maior do cristianismo?

O que se pode observar nas atuais conjunturas é uma possibilidade de certa integração/participação de pessoas homossexuais em algumas religiões e, mais especificamente, algumas igrejas. Mas isto está condicionado a lugares/funções específicas. O poder participar, o poder se dizer parte de alguns grupos religiosos não implica assumir lideranças, funções rituais, frentes de formação e etc. Tudo isso gera vivências clandestinas…

Como no conto “Felicidade Clandestina” de Clarice Lispector (1998) em que um livro guardado e tido como emprestado num plano sórdido de fazer esperar o que se pensa jamais liberar, fico pensando que, nas religiões, não é sobre tudo que se pode pensar.  Um dos dispositivos de controle do saber é não permitir, sobre alguns assuntos tratar, mesmo que dia a após dia se ensaie algumas temáticas poder abordar.  No conto, uma menina, filha de um dono da livraria, detém sozinha As reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato. Um livro grosso com o qual, segundo Clarice, se poderia viver. A dona do livro diz poder emprestar, manda buscar em sua casa, mas procurada diz já ter emprestado e que em outro dia se deve voltar… Muitos dias de ansiedade e expectativa. Um plano perverso em que se lança todo desejo em um dia seguinte. Quem quer o livro volta vários dias… Resiste! Até que a mãe da dona do livro intervém, revela que o livro além de nunca ter saído de lá também não foi lido. Há uma ordem de empréstimo imediato.  Com o livro nas mãos:

Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo. Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar… Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada. Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo. Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante (LISPECTOR, 1998, p. 5).

Diante desta provocação acredito não ser preciso seguir com uma reflexão sobre a clandestinidade nas relações entre sexualidade e religião. Deixo para cada leitor/a a sequência de elaborações. Substituo o ponto final por reticências afinal não tem como terminar de dizer sobre algo que está longe de vislumbrar um final…


Referências

FOUCAULT, M. História da sexualidade1: a vontade de saber. Rio de Janeiro: Paz & Terra, 2014.
FOUCAULT, M. Vigiar e punir: história da violência nas prisões. 34. ed. Petrópolis: Vozes, 2007.
LISPECTOR, C. Felicidade clandestina. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.
LOURO, G. L. Pedagogias da sexualidade. In:______. O corpo educado: pedagogias da sexualidade. 2. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2000. cap. 1, p. 7-34.
KNUDSEN, P. P. P. S. Gênero, psicanálise e Judith Butler: do transexualismo à política. 2007.  153 p. Tese (Doutorado em Psicologia) –  Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, São Paulo, 2007.
OLIVEIRA, P. S. Introdução à sociologia. 20. ed. São Paulo: Ática, 2007.