Juventude, Fé e Negritude: a importância de crer numa Sacralidade Negra

Juventude, Fé e Negritude: a importância de crer numa Sacralidade Negra
3 de novembro de 2017 Thiago Teixeira

Juventude, Fé e Negritude: a importância de crer numa Sacralidade Negra

Por Thiago Teixeira

Jamilly Jully © Thiago Silveira

Jamilly Jully © Thiago Silveira

Pensamos ser a fé uma das mais fortes disposições humanas. Sua importância é singular no que diz respeito a um dos maiores anseios de nossos maiores: encontrar sentido para a vida. Para nós, essa busca pela compreensão de si mesmo no mundo, perpassa e encontra o lugar do Sagrado. De modo pontual a pergunta sobre si se intensifica na juventude. Naquele momento somos atravessados pelos medos, angústias e expectativas.

Há, contudo, uma intensificação e manutenção de padrões que façam com que os jovens enxerguem o mundo de uma forma e a renunciar a outras. A negritude, inclusive é preterida, por vezes, como forma de enxergar o mundo e de se posicionar no mesmo. Está claro para nós que esse processo se dá através da história de subjugação das existências negras. É preciso afirmar a negritude. Nós a entendemos, orientados por Monga — ao citar Césaire —, como “o conjunto dos valores culturais do mundo negro” (MONGA, 2010, p. 16).

Essa negritude, isto é, todos os valores que se originam de nossa ancestralidade nos servem de orgulho e empoderamento. Esse caminho não mina a Religião, ao contrário, ele a exige. O Candomblé, nesse ínterim, assume um importante papel na Realidade dos Jovens. Tal importância se amplia e ramifica: a) liga o jovem às divindades que os formam moralmente e espiritualmente; b) vivencia a dinâmica da comunidade, respeito e a compreensão de estruturais éticas dentro do Ilê e fora dele.

Quando olhamos para o Censo do IBGE em 2010, e vemos um número expressivo de Jovens Católicos Apostólicos Romanos e Pentecostais, compreendemos que de, alguma forma, a juventude escapa de outras compreensões e vivências de fé. Ora, por que isso se dá? Pensamos que o maior e mais duro entrave que se apresenta aqui de modo implícito é o racismo estrutural.

Ele, ao seu modo, determina quais são as experiências legítimas que podem ser acessadas e disseminadas no que tange à vivência religiosa. Por isso, fica tão difícil dissociar intolerância religiosa de práticas racistas. Parece-nos que essas duas violências se atravessam organicamente.

Falar, discutir e apresentar a negritude é um ato de legitimar sua fé ancestral e também uma ação política. Tratar do Candomblé numa via positiva, isto é, como possibilidade afirmativa de crença é apesentar a força de se afirmar como negro. Ali são cultuados os Orixás, Inquices e Vodunses. Neles se reconhece a importância da ancestralidade, da fé, da estética e da existência negra.

É preciso reconhecer Deus (es) também como  negro (s). Esse processo é libertador e transformador. Fazer com que jovens — e não jovens — vislumbrem a possibilidade do sagrado ser negro ou  mulher negra, tem uma importância significativa. Só romperemos com lógicas de subjugamento e violência quando retirarmos a negritude e suas importâncias e divindades, de um lugar intocável.


Referências

MONGA, Célestin. Niilismo e negritude. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
CENSO DEMOGRÁFICO 2010. Características gerais da população, religião e pessoas com deficiência. Rio de Janeiro: IBGE, 2012. Acompanha 1 CD-ROM. Disponível em: . Acesso em: Setembro- 2017.
GIUGLIANI, Beatriz. Aos pés da sumaúma – A linguagem do Candomblé e a formação dos professores. Olhares Sociais. Bahia.V. 2, nº 1, p. 254 a 263.